O que diz Margarida Rebelo Pinto sobre as “gordinhas” … E o que tenho eu a dizer!

Hoje venho-vos falar de um tema um pouco diferente do usual, no caso, um pequeno rebate a um artigo no jornal “Sol” da autoria duma das mais famosas escritoras portuguesas, Margarida Rebelo Pinto. Para verem o artigo na integra cliquem aqui.

Ora este artigo pode ser considerado no minimo algo estereótipado, preconceituoso e a roçar na ignorância, vulgaridade e falta de bom senso.

Resumidamente, depois de ler este texto verdadeiramente insultuoso e insensivel, não percebo porque Margarida Rebelo Pinto continua a aclamar “gordinhas”.

Se tem essas ideias mais vale corrigir logo ao preconceito éticamente correcto: que chame badochas, requeijões, pequenos elefantes, porque não?

Afinal se ao texto não falta a sensibilidade, porque se dar ao luxo de eufemismos como “gordinha”?

Ora pelas palavras de Margarida Rebelo Pinto, o que é este animal generalizado, e meio humano, que adquire mais direitos que os outros, intitulado a “gordinha”? E tenham em atenção que nem sequer fala em gordinhos no masculino..

Então a gordinha é alguém que acompanha grupos de rapazes como uma melhor amiga maria-rapaz que se pode comportar como eles, e que é defendida pelos rapazes com unhas e dentes, indiferentes aos comportamentos impróprios que estas possam ter, porque afinal, não é, são consideradas meio homens… E apenas têm o direito a entrar em vias de facto se esses mesmos homens estiverem entornados em alcoól, onde qualquer coisa serve para “aliviar”.

Então a senhora Margarida não sabe que existem gostos para todos os géneros? Que nem todos os homens gostam de corpos magros? Que todos somos diferentes e que todos temos gostos diferentes?

Uns gostam de loiras, outros de morenas, outros de magras, outros de gordas, cabelos curtos, cabelos compridos, há gostos para tudo.. Porque afinal todos somos pessoas diferentes e ninguém é obrigado a seguir o estereótipo imposto pela sociedade do que é moralmente correcto, a atracção pelos corpos de sereia e pela menina bem comportada cheia de regras de etiqueta.

Ora as “gordinhas” são populares. A Margarida Rebelo Pinto não deve com certeza ter em conta todos os casos de bullying contra pessoas de excesso de peso, que os leva ao insucesso, a disturbios alimentares, e á valeta da sociedade, pois muitos desaprendem a socializar-se devido á constante gozação, e aos penosos dias de sofrimento e insultos que carregam para toda a vida, que com certeza não é a melhor ajuda para emagrecerem.

E outra questão ainda… E se essa “gordinha” fôr feliz como é? Se sentir bonita, talentosa e se comporte exatamente como aquilo que se sente por dentro, e se sinta feliz da vida, tal e qual como é? Quem é esta senhora para a vir rebaixar a dizer que esta “gordinha”não passa de uma promiscua desesperada para ter relações sexuais com o primeiro que a queira?

Quê? Não há magras que fazem exatamente o mesmo?

Mas não, estas “gordinhas” têm um estatuto especial entre os homens. Elas podem comportar-se como quiserem, enquanto que as magras e bonitas têm que se comportar com delicadeza, elegância, lucidez e sei lá eu que mais.

Pois bem, se essa é a sua experiência de vida, eu digo-lhe a minha. Tenho várias amigas magras e giras que dizem palavrões, falam alto, sabem festejar e não têm tabus nenhuns em relação á vida sexual. E estão-se a marimbar para a posição do homem quanto a isso.

Se no grupo da Margarida isto não se passa, e as boazonas não passam de más línguas que invejam as “gordinhas” simplesmente por elas serem elas próprias, e gordas felizes, que tal trocar de grupo em vez de colocar a culpa nas “gordinhas”?

Afinal no caso que relata não parecem ser elas a estar de mal com a vida. Cada um que olhe pela sua, em vez de dar sugestões maldosas sem carácter ou qualquer moral!

E não, eu não sou gorda, sou magra! E ainda assim, desprezo tudo o que ali está escrito. Absolutamente repugnante, cheio de juizos de valor, falta de ética, e senso moral.

As pessoas são pessoas. Abaixo todo o tipo de Bullying por aqueles que se consideram superiores aos outros!

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Capitulo 8

Afinal o problema é só mesmo com Ricardo!

Entramos num bar quente e acolhedor, com forte cheiro a canela, oriundo de pequenas velas espalhadas entre as mesas. A decoração tinha um toque irlandês.

As mesas eram de uma madeira velha e riscada, e em vez de cadeiras havia pequenas pipas com uma almofadinha redonda em cima. As paredes eram de pedra, com quadros de diferentes logotipos antigos de cerveja.

A única empregada a servir ás mesas era sem duvida estrangeira, talvez  inglesa. Usava roupas excêntricas de estalajadeira, e uns sapatos de plataforma com quase vinte cêntimetros.

A música ambiente tocava em volume baixo, e embora muitas mesas estivessem ocupadas, o bar transmitia uma sensação pacifica, em que mal se ouvia o barulho dos outros clientes.

Escolhemos uma mesa a um canto, perto de uma janela.

– Já tinhas vindo aqui? – perguntou-me Artur, sentando-se bem disposto numa das pipas, com um enorme á vontade.

– Nem por isso – respondi. Peguei no pequeno cardápio castanho, encostado aos guardanapos. Gostava de ter sempre as mãos ocupadas.

– Já calculava – disse, num meio sorriso – Quer dizer, não parece fazer o teu género.

– Se sabes que não faz o meu género, como tinhas tanta certeza que eu viria? – escarneci. Falava sem olhar para ele, analisando as folhas do cardápio que segurava com as duas mãos á minha frente.

– Bem, simplesmente sabia.

– Estás demasiado confiante – atirei, pousando o cardápio, olhando finalmente para ele.

– Não estou – respondeu. O tom era sério, e agora era ele que não olhava para mim. Parecia entretido com a bolsa, donde retirou um maço de tabaco que pousou em cima da mesa. Olhei para o maço. O meu já tinha acabado á uns dias e não tinha comprado outro na promessa de não começar a fumar. No entanto desde do momento em que este tinha acabado não pensava noutra coisa, senão comprar outro. Ver um maço quase novo em cima da mesa era penoso, e quase por impulso ia retirar um cigarro, mas filei as mãos á cadeira e desviei o olhar.

Aempregada aproximou-se para anotar o pedido.

– Queria uma cerveja – pedi. Esta fixou um pouco o olhar em mim por uns momentos até dizer na sua pronuncia britânica: -Não foi a menina que ganhou o desfile do biquini o verão passado?

Acenei que sim com timidez. Em tempos teria adorado ser reconhecida pelo meu trabalho no mundo da moda, mas não agora. Naquele momento a coisa que menos queria era chamar a atenção.

– Bem me queria parecer – continuou a empregada, na sua pronuncia acentuada – sabe decoro muito bem caras. Dá jeito quando se trabalha a servir ás mesas.

– Estou a ver que sim – comentei num sorriso forçado. Queria encerrar o assunto, mas sem sucesso.

– Gosto muito de concursos de moda. Pena aqui serem tão raros. Mas quando a vi desfilar vi logo que ia ganhar. Não lhe falta nada para ser modelo. Muito carisma. Vocês usam cá essa palavra certo? Carisma?

– Sim sim. Perfeitamente – despachei. – Muito obrigado.

Parecendo satisfeita anotou também o pedido de Artur, com cara de quem se pergunta de si para si, que estaria eu a fazer ali com aquele.

Artur no entanto parecia alheio a toda a conversa. Puxara de um cigarro enquanto via a empregada a afastar-se.

