Pretty Little Liars – A beleza é um bem superficial

Para quem vê a série e leu a minha revisão ao primeiro livro, provavelmente não vê grandes diferenças do livro para a serie. Na verdade o primeiro livro até é retratado quase que fielmente. Mas é neste segundo volume que as coisas começam a mudar ligeiramente.

Após a policia encontrar o corpo de Alison DiLaurentis no quintal traseiro da casa onde esta viveu, as quatro amigas juntam-se finalmente no funeral para uma ultima homenagem, e descobrem finalmente que “A” não ameaça unicamente uma delas, mas que todas recebem as mesmas ameaças. E todas elas têm segredos que apenas Alison conhecia. E parece que “A” já não consegue esperar para dar com a língua nos dentes.

Ora, embora tenham descobertos que são vitimas em comum, as quatro amigas mantêm-se distantes, cada uma sem querer revelar ás outras, qual a forma de chantagem que “A” utiliza para cada uma delas.

Spencer Hastings – Ser perfeita como a irmã torna-se cada vez mais difícil, agora que toda a familia descobriu o seu caso com o namorado de Melissa – Wren. Spencer está absolutamente sozinha na própria casa, onde parece que ninguém voltará a falar para ela… Mas talvez o castigo tenha sido demasiado, pois é assim que Spencer decide continuar a encontrar-se com Wren (e ao contrário do que vemos na serie, é com ele que acaba por ter relações).

Hanna Marin – Mona Vanderwall, a sua melhor amiga parece descontente com o distanciamento de Hanna. Esta no entanto tem como preocupação Sean, que parece achá-la uma leviana desesperada por sexo e acaba a relação, após Hanna tentar forçar o acto.Hanna está cada vez mais próxima dos seus actos bulimicos, mas nisto o pai reaparece na sua vida. Hanna torna a reencontrar-se com Kate (filha da namorada do pai), e decide dar-lhe uma segunda oportunidade de amizade.. Mal jogado Hanna…

Aria Montgomery-  Ezra encontra-se firme na decisão de andar com uma aluna, quando descobre no telemóvel de Aria que “A” sabe de caso. No entanto parece que Aria não consegue sofrer por um homem durante muito tempo, pois nisto aparece Sean, recém separado de Hanna. Aria desabafa com Sean o caos em que está a sua família, e como sabe que o pai tanto anos depois reatou com a antiga amante Meredith. Sean em troca conta-lhe um segredo seu: “Já não tem a certeza se quer permanecer virgem por muito mais tempo”.

Emily Fields – Parece demorar a perceber que é homossexual. Afasta-se de Maya, ignorando as suas vontades primárias. Após ser agredida por Ben (o seu ex-namorado que descobre o seu caso com Maya) é salva por Toby, o irmão de Jenna. Emily não se apercebe que Toby sabe de todo o envolvimento delas no caso Jenna, e acaba por a sair com ele, no desespero de não se sentir homossexual.

Mas parece que Toby só levou com as culpas da cegueira de Jenna, porque Alison também sabia um segredo seu. Um segredo que parece ser ainda mais repugnante do que cegar Jenna, pois Toby preferiu arcar com as culpas desse caso, do que enfrentar aquilo que Alison sabe. E não, Toby não é a boa pessoa que na serie acaba por se envolver com Spencer. Na verdade, Toby nem sequer chega terceiro livro… É ler para ver!

 

 

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Pretty Little Liars – Nunca confies numa rapariga bonita

“Três podem guardar um segredo, se duas estiverem mortas” Benjamin Franklin

A cidade de Rosewood parece ser o sitio perfeito para viver. Cheira a relva fresca no verão, e a fogões de lenha no inverno. Em vez de casas pré-fabricadas (usuais nos EUA) Rosewood é composta por mini mansões, com acabamentos em mármore, piscinas, jacuzzi, e todo o luxo possível  para os seus habitantes de classe média alta.

Ali, os adolescentes são todos parecidos. Bonitos, bem vestidos, com telemóveis de ultima geração, e carros de alta cilindrada. A vida parece perfeita em Rosewood Day… Mas não, se esgravatar-mos apenas um bocadinho.