Com um mal estar indisfarçável, mantive-me em silêncio. Olhei novamente para o maço. Artur voltara a colocá-lo no centro da mesa. Esperara que me oferecesse depois de começar a fumar mas não o fez. Olhava apenas, avaliativo.

– Não foi nada de especial o concurso – disse por fim pouco á vontade. – Foi num parque aquático e qualquer pessoa que lá tivesse podia ter visto o desfile. Foi mais um entretenimento do parque do que um concurso a sério.

Riu-se.

– Que foi?

– Nada. Achei estranho. Não ficas contente por te reconhecerem de um desfile de moda?

– Não foi por isso. Sei lá, não gostei que se intrometesse. Além disso deixei a moda para trás. Não faz o meu estilo.

Aguardei uma resposta mas Artur parecia pensativo, como se estivesse a assimilar a informação que lhe dava, e não fez qualquer comentário.

A empregada surgiu trazendo numa bandeja as cervejas em canecas de aço, fazendo lembrar a era medieval. Artur segurava o cigarro com a ponta dos dedos, dando pequenas pancadas com o polegar, fazendo cair a cinza.

– Este lugar é original – disse-lhe, tentanto quebrar o silêncio. Sentia-me no estrangeiro, algures no norte da europa, o que provocava uma sensação estranhamente libertadora.

– Sabia que te ias sentir bem num sitio diferente.

– Porque dizes isso?

Ele encolheu os ombros. – Não sei. Pareces-me desenquadrada do teu grupo nos últimos tempos.

– Eles são porreiros – admiti.

– Mas ainda não repararam que algo diferente se passa contigo, pois não?

Pensei na pergunta de Artur. Aquilo não era bem verdade. Ricardo reparara na mudança de comportamento. Ou acharia simplesmente que era apenas mais um capricho meu, para requerer atenção?

E Susana? Não, definitivamente Susana não percebia. E Dani e eu não eramos propriamente amigos. Franzi o sobrolho. – Não se passa nada comigo – ripostei.

– E se te tivesse convidado há umas semanas atrás para vir aqui, tinhas aceitado?

Há umas semanas atrás? Pareciam-me antes anos. Eu e a Susana a rir alto pelos corredores, quando rapariguinhas apareciam na escola a tentar imitar a nossa maneira de vestir. Via-mos juntas os treinos de Dani e Ricardo na bancada do campo de futebol. Ricardo e eu iamos ao cinema durante a tarde ou á pista de gelo do centro comercial. E aos sábados á noite Susana e eu escondiamos garrafas de vodka na mala do carro de Dani, o unico com idade suficiente para ter carta, e davamos largos passseios até encontrar o sitio ideal para as beber. A vida perfeita de qualquer adolescente.

– Há umas semanas atrás não te conhecia, por isso não, não teria aceitado.

– Não me parece que seja só isso – indagou.

– Também sabes tudo – desafiei, já um pouco aborrecida com a intromissão dele.

– Sei por exemplo que estás mortinha por tirar um cigarro – respondeu pegando no maço passando-o de uma mão para a outra, fixando os olhos negros nos meus. – Mas não és capaz de ficar em posição de me pedir algo.

– Se não te pedi foi porque não senti vontade – corei violentamente, sem saber se naquele sitio escuro daria para notar. Teria posto base suficiente que escondesse o calor que me subia á cara?

Artur sorriu com cepticismo e encolheu os ombros. Naturalmente não se dava ao trabalho de discutir algo de que tinha a certeza. Em vez disso tirou um cigarro para fora e entregou-me. Pensei durante uns segundos em recusar, mas não tive força de vontade suficiente. Contrariada, arranquei-lhe o cigarro das mãos e acendi-o, ignorando o seu olhar triunfante.

Em silêncio, um pouco arreliada, mudei de posição, ajeitando-me em cima da pipa, levando a unha á boca com o cigarro perto da cara. Ele riu-se.

– Pronto, vieste cá por ser fora do normal certo? Estás farta de fazer o mesmo.

– Talvez tenha sido por isso – admiti.

– Mas querias mudar o ambiente? Ou as pessoas? – perguntou, com uma certa malicia.

– Um pouco dos dois.

– Estou a ver – respondeu esmagando o cigarro no cinzeiro, apagando-o á primeira tentativa.

– Já podemos parar de falar sobre mim? – pedi, num certo desconforto, dando o primeiro gole na cerveja. Era forte, azeda e gelada. Franzi um pouco a cara.

– Porquê? Não gostas de falar sobre ti?

– Há outros assuntos que podemos falar – sugeri.

– Está bem – fez um aceno com a cabeça – Então conta-me o que gostavas de fazer quando acabares o secundário?

– Pensei que não iamos falar mais sobre mim.

– Não é sobre ti – troçou alongando os lábios – é mais sobre aquilo que vais querer fazer. Assim algo que já pensaste fazer mas que nunca pensaste em concretizar.

Refleti um pouco. O que gostaria eu de fazer? A minha vida com Susana sempre tinha sido perfeita. Tinhamos saídas todos os fins-de-semana, tinhamos festas, tinhamos dinheiro para compras quase diárias no shopping. Tudo o que eu gostava de fazer fazia. Simplesmente agora tudo aquilo tinha perdido o interesse. Mas também não me ocorria nada novo que gostasse de fazer. Seria assim tão desinteressante?

– Não sei, diz-me tu primeiro – sugeri. – Se o assunto não é sobre mim, cada um tem que dizer – monopolozei.

– Deixa ver – anuiu ele, reflectindo dando agora um gole na sua cerveja – Hmmm, gostava de pegar numa mochila assim com pouca roupa e não sei, metia-me num comboio qualquer durante o verão. O primeiro que partisse da estação. E depois noutro, assim á sorte. Para ver onde ia parar, quem conhecia, onde ia ficar. Mas não sei se realmente o vou fazer – acrescentou.

Pensei naquela aventura. Se bem que na minha cabeça tivesse bem mais piada trocar o comboio por um avião. E voar num e noutro, até ir para um país bem longe. País não, talvez uma ilha deserta, onde ninguém me pudesse chatear. Olhei pensativa para ele: – É um bom plano – sorri-lhe. – Um dia tens que o pôr em prática.

– Quem sabe, um dia me dê para isso – disse, dando um grande gole na sua bebida. – Agora é a tua vez.

– Hmm não sei. Nunca pensei em nada assim. – “Céus, seria eu assim tão desisnteresante?” –  O que eu quero fazer faço e pronto. Agora assim de repente não me vem nada extravagante á cabeça.

– Então? Tem que haver alguma coisa. Algo que imagines, ou sonhes de vez enquando.

– Não sei a sério. Se estiver aqui a pensar á pressão vou acabar por dizer qualquer coisa, e assim não vai ter piada.

– Ok – desistiu um pouco desiludido – Pensei que depois do secundário pensasses num plano só teu, algo que apenas tu quissesses fazer..

– Mas qual é o objectivo? E se não me apetecer fazer nada e pronto?

Ele encolheu os ombros: – Sei lá, a vida toda é concretizar objectivos. A escola, o trabalho, os amigos. É bom termos um objectivo que seja só nosso. Que não venha imposto no resto do pacote.

– Pensando por aí, até tens razão – refecti.

– Quer dizer que vais pensar em algo? – perguntou Artur  num tom de brincadeira.

– Vou tentar – prometi.

Ele abanou a cabeça: – Tentar é a primeira palavra que usamos quando queremos desistir.

Ri-me. –  Apanhaste-me.. – gracejei. – A sério vou ver se me surge alguma ideia. – Dei mais um trago da cerveja, girando a caneca nas mãos.