Sara Shepard, é a autora de Pretty Little Liars. A história é narrada com uma entoação escarninha, talvez até com alguma mesquinhez, dando ênfase ao tipo de sociedade e mentalidade para onde seremos transferidos, mal damos inicio á leitura.

Alison DiLaurentis, é uma rapariga linda, perfeita, boa aluna, e uma desportista exemplar e competitiva. Todos sonham ser como Alison ou tê-la como amiga. Ou será que não?

Alison desaparece misteriosamente no final do ano lectivo do sétimo ano. No inicio todas as suas melhores amigas, choram e afligem-se. Quem levou Alison? O que lhe teram feito? No entanto com o passar dos anos, o caso começa a esmorecer. As amigas tentam encerrar o luto por Alison.

A aflição começa a dissipar-se, dando lugar a um novo sentimento – alivio…

Com Alison desaparecida, elas têm a certeza de que todos os seus segredos, estarão seguros.

As raparigas separam-se, deixando de se contactar, e passam entre si na escola, fingindo que não se conhecem.

No entanto, três anos depois, alguém as chantageia, e pretende denunciar todos os seus segredos. Todas elas em comum recebem mensagem do misterioso “A”, que parece saber todos os segredos enterrados do passado, mas também os do presente.

Aria Montgomery esteve emigrada na Islândia durante doia anos, e volta a Rosewood, com o mau pressentimento de que ali será apenas atormentada pelas más lembranças. Apenas Alison e ela, sabem do caso que o pai de Aria teve outrora com uma aluna de vinte anos, apanhado em flagrante pelas duas, num banco traseiro de um carro. Aria, esconde o que viu á mãe, mas será que “A” o fará por ela?

Não sendo a única preocupação, Aria envolvesse com um  atraente desconhecido num bar mal cheiroso, logo no primeiro dia de volta a Rosewood. Depois de um caso, nas casas de banho sujas do bar, Aria volta a reencontrá-lo, nada mais nada menos na escola, como professor Fitz, o novo professor de inglês. “A” parece estar a par, do seu novo romance. Afinal relações professor-aluna, talvez sejam de família.

Spencer Hastings é filha de uma importante família, onde ser perfeito, é mais que obrigatório. Com complexo de inferioridade habitual de irmã mais nova, Spencer combate efervescentemente Melissa (a sua irmã mais velha), ficando no entanto sempre aquém das suas expectativas. Á no entanto algo, que Spencer sempre ganha ás custas da irmã – os seus namorados. Afinal, quem manda Melissa envolver-se com rapazes tão apetitosos e sexy?  Apenas confidenciara com Alison, o caso com o ex-namorado da irmã, Ian Thomas. Mas então como é que “A” parece saber também?

Emily Fields é a filha modelo, de perfeita educação e obediência. Pratica natação com afinco para ganhar uma bolsa universitária, e namora com o capitão de equipa Ben, um rapaz atlético, bonito, de olhos azuis. Mas então porque é que Emily se sente enojada, sempre que sente a língua de Ben no seu pescoço? Porque é que Maya (uma nova aluna, residente agora na antiga casa dos DiLaurentis) parece muito mais apetecível e fresca? Emily apenas beijara anteriormente uma rapariga – Alison. Mas isso não significa que ela seja gay pois não?

Hanna Marin uma antiga tótó do grupo, gordinha e cheia de problemas de auto-estima. Após o desaparecimento de Alison, Hanna junta-se a Mona Vanderwall, outra croma, que sempre fora desprezada por Alison, e decidem reinventar-se. De um ano para o outro passam a ser as raparigas mais bonitas e populares da escola. Mas Hanna não conseguiu ficar magra apenas com exercício. A escova de dentes goela abaixo foi na verdade a sua melhor amiga para conseguir o corpo que tem actualmente. Esse vicio agora já ultrapassado (mais ou menos), dá lugar a outro – roubar artigos de luxo, nas lojas preferidas. Mas “A” não parece disposto a deixar passar e branco.

Hanna, após o esforço atroz para perder peso, e virar sexy e arrebatadora, consegue finalmente o seu objectivo, namorar Sean Ackard. No entanto todos os esforços parecem ter sido em vão, pois Sean ingressa num clube de virgindade, e parece que Hanna não é para ele, a rapariga ideal para a primeira vez.