Artur retribuiu um sorriso, bebendo também da sua cerveja. No momento seguinte no entanto parecia novamente sério. Reparei que mexia no anel do dedo pulgar.

Rodei a caneca na mesa, brincando. Artur parecia concentrado, pelo que me mantive em silencio, tentando adivinhar o que lhe passaria pela cabeça.

Olhei para o relógio. Já era tarde.

– Amanhã temos aulas – suspirei.

– Anda, vamos então.

Levantamo-nos para ir pagar á caixa.  A empregada voltou-me a sorrir amávelmente, quando lhe pousei as moedas na mão. Retribuí num meio sorriso e virei-lhe costas, vestindo o casaco, cingindo-o abaixo do peito com uma das mãos, e saí primeiro do bar sem Artur.

Senti a humidade cortar-me a face. Era o Inverno mais frio de que tinha memória. Respirei fundo o ar da noite, de olhos fechados, ouvindo a porta do bar abrir-se atrás de mim entoando uma pequena campainha. Voltei-me de encontro a Artur.

Este parou á minha frente, aproximando-se de mim, observando-me num meio sorriso.

Esperava que me tocasse, que me puxasse uma mão mas não o fez. Estava tão próximo que podia sentir o odor que emanava das suas roupas, numa especie de calor térmico que chegava até a mim. Senti um leve impulso de lhe tocar, mas travei a mão já em movimento. Artur mantinha-se tão próximo que podia sentir sua respiração na minha face. Sentia o estômago e endurecer, num ligeiro nervossismo. Fixei o olhar nos seus olhos negros, espectante.

Artur recuou então um pouco, num meio sorriso malicioso.

– Anda, levo-te a casa – disse, dando-me um pequeno toque com a mão no braço.

Segui-o, tentando esconder o embaraço e um certo desapontamento. Definitivamente não conseguia perceber o que ia na cabeça de Artur.

As ruas pareciam agora mais desertas e silenciosas. Nenhum carro passava, nem havia vento. Artur caminhava com as mãos nos bolsos. A certa altura já me perguntava se seria apenas para o proteger do frio. Estaria a evitar propositadamente qualquer tipo de contacto comigo? Ri-me.

– O que foi? – perguntou ele, na sua habitual curiosidade.

Como lhe havia de responder? Insegura era um sentimento do qual eu nunca chegára perto. Nunca estivera na posição de sentir que era a primeira a pedir por contacto fisico. Até bem pelo contrário. Como lhe explicaria que o meu riso, não passava de uma ligeira irritação disfarçada?

– Não é nada – respondi, ainda com o riso nos lábios. Talvez conseguisse transmitir aquilo como uma súbita boa disposição.

Lembrei-me vagamente da noite que saíra com Ricardo e do conforto que sentira nas suas mãos. Aquela noite era incrivelmente parecida. Depois Ricardo estragara tudo com perguntas indiscretas.

Caminhamos durante de uns minutos, percorrendo as ruas de asfalto brilhante e escorregadio. Perdida em pensamentos nem me tinha apercebido que iamos em silencio á tanto tempo.

Artur no entanto parecia perceber os meus momentos silenciosos. Talvez não dissesse nada, julgando que provavelmente eu nem o ouviria.

Já estavamos perto da minha rua, passando por jardins de relva morta do frio, mas ainda assim cuidadosamente aparada, e grandes arvores  totalmente despidas de folhas que desfilavam pelo passeio, a uma distancia perfeitamente simétrica.

Artur rodou sobre si mesmo, encostando as costas a uma árvore.

– Anda cá – murmurou, envolvendo-me as duas mãos e puxando-me com suavidade ao seu encontro. Parei indesisa com a proximidade, olhando-o duvidosa.

Sem me tocar na cara, afastou uma madeixa de cabelo loiro caída, para trás da minha orelha, fixando os olhos em mim.

– Não queres falar comigo?

– Sobre o quê? – perguntei confusa.

– Sobre aquela noite – respondeu, talvez um pouco indesiso, medindo as palavras.

Afastei um pouco a distancia entre nós, revirando os olhos impaciente. Respirei fundo antes de lhe devolver o olhar. Outra vez aquele assunto…

– Desculpa aquela noite – disse, com uma certa frieza. – A noite do baile não me correu bem, e eu o Ricardo tinhamos discutido essa manhã. Não queria que me tivesses visto a reagir assim.

– Mas foi só isso? –  Falava num tom de voz baixo e atento, completamente alheio á minha falta de jeito.

– Sim.

– Fiquei com a sensação – disse, fazendo uma pausa, enquanto revirava o anel no dedo – que houve algo mais sério do que uma discussão. Ou que, pelo menos não fosse só por causa disso.

– Realmente não importa – disse eu, desviando-me do seu olhar.- Não se passou nada, não me volto a comportar assim, a sério.

– Então tu e o ele fizeram as pazes?

– Sim, de uma certa forma – disse, repensando no entanto a resposta. – Quer dizer, já não é a mesma coisa. Ricardo e eu não temos muito a ver um com o outro.

Artur sorriu, lançando-me um olhar de pouca credibilidade.

– O quê? – perguntei num tom mais agressivo. –  Ele tem a ver comigo só porque é giro e tem dinheiro?

– Eu vejo que estás desenquadrada deles – respondeu-me num tom neutro.

Olhei-o com uma certa rispidez, mas mais uma vez ele fingiu-se despercebido.

Dei por mim a pensar que Artur gostava de passar despercebido e alheio a tudo, exatamente quando percebia totalmente alguma coisa. E dava sempre a entender menos do que aquilo que realmente conseguia perceber.

– Não estou desenquadrada. Susana é minha amiga desde de que eu me lembro.

– Dantes podias gostar de andar com eles. Mas agora não é isso que queres – afirmou ele com segurança.

– Tu lá sabes o que eu quero – respondi com um certo desdém.

Artur abriu um meio sorriso. Sem aviso prévio, segurando-me firmemente pelas mãos, rodopiou, encostando-me a mim á árvore, apertando o meu corpo com o dele.

– Sei sim – respondeu com os lábios a roçar nos meus.

Pensei brevemente em empurrá-lo, mas sentia as entranhas revolverem-se em excitação. Lutei contra a tentação de o beijar.

Com um dedo no meu queixo, inclinou-me a cabeça de modo a olhar para ele. Raspava os lábios dele nos meus, á espera que eu o beijasse, fixando o olhar no meu, extaseando-me. Sentia agora a sua lingua ao de leve, humedecendo-me o lábio de cima. Voltou a pressionar o meu corpo com o dele, cingindo-me pela cintura.

Cedi finalmente, fechando os olhos, procurando avidamente por um beijo. Primeiro suave. Os seus dedos procuravam a minha cintura, por debaixo do casaco. A pressão aumentava tal como a avidez dos beijos. Sentia o seu calor, morno e perfumado envolvendo-me, estonteando-me.

Não sei durante quanto tempo nos beijamos. Senti-me ofegante quando nos afastamos.

– Anda – disse ele recuando, puxando por mim. – Tens de ir para casa.

Acenei afirmativamente. Envolvi-lhe a cintura com o braço, enquanto avançavamos pelo passeio escorregadio. Levava o cabelo á banda, e roía uma unha, não sentindo sequer que o casaco ia aberto, expondo o decote ao frio. Sentia o seu braço, envolvendo-me também, forte e seguro. Chegamos ao alpendre de minha casa. Não havia luz em nenhuma janela. A minha mãe devia continuar a dormir.

Subi as duas escadas do alpendre, virando-me para Artur. Ele subiu a perna direita para o primeiro degrau colocando a cara por debaixo da minha.

– Vemo-nos amanhã? – perguntou ele, roçando a nariz no meu. Acenei que sim, recomeçando a beijá-lo. Depois afastei-o colocando o dedo entre os nossos lábios. Puxei-o com força forçando-o a subir as escadas. Abri levemente a porta sem fazer barulho e voltei a aproximar-me dele.