Será que “A” denunciará os segredos de cada uma? Será que ele também sabe do caso que todas receiam em conjunto? O caso Jenna?? Apenas elas sabem o que se passou com Jenna. Mas por vontade delas, ninguém mais poderá saber.

Será por causa de Jenna que Alison desapareceu?

Nota: Após reler a colecção pela segunda vez, e de já saber quem é o “A”, não entendo como é que “A” pode ter estado em três sitios diferentes na noite da festa do Noel Kahn, quando tinha perfeito alibi e se encontrava também com os copos.. Fica por explicar….

Reflexão do dia – A inveja como estado de espírito

O tema de hoje pode vir a ser complexo, e nem sempre de compreensão total. “Esgravatar” os  motivos da inveja é algo que muitos acham não ser sequer necessário. Mas não será uma forma de conhecimento e altruísmo, tentar conhecer e perceber, todos os comportamentos do ser humano? Incluindo os maus, como algo tão importante como os bons? Admitir que sentimentos maus existem, tal como os bons? Dá sempre que falar… Mas ja lá vamos…

Muitas vezes ao criar personagens, não podemos apenas criar um nome e uma descrição de um corpo. Todo a sua personalidade, previsão de comportamentos e individualidade, deve ficar registada.

Ao escrever um livro dedicamos o tempo a conhecer nós próprios as nossas personagens, o porquê de fazerem o que fazem, criando uma vasta linha de hipóteses, que podem variar consoante os estimulos internos e externos que decidimos se existem ou não.

Um texto escrito por nós próprios, é o nosso pensamento, a criação do nosso mundo. E fazer com que o nosso mundo se parece com a realidade e predictabilidade de comportamentos, remete-nos a vários exemplos de vida. É simplesmente mais facil, recriar personagens, inspiradas em pessoas que já conhecemos, do que em algo que nunca vimos, ou presenciamos.

No entanto á que tentar entender todos os pontos de vista possiveis, e tentar perceber não só os bons comportamentos, como também os maus comportamentos. Por vezes, algumas acções são mais complexas do que simplesmente estereotipar a pessoa como “má peça”. Temos de entender todos os lados possiveis, e perceber as razoes que levam o individuo a agir de uma certa forma.

Criar uma boa personagem, é criar um ser vivo num mundo paralelo. Isto não quer dizer, que este não mereça ser congruente, realistico, e veridico.A criação de uma boa personagem, pode ser mais dificil do que possa parecer ao inicio.

E, contrariamente á vida real, gostando dela, ou não, temos que a fazer perceber a nós próprios, e aos leitores, quais os motivos da nossa personagem.

Deixo-vos com um antigo trabalho universitário meu. Espero que consigam expandir o vosso ponto de vista, e perceber que o bem e o mal, pode ser bem mais complexo do que uma simples categorização.

A visão psicanalista da inveja

A visão psicanalista defende que a inveja é um impulso causado pelo ódio, que já se encontra presente no indivíduo desde da mais tenra infância.

Segundo Spinoza (cit in Trica 2009) a inveja é “o ódio que afecta o homem de tal modo, que ele se entristece com a felicidade de outrem, e ao contrário, se alegra com o mal a outrem.”

A inveja cria impulsos negativos que têm como intenção, destruir ou apoderar-se dos bens de outra pessoa, para acalmar uma pulsão de infelicidade do sujeito.

Segundo Trica (2009) a inveja é o ódio que se intensifica, podendo assim ser considerado um sentimento. Este sentimento é intensificado quando o indivíduo se sente destabilizado devido a um complexo de inferioridade em relação a um ou mais indivíduos.

O indivíduo sente culpa por ser inferior e fantasia com aquilo que pensa fazer-lhe falta. Acredita ser merecedor daquilo que fantasia, e quando a realidade não lhe proporciona o que ele sente ser merecido, o ódio e a humilhação são projectados para um sujeito que o indivíduo não considera estar ao seu nível, não tendo por isso direito a ter aquilo que este não tem.