– Acho que sei algo que quero fazer – sussurei-lhe ao ouvido, puxando-o para mim. – Fica comigo como naquela noite.

Artur vacilou. – Jéssica, e se alguém nos ouve?

– Não vai haver problema, prometo-te.

Artur não se moveu. – Não sei se será boa ideia – acrescentou.

– Foste tu que perguntas-te por alguma loucura que eu gostasse de fazer. Tu é que me incentivaste a ter ideias – brinquei, brindando-o com um olhar inocente.

Sem que Artur estivesse minimamente convencido, puxei-o para dentro de casa. O ar era ameno, como se fosse verão. A mãe gostava de deixar a toda a hora o aquecimento central ligado. Sem fazer-mos barulho, subimos ao de leve as escadas e entramos no meu quarto, trancando a porta. A luz pálida da rua, iluminava a divisão através da persiana meia corrida.

Embora a luz da rua fosse fraca, vi que Artur observava num sorriso o troça, todo o quarto, desde do papel florido de tons pastel e rosa velho que tinha escolhido com Susana numa loja de decoração, á enorme quantidade de almofadas de renda branca, e um cadeirão de bombazine cor de rosa, perto de um abajur branco com um peluche em cima.

Dei-lhe uma cotovelada. – Para o que estás a olhar? – sussurei baixinho.

Ele riu-se, encolhendo os ombros. – Betinha – disse baixinho num tom de troça.

– Pára! – murmurei, rindo-me também. – Tavas á espera de quê também? Já não sabes que sou betinha?

– Schhhh – fez-me ele (eu falára um pouco alto demais) – Tens a certeza qe ninguém nos vai ouvir?

– Não te preocupes.

Colocamos os casacos numa cadeira e descalçamo-nos, estendendo-nos de seguida ao comprido na minha cama completamente vestidos.

Estavamos ambos deitados de lado, virados um para o outro. Artur observava-me atentamente, passando suavemente a mão, brincando com uma madeixa do meu cabelo. Já estava habituada aquele olhar atento e inquiridor. Mas não me sentia menos curiosa de saber que pensaria ele nessas alturas.

– Não me chegaste a contar porque é que o baile te correu a mal –disse-lhe, apercebendo-me a certa altura que raramente me dava informações completas sobre ele.

Artur encolheu os ombros – Vendo em perspectiva não me correu tão mal assim.

– Não? – não consegui perceber o que ele me queria dizer com aquilo, mas também não tive tempo para pensar mais no assunto, pois Artur beijava-me novamente. Senti o sabor leve do tabaco misturado com a cerveja do bar.

Observei-o puxando levemente com os meus lábios, o sue lábio debaixo. Apreciava cada detalhe da cara magra, da tez morena, e os musculos tensos do maxilar. Aquilo era muito diferente de estar com Ricardo. Até ali tinha estado na duvida se sentiria o mesmo desconforto com Artur, mas o certo é que não sentia. Tinha até uma ligeira vontade de procurar mais avidamente por uma resposta corporal da sua parte. Tentei procurar nele a mesma vontade, apertei-o com as mãos um pouco de lado.

Procurei duvidosa pela sua expressão, talvez um pouco nervosa com as ideias que me trespassavam pela cabeça. Artur no entanto estava impávido, e não parecia ter qualquer duvida a incomodá-lo. Puxou-me mais para si, abraçando-me e encostando-me a ele. Senti a sua respiração regular na minha testa.

Alguma vez me sentira tão confortável e bem como naquele momento? Não sabia.

Senti ao de leve um beijo nos cabelos, e pouco depois adormeci, sem me preocupar com mais nada.

 

Pretty Little Liars – Nunca confies numa rapariga bonita

“Três podem guardar um segredo, se duas estiverem mortas” Benjamin Franklin

A cidade de Rosewood parece ser o sitio perfeito para viver. Cheira a relva fresca no verão, e a fogões de lenha no inverno. Em vez de casas pré-fabricadas (usuais nos EUA) Rosewood é composta por mini mansões, com acabamentos em mármore, piscinas, jacuzzi, e todo o luxo possível  para os seus habitantes de classe média alta.

Ali, os adolescentes são todos parecidos. Bonitos, bem vestidos, com telemóveis de ultima geração, e carros de alta cilindrada. A vida parece perfeita em Rosewood Day… Mas não, se esgravatar-mos apenas um bocadinho.

Sara Shepard, é a autora de Pretty Little Liars. A história é narrada com uma entoação escarninha, talvez até com alguma mesquinhez, dando ênfase ao tipo de sociedade e mentalidade para onde seremos transferidos, mal damos inicio á leitura.

Alison DiLaurentis, é uma rapariga linda, perfeita, boa aluna, e uma desportista exemplar e competitiva. Todos sonham ser como Alison ou tê-la como amiga. Ou será que não?

Alison desaparece misteriosamente no final do ano lectivo do sétimo ano. No inicio todas as suas melhores amigas, choram e afligem-se. Quem levou Alison? O que lhe teram feito? No entanto com o passar dos anos, o caso começa a esmorecer. As amigas tentam encerrar o luto por Alison.

A aflição começa a dissipar-se, dando lugar a um novo sentimento – alivio…

Com Alison desaparecida, elas têm a certeza de que todos os seus segredos, estarão seguros.

As raparigas separam-se, deixando de se contactar, e passam entre si na escola, fingindo que não se conhecem.

No entanto, três anos depois, alguém as chantageia, e pretende denunciar todos os seus segredos. Todas elas em comum recebem mensagem do misterioso “A”, que parece saber todos os segredos enterrados do passado, mas também os do presente.

Aria Montgomery esteve emigrada na Islândia durante doia anos, e volta a Rosewood, com o mau pressentimento de que ali será apenas atormentada pelas más lembranças. Apenas Alison e ela, sabem do caso que o pai de Aria teve outrora com uma aluna de vinte anos, apanhado em flagrante pelas duas, num banco traseiro de um carro. Aria, esconde o que viu á mãe, mas será que “A” o fará por ela?

Não sendo a única preocupação, Aria envolvesse com um  atraente desconhecido num bar mal cheiroso, logo no primeiro dia de volta a Rosewood. Depois de um caso, nas casas de banho sujas do bar, Aria volta a reencontrá-lo, nada mais nada menos na escola, como professor Fitz, o novo professor de inglês. “A” parece estar a par, do seu novo romance. Afinal relações professor-aluna, talvez sejam de família.

Spencer Hastings é filha de uma importante família, onde ser perfeito, é mais que obrigatório. Com complexo de inferioridade habitual de irmã mais nova, Spencer combate efervescentemente Melissa (a sua irmã mais velha), ficando no entanto sempre aquém das suas expectativas. Á no entanto algo, que Spencer sempre ganha ás custas da irmã – os seus namorados. Afinal, quem manda Melissa envolver-se com rapazes tão apetitosos e sexy?  Apenas confidenciara com Alison, o caso com o ex-namorado da irmã, Ian Thomas. Mas então como é que “A” parece saber também?

Emily Fields é a filha modelo, de perfeita educação e obediência. Pratica natação com afinco para ganhar uma bolsa universitária, e namora com o capitão de equipa Ben, um rapaz atlético, bonito, de olhos azuis. Mas então porque é que Emily se sente enojada, sempre que sente a língua de Ben no seu pescoço? Porque é que Maya (uma nova aluna, residente agora na antiga casa dos DiLaurentis) parece muito mais apetecível e fresca? Emily apenas beijara anteriormente uma rapariga – Alison. Mas isso não significa que ela seja gay pois não?