Segundo a teoria kleiniana o impulso destrutivo esta sempre presente na inveja e estão já presentes no bebé quando este por exemplo ataca a mãe, tentando destruir algo supostamente bom que sente estar a perder, tal como por exemplo na substituição do seio pelo biberão. A teoria psicanalista acredita que a inveja é uma pulsão de morte, de destruição, que vai contra as pulsões de vida, aquelas que nos dão prazer.

O bebé sente-se amado, sente-se vivo, e sabe que existe através do contacto com a sua família, e vai experienciando relações de prazer e afecto.

Segundo Trinca (2009), a altura do desmame vem frustrar o bebe causando angustia e raiva, que ele vai projectar no objecto perdido, tendo assim uma pulsão de morte contra uma pulsão de vida.

Sendo a inveja um sentimento tão precoce Melanie Klein cit in Trinca 2009, considera que a inveja é um elemento básico do campo emocional, e que quanto mais precários forem os cuidados com o bebe, mais este tende a desenvolver futuramente sentimentos de inveja.

“O invejoso é, pois, um ser vingativo que se sente roubado de sua segurança existencial  e de sua satisfação plena de viver.” (Trinca 2009)

O conceito de inveja pode ser descrito como “o sistema mental determinante é constituído pelo padrão dominante do funcionamento mental inconsciente e consciente que tende a se estabelecer de modo relativamente constante por períodos relativamente prolongados” (trinca 2007 cit in Trina 2009)

A inveja é assim um estado de que o indivíduo pode ou não ter noção, mas no entanto despoleta neste o sentimento de cobiça, de vingança, sentimentos estes causados pelo sentimento de inferioridade em relação aos outros que atormentam o sujeito.

Podemos referir que a inveja tem como base a comparação que o individuo faz de si com os outros, sendo esta que provoca o sentimento de ódio e vingança que a inveja despoleta.

Segundo Trinca (2009), a inveja pode mesmo ser um mecanismo de defesa do self. Quando pacientes procuram ajuda psicológica, por exemplo, por vezes podem-se sentir ameaçados pelos concelhos do terapeuta. Ignoram a ajuda que este lhes pode prestar, para simplesmente esconderem a sua fragilidade por detrás da inveja. Esta inveja pode ser resultante de sentimentos negativos, em que o individuo se sente desqualificado, e pouco competente para se gerir a si próprio.

Entra assim em acção a inveja como mecanismo de defesa, sendo que o paciente discorda do terapeuta pois não quer admitir a sua fragilidade, querendo proteger a sua própria imagem do self.

Reviere cit in Trinca 2009, acredita que assim, a inveja pode ser uma “defesa para a desqualificação interna.”

Quando o individuo se vê perante bens que outra pessoa possui, o sentimento de impotência e de rebaixamento pode ser assim projectado para o ódio por essa pessoa ou por esse objecto, tendo como objectivo destrui-lo para uma manutenção e protecção do próprio self.

    Quanto mais frágil for o self da pessoa, tal como a sua situação psicológica, mais propicia está a sentimentos invejosos.

 

    A inveja, outro ponto de vista

“A inveja, por sua vez, é a sensação de desconforto, raiva e angústia perante a constatação de que outra pessoa possui objetos, qualidades, relações que o indivíduo gostaria de ter, mas não tem. A inveja pode ser importante fonte de sofrimento em indivíduos imaturos, extremamente neuróticos e com transtorno de personalidade. Além disso, a inveja intensa pode ter efeitos devastadores nas relações interpessoas.”       Paulo Dalgalarrondo, (2000)

Podemos com isto refletir sobre as consequencias que a inveja pode causar nos individuos. Trantornos psicologicos podem causar impulsos invejosos no individuo, sendo estas destrutivas para si mesmo. Este complexo de inferioridade, ou de imaturidade,  é refletido em pessoas com baixa auto-estima. É mais facil para o individuo destruir ou possuir aquilo que já é de alguem, do que ter a capacidade própria de conseguir as suas proprias conquistas.

É crucial a autocomparação para o desenrolar deste sentimento. Se um individuo centrar a sua atenção na sua vida, e se concentrar em construir as suas proprias conquistas, não estaria tão propicio a sentimentos invejosos.