Hanna Marin uma antiga tótó do grupo, gordinha e cheia de problemas de auto-estima. Após o desaparecimento de Alison, Hanna junta-se a Mona Vanderwall, outra croma, que sempre fora desprezada por Alison, e decidem reinventar-se. De um ano para o outro passam a ser as raparigas mais bonitas e populares da escola. Mas Hanna não conseguiu ficar magra apenas com exercício. A escova de dentes goela abaixo foi na verdade a sua melhor amiga para conseguir o corpo que tem actualmente. Esse vicio agora já ultrapassado (mais ou menos), dá lugar a outro – roubar artigos de luxo, nas lojas preferidas. Mas “A” não parece disposto a deixar passar e branco.

Hanna, após o esforço atroz para perder peso, e virar sexy e arrebatadora, consegue finalmente o seu objectivo, namorar Sean Ackard. No entanto todos os esforços parecem ter sido em vão, pois Sean ingressa num clube de virgindade, e parece que Hanna não é para ele, a rapariga ideal para a primeira vez.

Será que “A” denunciará os segredos de cada uma? Será que ele também sabe do caso que todas receiam em conjunto? O caso Jenna?? Apenas elas sabem o que se passou com Jenna. Mas por vontade delas, ninguém mais poderá saber.

Será por causa de Jenna que Alison desapareceu?

Nota: Após reler a colecção pela segunda vez, e de já saber quem é o “A”, não entendo como é que “A” pode ter estado em três sitios diferentes na noite da festa do Noel Kahn, quando tinha perfeito alibi e se encontrava também com os copos.. Fica por explicar….

Capitulo 7

Chovia torrencialmente na manhã seguinte. A minha mãe ainda dormia estendida no sofá, esgotada com o trabalho, e eu não a quis acordar.

Calcei umas galochas amarelas impermiáveis por cima das calças de ganga justas, e vesti uma camisola verde com adereços amarelos. Diziam-me que vestir verde, dava ainda mais cor e profundida aos meus olhos, também verdes. Olhei-me demoradamente ao espelho, especulando qual seria a diferencia. Não via nenhuma.

Na verdade escolhia a roupa com uma nova preocupação. Não queria parecer demasiadamente snob como de costume. Não queria que Artur me visse apenas como a menina popular e egoista da escola.

Abanei no entanto a cabeça. Tinha problemas maiores com que me preocupar.

A aula de matemática era já no primeiro tempo, e não tinha acabado o último problema. Sentia-me zangada, sempre que pensava nao qantidade de deveres para casa, e como estava próxima de reprovar.

Para que raio ia eu querer saber todas aquelas fórmulas matemáticas no futuro? Provavelmente para nada.

Empurrei a custo uma torrada com sumo de laranja e saí para  enfrentar a chuva.

Devido ao variado leque de opções oferecido pela escola, raro era ter disciplinas em turmas iguais. Susana por exemplo apenas tinha português e história comigo. A aula de psicologia era a única opção em que via Artur. E Ricardo estava na mesma turma que eu em matemática. Presisamento o que iria ter daí a uns dez minutos.

Depois de ter adormecido com Artur, quase já não pensara em Ricardo. E tinha-me esquecido completamente que o ia ver nas aulas. E logo a primeira aula do dia.

Devido á chuva os corredores da escola estavam sobrelotados de alunos barulhentos. Dirigi-me ao meu cacifo, abrindo com alguns abanões a porta perra. Do lado de dentro tinha um pequeno espelho e alguns autocolantes de purpurina rosa, já um pouco desgastados desde do ano passado, com clichés do género “ Meninas boas vão para o seu, as más vão para todo o lado.”

Suspirei olhando para a porta totalmente decorada. Era urgente arranjar um dia para remodelar a decoração do meu cacifo.

Procurei no meio de vários cadernos e livros empilhados, um kit de sobrevivência essencial, que incluia uma escova de cabelo, para dias ventosos como aquele. Olhei inconscientemente para ver se alguem me observava a escovar o cabelo. Claro que havia os grupinhos de miudos do décimo ano, que me olhavam embasbacados como se eu me tratasse de alguma miragem, mas vê-los a eles e ver um corredor vazio para mim era o mesmo.

Estaria Artur a observar-me sem que eu desse por isso? Ou nem sequer tinha ido á escola naquele dia? Podia nem ter aulas naquele tempo, não sabia o horário dele.

“ Jéssica, estás a ficar paranoica”

Segui para a aula de matemática onde Ricardo já me esperava. Parecia manter a boa disposição de sempre, mas podia ver alguma apatia nos seu olhar.

– Olá – acenei-lhe. A situação não podia ser mais embaraçosa para mim. Nunca tivera grande paciência para nada.

– Desculpa ter-te dito o que disse por telefone. Devia ter esperado para estar contigo. – enquanto falava, remexia o cabelo liso castanho claro. O cabelo claro fazia contraste com a cor de pele, que parecia bronzeada todo o ano. O rosto era delineado, lembrando um pouco o actor James Dean, numa versão moderna. Ricardo era lindo e sabia-o. Desde de que Susana começara a andar com o capitão da equipa de futebol, que me chateava para o destino inevitável de andar com Ricardo.

– Desculpa ter-te deixado lá sozinho – comecei por dizer. – Mas a ideia de ir dormir a casa do Dani foi da Susana e eu não lhe queria estragar a noite. E também não me sentia bem ali. Tenho tido algumas dificuldades em conciliar o sono e não ajudou estar em casa do Dani.

-Tens tido insónias? – procurou a minha mão enquanto falava, mas eu apercebi-me e desviei, pondo-as nos bolsos.

– Também. Com todos os trabalhos e testes, não tenho conciliado bem o sono. Daqui a umas semanas a carga de trabalhos é menor.

– Tens o trabalho de hoje feito?

– Quase… adormeci sem fazer o ultimo.

– Anda eu dou-te as soluções – disse, retirando o caderno debaixo do braço, procurando pelo seu trabalho.

Embora estivesse a fazer o máximo que conseguia para afastar Ricardo de vez, não estava a conseguir pôr o plano em prática. Ricardo conseguia ser mais presuasivo, do aquilo que se acha á primeira vista. Assim do nada, parecia que nada se tinha passado desde de sexta á noite. E presisava mesmo do trabalho de matemática feito, se não me queria ser chumbada áquela disciplina.

– Olha aqui no segundo problema, enganaste-te. O valor de x não é positivo – disse ele, apagando com uma borracha, e entregando-me um lápis para que pudesse corrigir o problema. – Agora não há tempo, mas mais tarde explico-te isso. É importante, esta parte, sai no teste da semana que vem.

Olhei um tanto agradecida para o seu rosto compenetrado enquanto  corrigia o meu trabalho, e para os sorrisos ultra brancos que me ia lançando, como se tivesse feito uma branqueamento dentário, nessa mesma manhã.

– Desculpa mesmo aquilo de sexta á noite – murmurei para que os alunos que se tinham juntado também á porta da sala de aula, não pudessem ouvir.

– Esquece lá isso – puxou-me para si, apertando-me contra o seu corpo de atleta, dando-me um beijo repenicado na face.

– Pega – entregou-me as folhas rabsicadas com a minha letra. – Acho que tens tudo bem, mas se quiseres depois das aulas podemos estudar um bocadinho juntos. Afinal, somos amigos não somos?

Acenei-lhe com a cabeça sorrindo, e na sua companhia, entrei para a aula, depois do professor abrir a porta.