Com um bom nivel de auto-confiança é possivel ao individuo viver sem cobiçar aquilo que não lhe pertende, ou esforçar-se para ser ele proprio a alcançar o que pretende.

            O individuo deve por isso centrar-se no seu próprio potencial e sentir-se motivado com o exemplo dos outros, para poder subir na vida, sem sentir magoa ou rancor pela conquista de outra pessoa.

A inveja é a defesa dos mais fracos contra os mais fortes.

 

Senso Comum

“A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandes coisas, anões em gigantes, indícios em certezas” (Miguel Cervantes)

A palavra inveja deriva do latim “invidere”, que significa não ver. É um sentimento de egocentrismo, por não suportar a ideia que o outro possa ser melhor.

Para os católicos, a inveja é um dos 7 pecados mortais: desejo por atributos, posses ou status da outra pessoa.

É a vontade frustrada de ter o que é dos outros pois não possui as competências adequadas para tal.

Os mais fracos são incapazes de atingir certas conquistas na vida, recorrendo por isso aquilo que não lhes pertence. Atingem um nível de satisfação ao retirar do outro para darem a si próprios.

Aos olhos dos invejosos, as conquistas dos outros parecem de algum modo mais grandiosas do aquilo que realmente são. Despertam no invejoso uma sede de vingança inexplicável até para ele próprio, alegrando-se com a tristeza que causará na pessoa.

A inveja em senso comum também se designa como o acto de não querer partilhar os seus bens com ninguém.

Uma criança invejosa é criticada por não emprestar os brinquedos a outra criança, embora sinta vontade de brincar com o que não e dela também.

Existe no entanto em senso comum uma ligação muito forte entre ciúme e inveja, havendo ténues diferenciações.

Conclusão

            Podemos concluir que a inveja, numa visão psicanalítica, funciona como uma pulsão de morte, sobre uma pulsão de vida, ou seja, o indivíduo destrói ou apodera-se de um objecto que sente como merecido, para proteger o self de lacunas como o rebaixamento e a inferioridade. A inveja funciona assim como mecanismo de defesa para com o self.

Indivíduos psicologicamente perturbados têm assim uma maior possibilidade a este tipo de sentimento.

A inveja é no entanto um sentimento composto por vários tipos de emoções, tal como tristeza, magoa, que o indivíduo sente por si próprio, e por fim, um ódio projectado. Após a destruição ou apoderação do objecto, o invejoso sente alegria com a tristeza do outro, que lhe causou mágoa anteriormente. Isto demonstra também a necessidade de vingança que a inveja faz sentir.

Podemos concluir que a inveja é assim uma mistura complexa de emoções e estados de espírito que podem variar de pessoa para pessoa.

Leva-nos a pensar se o ser humano não nasce já propicio a inveja, logo que sente as primeiras angustias na vida, logo na tenra idade, o que o leva a uma protecção determinada de si como ser vivo, que existe, que é vivo e que se quer impor para a vida.

A humanidade deve assim como individuo singular, enriquecer a sua personalidade e conducta, para que aquilo que não lhe pertence, lhe traga apenas incentivo de crescimento.

Capitulo 6

Quando acordei no dia seguinte estava ainda no sofá com uma manta enrolada á minha volta. Demorei algum tempo para recordar o dia anterior, até que a memória de Artur ressaltou na minha cabeça, levando-me a corar um pouco.

Olhei á volta mas não o vi em parte alguma. Não estava lá.

“Provavelmente está na casa de banho, ou assim” – pensei. Espreguicei-me com vontade.

Quantas horas seguidas teria dormido? Já estranhava a sensação de pleno descanso ao acordar. Senti-me disperta e bem disposta.

Os cadernos e livros ainda se encontravam em cima da mesa, mas só os meus. Reparei numa folha dobrada em quatro, arrancada do meu caderno. Peguei nela com a ponta dos dedos, voltando a estender-me no sofá para a ler.

Tive mesmo que sair. Subi ao teu quarto para arranjar essa manta, e tambem me servi na cozinha, espero que não haja problema. Gostava que pudessemos falar mais.”

Li novamente o papel. Depois virei-o para confirmar. Ele não tinha deixado número de telefone. Teria que esperar pelas aulas para o ver outra vez. Sentia-me envergonhada só de pensar em vê-lo nas aulas depois daquilo. Queria que ele ali estivesse. Queria poder falar com ele agora.

Sentindo que a boa disposição de dissipava um pouco, levantei-me do sofá já com um certo peso nos musculos sentindo-os rigidos, principalmente os da cara.

Teria sido tão mais facil se o encontrasse ali, agora. Que lhe diria eu na escola, depois de lhe ter adormecido em cima, sem razão aparente? Conseguiria eu, superar as figuras de débil mental, que fazia sempre que estava com ele?

“Provavelmente não.”

Dirigi-me para a cozinha, arrumei a loiça na maquina e passei um pano pelas bancadas. A mãe devia estar a chegar.

Reparei num ou outro vestigio da estadia dele, enquanto limpava a cozinha.

Olhava sem cessar para o telemóvel. Mas para quê? Ele não poderia ligar-me, não tinha o meu número. Nem se dava com ninguém relativamente próximo a mim para o arranjar.

As restrições com o número de telemóvel, quando se é popular numa cidade pequena, traziam bastantes dores de cabeça. Eu e Susana já nos viramos várias vezes obrigadas a mudar de número de telefone.

Por vezes, apenas admiradores secretos, provavelmente acabados de sair das fraldas. Alguns não passavam de murmurios ofegantes enquanto a ligação de mantinha. Em dias de boa disposição, Susana e eu entretinhamo-nos a picar quem estivese do outro lado, lançando tambem gemidos, e propostas provocadoras. Outras vezes porém decidiamos humilhar quem estivesse do outro lado, com todo o tipo de esteriótipos a cromos espinhudos de óculos e gordos, que nos pudessemos lembrar.

Outras vezes ligavam raparigas a insultarnos. Aí desligava-mos logo.

No entanto, ao longo do tempo, as partidas ao telefone foram perdendo a piada, o que me levou a mim e a Susana, a restringir o novo número ao minimo de pessoas que fosse possivel.

Pensei com saudades das risotas em cima da cama, ambas agarradas ao telemóvel, em alta voz. Mas teria agora a mesma piada fazer o mesmo? Provavelmente não.

Girei o telemóvel na bancada com alguma tristeza, sabendo que mesmo que quissesse não poderia contactar Artur. Se tivesse o número será que o contactaria?

“Claro que não, mas esse não era o ponto importante. Ele não tinha deixado o número e pronto. Não sentia pressa em falar comigo. Esperaria de bom grado até me ver na escola.”

Tentei não pensar nisso. Decidi telefonar a Susana, convidando-a para passar a tarde comigo. Pelo menos teria companhia.

Susana chegou a meio da tarde, tocando apressadamente á campainha, e batendo também na porta, com a pressa de ser resgatada do frio que se fazia sentir. Trazia uma galochas cor de rosa, com forro térmico. Usava uma gabardine branca com grandes bolas rosa, que embora a protegesse da chuva, não devia ser suficiente para a proteger do frio.

Entrou rapidamente em casa, sentando-se no sofá da sala cobrindo-se com a manta que eu deixara ficar. Franzi o nariz, imaginando o cheiro do seu perfume a ficar empregnado na manta mas não disse nada. Sem a cumprimentar, sentei-me também no sofá, roendo as unhas, ainda com a imagem de Artur a ocupar o lugar onde esta estava agora.

– O Ricardo voltou a ligar-te? – perguntou-me Susana finalmente falando, já recomposta do frio.

Ricardo? Seria só a mim que a briga com Ricardo e a noite do baile, pareciam ser um assunto, encerrado á séculos?

– Não. Nem acho que volte a ligar.

– Acho que volta. O Dani ia falar com ele.

Revirei os olhos, num gesto de impaciencia.

– Diz-lhe que não presisa de fazer isso. O Ricardo quando quiser volta a falar comigo. E eu se quiser falo com ele.

– O Dani é que quer falar com ele, tambem não tenho nada a ver com isso.

– É indiferente. – tentei por fim ao assunto. – Tenho uma coisa para te contar.

O quê? – Susana olhou-me com curiosidade. Adorava criar espectativa sempre que lhe contava algo.