Estava já no fim da rua, de acesso a minha casa. Tinha passado uma manhã calma com Ricardo, que me dera algumas explicações rápidas de matemática na biblioteca, e até tinhamos comido juntos na cantina da escola, que já de si era uma aventura. Depois de algumas experiências quimicas com uma substancia verde viscosa de consistência arenosa que a escola teimava por chamar de gelatina, Ricardo acompanhara-me até meio caminho de casa, e despedira-se com um beijo na testa e um dos seus melhores sorrisos. Era uma sensação estranha.. Ele sabia levar-me, e eu muito embora não quissesse, ia na mesma. Era-me complicado dizer-lhe que não a alguma coisa, quando ele acertava tão bem na melhor forma de lidar comigo.

Galguei relativamente bem disposta, a rua suburbana, silenciosa depois da hora de almoço. Não tinha visto Artur na escola, nem soubera novidades dele. Aquele dia parecera-se com todos os outros da semana anterior. Susana parecia contentissima de me ver a almoçar com Ricardo, como se nada fosse. Talvez as coisas devessem ser assim. Era o circulo natural delas.

Subi as escadas de madeira, do alpendre de minha casa, procurando distraída pelas chaves, na confusão da carteira. Tropecei em algo, dando-lhe um pequeno chuto. O Que era?

Um pequeno livro de Freud e das teorias psicanaliticas estava no chão, agora um pouco sujo depois do chuto que lhe dera. Reconheci o livro como o auxiliar de leitura que comprára no inicio do ano com a minha mãe. Que faria o livro ali no chão da entrada?

Peguei nele, entrando em casa, e desfolhei-o rapidamente, enquanto fechava a porta com um movimento da anca. Uma folha pequena estava entre as páginas.

Desculpa, fiquei-te com este livro emprestado, mas acho que nem deves ter dado conta… Vem ter comigo hoje á noite á velha rua do moinho ás 23h. A velha Jéssica não viria.Tu vens? ”

Senti-me corar um pouco ao ler o bilhete, pois não estava á espera de tal missiva. No momento seguinte no entanto já me sentia a repensar

Pousei o pequeno livro e a folha, no balcão da cozinha, juntamente com a minha carteira e livros escolares. Abri um pacote de sumo natural de maçã, olhando embirrada para o copo.

Quem era ele para me convidar por bilhetinhos e estar á  espera que eu aparecesse? Odiava jogos de todo o tipo, e muito menos gostava daquele. Dois bilhetes seguidos, sem numero de telemóvel, sem eu ter maneira de responder, sem nada. Sentia-me colocada numa posição submissa. Deveria não ir, só para o deixar fica mal? Mas se não fosse, seria apenas a velha Jéssica, sem que a vida mudasse em nada.

Após uma manha na companhia de Ricardo, a minha vida normal voltara a ser imposta. Relembrei o sorriso de Susana quando passou por nós os dois no corredor e nos convidou novamente, a mim e a Ricardo, para irmos a casa do Dani no próximo sábado. E mais uma dose extra de trabalhos de matemática, uma tradução de um texto de vinte paginas para inglês. No telemovel uma mensagem de Susana para irmos ao centro comercial durante a tarde comprar metade das novas colecções que as lojas apresentavam. A minha vida era aquela, sempre tinha sido. E sempre tinha chegado. Mas agora, já não me era suficiente.

Meti o bilhete no bolso, sentindo que este acompanhava o sentimento de dúvida que me fazia sentir. Pensei na vontade de rever Artur, e no que diria Susana se me soubesse sozinha a meio da noite, a ir até aquela parte da cidade. Era um desafio para o qual a “nova Jéssica” estava pronta.

Saí de casa, embrenhada num nevoeiro escuro e denso. Ainda teria de andar quase dez minutos a pé. A minha mãe deitara-se cedo, nem dera por mim a sair, caso contrário não aprovaria de certeza que saísse á noite com aulas na manhã seguinte. As ruas encontravam-se silenciosas, apenas passava um carro ou outro, com faróis de nevoeiro ofuscantes.

Levava uma botas pretas de cano alto, estilo tropa, e um vestido de malha também preto. Por cima, um casaco vermelho bem quente que me chegava até aos joelhos. Sentia-me recuar duas décadas atrás. Não tinha o número de telemovel dele, e teria de o encontrar visualizando cada  pessoa na rua do moinho. E se ele não estivesse lá?

Cheguei finalmente á entrada da rua. Por ser dia da semana não havia muito movimento. Fileiras de bares escuros e cervejarias, emitiam um som abafado de várias músicas diferentes, e havia algumas pessoas a estacionar carros ali perto. O moinho ficava mesmo no fim da rua, era um edificio branco com pintura descascada, e visto assim não me parecia grande coisa.

Olhei em volta mas não vi Artur. Com nevoeiro era impossivel reconhecer alguém ao longe. Decidi percorrer a rua em passos curtos. Se chegasse ao moinho sem o avistar voltaria para trás.

Quase a passos de chinesa, e já um pouco receosa de ter ido para ali ás cegas, percorri a rua. Alguns rapazes uns anos mais velhos que eu acenavam-me para entrar num dos bares. Desviei o olhar para o chão.

No entanto, olhar para o chão não era a melhor maneira para encontrar Artur. As botas calcavam gravilha, e faziam estalar pequenos galhos, num passeio sujo, cheio de copos de plástico e beatas de cigarro. Decididamente aquele não era o meu género e sitio.

Cheguei ao moinho. De perto a tinta descascada era ainda mais visível. As mós eram já de uma madeira quebradiça comida pelo caruncho. Olhei para ambos os lados. Não via ninguém. No meio daquele nevoeiro não destinguia nada a menos de três metros de mim. Estaria Artur tentando também procurar-me no meio daquele nevoeiro? Ou nem teria chegado a vir? A ansiedade enfurecia-me. A sensação era tão desconfortavel que senti o estômago a endurecer.

“Não veio” – pensei – “ Vou voltar para trás.”

Não queria no entanto voltar  a passar pelo mesmo grupo que me havia chamado. Tinha visto num programa de televisão qualquer que os criminosos atacam sempre vitimas que demonstrem encontrar-se desnorteadas, podendo esse ser o factor de acção. E quantos mais factores ajudariam ali? A escuridão, o nevoeiro..

Incomodada atravessei a rua. Só queria apressar-me e chegar a casa. Que estupida tinha sido por ter vindo. Mal sentia as pernas, protegidas apenas por meias de lycra opacas. A humidade parecia envadir-me até aos ossos. Porque tinha vindo? Quebra tradições? Sair da minha area de conforto já não parecia um grande plano. Ouvia ao longe barulho de risos, sentia-me observada.

Olhei á volta procurando um taxi. Afinal aquela era uma zona de bares, deveria haver táxis ali perto. Sabia que havia ali perto uma pequena praceta de táxis, mas envolta na neblina era impossivel descobri-los ao longe.

Um estalar de ramos ali perto sobressaltou-me. Seria uma cão? Não definitivamente não era. Eram passos. Distinguia o barulho seco de gravilha a ser calcada atrás de mim. Deveria correr ou olhar para trás para perceber do que se tratava? A indesição bloquou-me o andar. Estaquei, apenas ouvindo. Firmemente decidida, olhei então para trás.

Ao inicio destinguia-a apenas um vulto escuro que caminhava para ali. Depois já aliviada reconheci-o. Era Artur.

– Ah, bem me parecia que eras tu. Com este nevoeiro não dava para ter a certeza – disse ele sorrindo, aproximando de mim.

Usava gorro, com o cabelo liso e preto atrás das orelhas, cada uma com três brincos. O corpo era atlético, mas mais magro que Ricardo. A roupa  era larga, escura e simples. Sorria-me com simpatia, embora sem certeza pudesse vislumbrar um leve ar de troça. Saberia que me tinha assustado? Teria o medo tomado conta da minha expressão?

Não. Estava calma e fria como sempre. Já era profissional em controlar qualquer expressão e emoção.