– Ontem estive a acabar um trabalho aqui em casa com uma pessoa.

Susana abria mais os olhos, como se pudesse ver mais promenores com o olhar. – Com quem?

– Acho que não conheces. Chamasse Artur, anda sempre com aquele grupo que nós, bem que nós…

– Do grupo dos drogaditos? – Susana mostrou-se desagradada.

– Não lhe chames isso. Não conhecemos ninguem de lá.

– Drogados, asquerosos, sem estilo, se preferires então. Sem a menor aptidão social.

Ri-me. O que sabia Susana acerca de aptidões sociais? Pareceu-me uma palavra muito forte para ela.

– Bem, mas de qualquer maneira, Artur está a fazer um trabalho comigo para psicologia. É muito inteligente. Posso quase de certeza dizer que ele tem.. Como é? Aptidões sociais – Ri-me.

– Não podes estar a falar a serio. Fizeste alguma coisa com ele?

– Passou cá a noite.

Susana parecia perplexa. – Mas não fizemos nada mesmo, nada a ver. Mas, gostei de estar com ele.

– Não podes mesmo estar a por a hipótese de deixar o Ricardo por aquilo…

– O Ricardo é que me deixou a mim. E não fales assim, não o conheces.

– Mas esse rapaz, não é como nós. O que poderias ter tu em comum com ele?

– Muito. Ele não é como nós como? Só porque não tem dinheiro?

– Sabes o que quero dizer. Isso é gente de grupos pesados. Não falam do mesmo que nós, nem têm as mesmas perspectivas que nós.

Ponderei um pouco aquilo que Susana me dizia. Mas a verdade é que, também eu não sabia quais eram ao certo as minhas perpectivas.

– Estás a generalizar. Não o conheces. E apenas te estou a dizer que gostei de o conhecer. Não que vou andar com ele.

– Mas ele já passou cá a noite…

– Bem demoramo-nos a fazer o trabalho e adormecemos a ver televisão – disse. Não queria dar a Susana mais promenores. Ainda me sentia envergonhada da carga emocional da noite passada. E Susana também não sabia as minhas razões por isso não valia a pena contar-lhe essa parte.

– Acho que se saires com ele, vais acabar magoada – disse por fim.

– Como tu com o Dani?

– Bem para ser sincera eu sem bem no que me estou a meter. Não estou a procura de um relacionamento com ele. Enquanto durar, vai-se andando. Provavelmente sou eu quem vai dar a tampa primeiro.

Parecia abalada com aquela confissão, mas tal como ela fazia várias vezes comigo, tentei ignorar a seriedade do assunto. Nnca falavamos das fraquezas duma e doutra.

– Eu também sei no  que me estou a meter. Aliás não me estou a meter em nada. Só te queria contar porque se me vires com ele na escola não quero comentários para cima dele.

Susana suspirou como se eu lhe estivesse a pedir algo impossivel. Depois acenou afirmativamente concordando.

– Então, de que é que conversaram?

– Nada de especial. Estivemos a estudar. Ele explica bem a matéria, torna-se fascinante dita por ele.

Susana tinha o nariz ligeiramente franzido mas não comentava. Parecia querer duvidar de cada palavra que eu dizia, como se esperasse a todo o momento que eu dissesse “Achas mesmo, estou a gozar”.

Decidi que não valia a pena comentar mais nada com ela sobre Artur. Ela nunca o iria perceber. Nem eu percebia.

De todas as maneiras, tentava encontrar palavras para o que tinha visto em Artur, mas ao tentar falar ouvia-me a mim propria a baralhar-me e a juntar frases sem nexo, o que não contribuia para me manter credível em frente a Susana.

Fosse como fosse sentia que tinha feito uma grande revelação a Artur. No entanto não lhe tinha contado nada. Mas podia sentir que ele tinha percebido o que eu lhe tentara transmitir. Ou não teria?

Havia algo em Artur, no seu olhar avaliador, que me fazia supor que muito estava dito sem o dizer. Ele tinha entrado. Ele tinha observado embora de soslaio o meu pequeno mundo obscuro e talvez o tivesse mesmo comprendido. Só lhe faltava saber o porquê. Faltava nas perguntas dele a interrogação. Eram tão afirmativas…

E eu sentia-me impelida a responder.