– Já ouviste falar em telémoveis? – perguntei, com uma leve pontada de arrogância.

– Desculpa – respondeu quase divertido, sem sombra de arrependimento. – Mas não podia adivinhar que ia estar este nevoeiro. Se não tivesses um casaco vermelho acho que não te teria visto.

–  Devia-mos ter combinado um outro dia.

– Hoje é um dia como outro qualquer. Anda, não se pode com o frio.

Atravessamos a rua, e passamos por o grupo de rapazes que fumavam ainda á saída de um dos bares. Ao verem-me agora acompanhada, limitaram-se a ver passar em silencio, e depois desviaram o olhar. Artur caminhava alheio a tudo. Será que me tinha visto a subir e descer a rua, desnorteada? Sentia-me a corar.

Qualquer posição de inferioridade não era decididamente meu género.

 

Pretty Little Liars – A série!

A serie Pretty Little Liars já transmitida em Portugal pelo canal Sony Tv, é a resposta a um bestselling de Sara Shepard, intitulado com o mesmo nome, constituído por uma saga de quatro livros.

Hoje falarei apenas da serie, mas proponho-vos falar separadamente de cada um destes livros, já a partir de amanhã.

Na verdade a série foi livremente adaptada, pois além da primeira temporada, pouco tem a ver com os livros, e as protagonistas não estão bem personificadas.

Pretty Little Liars, conta a hístória de cinco amigas perfeitas, na cidade perfeita de Rosewood, na Pensilvânia, onde todos os adolescentes são bonitos, ricos e bem vestidos.

O grupo de Alison DiLaurentis, é formado pelas suas quatro melhores amigas submissas: Aria Montgomery, Spencer Hastings, Hanna Marin e Emily Fiels.

Juntas, as cinco adolescentes formam um elo, que é no entanto desproporcional. O seu grupo parece estar distintamente ligado, devido apenas á presensa da popular Alison. Alison é na verdade a única amiga, a quem as outras depositam os seus mais profundos segredos.

No entanto Alison não parece partilhar do mesmo á vontade, pois nenhuma das raparigas sabe  nenhum segredo seu.

No entanto, após uma noite conturbada, no celeiro de Spencer, Alison acaba por desaparecer misteriosamente. Durante um ano, a policia procura todas as pistas que os possam ligar ao estranho desaparecimento de Alison, mas sem sucesso.

O grupo das quatro amigas acaba por se dispersar, e agem agora como se não se conhecessem. Até que, um ano depois, o corpo de Alison é encontrado. Juntas novamente para prestar homenagem no seu funeral, as quatro amigas recebem todas as mesma mensagem de texto: ” Ainda me lembro do que vocês me fizeram, suas cabras – (assinado: A).

Quem será o “A” se Alison se encontra morta? No entanto, “A” parece saber tanto como Alison, dos mais profundos segredos dos quais cada uma partilhou apenas com ela. As quatro amigas, vêm-se controladas, 24h por dia, sobre as ameaças manipuladoras de “A”, que ameaça revelar, todos os seus obscuros segredos.

Na verdade segui com particular interesse a primeira temporada da serie, e foi essa temporada que me fez querer comprar a colecção de livros de Pretty Little Liars. No entanto já me tinha apercebido que a segunda temporada da serie, não tinha qualquer contexto ou nexo, nem era sequer apelativa, pois acaba por repetir-se e tornar-se enfadonha. Apercebi-me do porquê depois de ler os livros. Apenas a primeira temporada é baseada nestes, a segunda e terceira estão livremente adaptadas.

Na verdade, nem “A”, nem o assassino de Alison, são as mesmas pessoas, do livro para a serie. Esta torna-se enfadonha e ridícula, pois ao menor passo, “A” sabe sempre em meros segundos, tudo o que as quatro andam a fazer, algo absolutamente impossível para uma pessoa só.

Outra grande diferença, é a união de amizade que as raparigas mantêm na serie, algo que não acontece no livro, pois na verdade elas nunca tinham sido verdadeiramente amigas, quando pertenciam ao grupo de Alison, o que as faz desconfiar uma das outras, tornando no livro, a história bem mais empolgante.

Há no entanto a salientar que um dos aspectos positivos da serie, é ter-se passado apenas um ano, após a morte de Alison DiLaurentis, ou seja, as raparigas tinham 16 anos quando ocorreram metade das peripécias, e no tempo actual têm 17 anos.

No livro o grupo de Alison foi formado quando estas tinham apenas 13 anos, o que as torna demasiado sedutoras e manipuladoras para essa idade. Passa assim, três anos desde da morte de Alison. Acho no entanto  que 13 anos é demasiado prematuro para metade das tramas e mentiras, que as raparigas recordam desse tempo.

Pretty Little Liars é um bom livro juvenil, e pode ser encontrado na secção dos infantis das livrarias portuguesas. Algo que não percebo. A saga Twlight não faz referência sequer a actos sexuais, e está na secção dos adultos.

Em Pretty Little Liars, elas fumam, têm relações sexuais, falam de homossexualidade na adolescência, são perversas, manipuladoras, e ainda assim podemos encontrar estes livros arrumados ao lado das aventuras de “Os Cinco”… Quem percebe????

Reflexão do dia – A inveja como estado de espírito

O tema de hoje pode vir a ser complexo, e nem sempre de compreensão total. “Esgravatar” os  motivos da inveja é algo que muitos acham não ser sequer necessário. Mas não será uma forma de conhecimento e altruísmo, tentar conhecer e perceber, todos os comportamentos do ser humano? Incluindo os maus, como algo tão importante como os bons? Admitir que sentimentos maus existem, tal como os bons? Dá sempre que falar… Mas ja lá vamos…

Muitas vezes ao criar personagens, não podemos apenas criar um nome e uma descrição de um corpo. Todo a sua personalidade, previsão de comportamentos e individualidade, deve ficar registada.

Ao escrever um livro dedicamos o tempo a conhecer nós próprios as nossas personagens, o porquê de fazerem o que fazem, criando uma vasta linha de hipóteses, que podem variar consoante os estimulos internos e externos que decidimos se existem ou não.

Um texto escrito por nós próprios, é o nosso pensamento, a criação do nosso mundo. E fazer com que o nosso mundo se parece com a realidade e predictabilidade de comportamentos, remete-nos a vários exemplos de vida. É simplesmente mais facil, recriar personagens, inspiradas em pessoas que já conhecemos, do que em algo que nunca vimos, ou presenciamos.

No entanto á que tentar entender todos os pontos de vista possiveis, e tentar perceber não só os bons comportamentos, como também os maus comportamentos. Por vezes, algumas acções são mais complexas do que simplesmente estereotipar a pessoa como “má peça”. Temos de entender todos os lados possiveis, e perceber as razoes que levam o individuo a agir de uma certa forma.

Criar uma boa personagem, é criar um ser vivo num mundo paralelo. Isto não quer dizer, que este não mereça ser congruente, realistico, e veridico.A criação de uma boa personagem, pode ser mais dificil do que possa parecer ao inicio.

E, contrariamente á vida real, gostando dela, ou não, temos que a fazer perceber a nós próprios, e aos leitores, quais os motivos da nossa personagem.

Deixo-vos com um antigo trabalho universitário meu. Espero que consigam expandir o vosso ponto de vista, e perceber que o bem e o mal, pode ser bem mais complexo do que uma simples categorização.

A visão psicanalista da inveja

A visão psicanalista defende que a inveja é um impulso causado pelo ódio, que já se encontra presente no indivíduo desde da mais tenra infância.

Segundo Spinoza (cit in Trica 2009) a inveja é “o ódio que afecta o homem de tal modo, que ele se entristece com a felicidade de outrem, e ao contrário, se alegra com o mal a outrem.”