Com Ricardo qualquer pergunta soava como um interrogatório, a algo forçado, tentando visualizar para além daquilo que eu queria transmitir.

Susana, essa nem sequer tinha reparado ainda que algo não ia bem. Mas porquê culpabilizá-la? Eu é que não estava á altura. Não podem haver nódoas para uma vida perfeita. Era tão mais facil evitá-las e viver normalmente.

Com Susana estava segura. A seu lado, não havia fraquezas, nem desabafos, nem sequer tristezas. Deviamos ser sempre fortes, impassiveies, e superiores. Afinal era por isso ue eramos populares. Era por isso que todos queriam ser como nós. Dava trabalho ser assim, mas com ela como amiga era impossivel perder o fio.

Devia pensar isso sim, na universidade, no curso, nos bailes, na roupa e em Ricardo. A minha vida era simples e perfeita e assim  tinha que continuar. E com alguma concentração parecia-me tão simples.

Susana lanchou comigo, uma salada de ovo, com fatias de ananás em lata. Queria por os trabalhos de casa em dia mas não conseguia concentrar-me.

Com apontamentos e livros de estudo em cima da mesa, Susana tinha a revista Cosmopolitan nos joelhos e uma vez por outra puxava pela revista sempre que via um escandalo de cinco em cinco paginas. O assunto não me animava, mas era sempre refrescante pensar em coisas banais.

– Não queres ir até ao centro comercial? Vi uns Parkas tão giros, agora estão na moda outra vez.

Franzi-lhe o rosto. – Com este frio não me apetece muito sair de casa. Tenho este trabalho de matemática para acabar.

-Bem eu vou ter mesmo que lá passar, manda mensagem se ele der noticias.

– O Artur não tem o meu numero de telemóvel – respondi latente.

– Estou a falar do Ricardo – murmurou Susana já de mau humor. – Não queres mesmo vir comigo?

– Não, a minha mãe já deve estar a chegar a casa. Ela gosta sempre que eu aqui esteja quando chega de alguma viagem.

– Está bem. Vemo-nos amanha na escola. – com um sorriso despediu-se, saltando energica para a tarde fria e ventosa que estava lá fora.

Com o trabalho de matemática á frente dava voltas e mais voltas mergulhada em pensamentos. Se Artur tivesse ficado, tinha sido tudo facil. No dia seguinte a primeira frase podia muito bem ter sido “ Bom dia, vamos tomar pequeno almoço?”. Mas agora dificultava tudo. Que lhe iria eu dizer quando o visse? Provavelmente nada. Talvez ele se mantivesse no grupo dele e eu no meu. Afinal o trabalho já estava pronto.

A minha mãe chegou a casa já de noite. Eu estava sentada no sofá com o telejornal a passar na televisão. Nem tinha dado pelo tempo passar.

– Trouxe comida chinesa – anunciou ela tirando umas pequenas caixinhas brancas de um saco fast food, e entregando-me os pauzinhos. O cheiro a noodles enjoou-me de imediato. No entanto comi não querendo desiludi-la. Afinal comida chinesa era das minhas preferidas.

– Como correu o baile de sexta? – perguntou-me.

– Bem, o ginásio parecia outro. E o namorado da Susana arranjou uma limousine para irmos os quatro. E estreei aquele vestido azul noite que me deste no Natal.

– Pensei que não querias sair mais com o Ricardo.

Encolhi os ombros: – O baile não é nenhum casamento. Dançamos foi divertido, nada de mais.

– Dormiste em casa da Susana?

– Dormi – e antes que a conversa fosse dali adiante sugeri ver-mos um filme, enquanto comiamos os noodles. Ao menos assim acabava o interrogatorio. A mãe devia estar esgotada da viagem porque adormeceu a meio. Silenciosamente deixei-a ficar no sofá e subi para o meu quarto.

– Só faltam resolver três problemas e e aplicar duas formulas- disse em voz alta, como fazia sempre para me motivar a estudar. Sentei-me na secretaria a acabar o trabalho. Passado longos momentos embrulhada em cálculos, adormeci tal como a minha mãe, sentada e sem dar por isso.