A inveja cria impulsos negativos que têm como intenção, destruir ou apoderar-se dos bens de outra pessoa, para acalmar uma pulsão de infelicidade do sujeito.

Segundo Trica (2009) a inveja é o ódio que se intensifica, podendo assim ser considerado um sentimento. Este sentimento é intensificado quando o indivíduo se sente destabilizado devido a um complexo de inferioridade em relação a um ou mais indivíduos.

O indivíduo sente culpa por ser inferior e fantasia com aquilo que pensa fazer-lhe falta. Acredita ser merecedor daquilo que fantasia, e quando a realidade não lhe proporciona o que ele sente ser merecido, o ódio e a humilhação são projectados para um sujeito que o indivíduo não considera estar ao seu nível, não tendo por isso direito a ter aquilo que este não tem.

Segundo a teoria kleiniana o impulso destrutivo esta sempre presente na inveja e estão já presentes no bebé quando este por exemplo ataca a mãe, tentando destruir algo supostamente bom que sente estar a perder, tal como por exemplo na substituição do seio pelo biberão. A teoria psicanalista acredita que a inveja é uma pulsão de morte, de destruição, que vai contra as pulsões de vida, aquelas que nos dão prazer.

O bebé sente-se amado, sente-se vivo, e sabe que existe através do contacto com a sua família, e vai experienciando relações de prazer e afecto.

Segundo Trinca (2009), a altura do desmame vem frustrar o bebe causando angustia e raiva, que ele vai projectar no objecto perdido, tendo assim uma pulsão de morte contra uma pulsão de vida.

Sendo a inveja um sentimento tão precoce Melanie Klein cit in Trinca 2009, considera que a inveja é um elemento básico do campo emocional, e que quanto mais precários forem os cuidados com o bebe, mais este tende a desenvolver futuramente sentimentos de inveja.

“O invejoso é, pois, um ser vingativo que se sente roubado de sua segurança existencial  e de sua satisfação plena de viver.” (Trinca 2009)

O conceito de inveja pode ser descrito como “o sistema mental determinante é constituído pelo padrão dominante do funcionamento mental inconsciente e consciente que tende a se estabelecer de modo relativamente constante por períodos relativamente prolongados” (trinca 2007 cit in Trina 2009)

A inveja é assim um estado de que o indivíduo pode ou não ter noção, mas no entanto despoleta neste o sentimento de cobiça, de vingança, sentimentos estes causados pelo sentimento de inferioridade em relação aos outros que atormentam o sujeito.

Podemos referir que a inveja tem como base a comparação que o individuo faz de si com os outros, sendo esta que provoca o sentimento de ódio e vingança que a inveja despoleta.

Segundo Trinca (2009), a inveja pode mesmo ser um mecanismo de defesa do self. Quando pacientes procuram ajuda psicológica, por exemplo, por vezes podem-se sentir ameaçados pelos concelhos do terapeuta. Ignoram a ajuda que este lhes pode prestar, para simplesmente esconderem a sua fragilidade por detrás da inveja. Esta inveja pode ser resultante de sentimentos negativos, em que o individuo se sente desqualificado, e pouco competente para se gerir a si próprio.

Entra assim em acção a inveja como mecanismo de defesa, sendo que o paciente discorda do terapeuta pois não quer admitir a sua fragilidade, querendo proteger a sua própria imagem do self.

Reviere cit in Trinca 2009, acredita que assim, a inveja pode ser uma “defesa para a desqualificação interna.”

Quando o individuo se vê perante bens que outra pessoa possui, o sentimento de impotência e de rebaixamento pode ser assim projectado para o ódio por essa pessoa ou por esse objecto, tendo como objectivo destrui-lo para uma manutenção e protecção do próprio self.

    Quanto mais frágil for o self da pessoa, tal como a sua situação psicológica, mais propicia está a sentimentos invejosos.

 

    A inveja, outro ponto de vista

“A inveja, por sua vez, é a sensação de desconforto, raiva e angústia perante a constatação de que outra pessoa possui objetos, qualidades, relações que o indivíduo gostaria de ter, mas não tem. A inveja pode ser importante fonte de sofrimento em indivíduos imaturos, extremamente neuróticos e com transtorno de personalidade. Além disso, a inveja intensa pode ter efeitos devastadores nas relações interpessoas.”       Paulo Dalgalarrondo, (2000)

Podemos com isto refletir sobre as consequencias que a inveja pode causar nos individuos. Trantornos psicologicos podem causar impulsos invejosos no individuo, sendo estas destrutivas para si mesmo. Este complexo de inferioridade, ou de imaturidade,  é refletido em pessoas com baixa auto-estima. É mais facil para o individuo destruir ou possuir aquilo que já é de alguem, do que ter a capacidade própria de conseguir as suas proprias conquistas.

É crucial a autocomparação para o desenrolar deste sentimento. Se um individuo centrar a sua atenção na sua vida, e se concentrar em construir as suas proprias conquistas, não estaria tão propicio a sentimentos invejosos.

Com um bom nivel de auto-confiança é possivel ao individuo viver sem cobiçar aquilo que não lhe pertende, ou esforçar-se para ser ele proprio a alcançar o que pretende.

            O individuo deve por isso centrar-se no seu próprio potencial e sentir-se motivado com o exemplo dos outros, para poder subir na vida, sem sentir magoa ou rancor pela conquista de outra pessoa.

A inveja é a defesa dos mais fracos contra os mais fortes.

 

Senso Comum

“A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandes coisas, anões em gigantes, indícios em certezas” (Miguel Cervantes)

A palavra inveja deriva do latim “invidere”, que significa não ver. É um sentimento de egocentrismo, por não suportar a ideia que o outro possa ser melhor.

Para os católicos, a inveja é um dos 7 pecados mortais: desejo por atributos, posses ou status da outra pessoa.

É a vontade frustrada de ter o que é dos outros pois não possui as competências adequadas para tal.

Os mais fracos são incapazes de atingir certas conquistas na vida, recorrendo por isso aquilo que não lhes pertence. Atingem um nível de satisfação ao retirar do outro para darem a si próprios.

Aos olhos dos invejosos, as conquistas dos outros parecem de algum modo mais grandiosas do aquilo que realmente são. Despertam no invejoso uma sede de vingança inexplicável até para ele próprio, alegrando-se com a tristeza que causará na pessoa.

A inveja em senso comum também se designa como o acto de não querer partilhar os seus bens com ninguém.

Uma criança invejosa é criticada por não emprestar os brinquedos a outra criança, embora sinta vontade de brincar com o que não e dela também.

Existe no entanto em senso comum uma ligação muito forte entre ciúme e inveja, havendo ténues diferenciações.

Conclusão

            Podemos concluir que a inveja, numa visão psicanalítica, funciona como uma pulsão de morte, sobre uma pulsão de vida, ou seja, o indivíduo destrói ou apodera-se de um objecto que sente como merecido, para proteger o self de lacunas como o rebaixamento e a inferioridade. A inveja funciona assim como mecanismo de defesa para com o self.

Indivíduos psicologicamente perturbados têm assim uma maior possibilidade a este tipo de sentimento.

A inveja é no entanto um sentimento composto por vários tipos de emoções, tal como tristeza, magoa, que o indivíduo sente por si próprio, e por fim, um ódio projectado. Após a destruição ou apoderação do objecto, o invejoso sente alegria com a tristeza do outro, que lhe causou mágoa anteriormente. Isto demonstra também a necessidade de vingança que a inveja faz sentir.

Podemos concluir que a inveja é assim uma mistura complexa de emoções e estados de espírito que podem variar de pessoa para pessoa.

Leva-nos a pensar se o ser humano não nasce já propicio a inveja, logo que sente as primeiras angustias na vida, logo na tenra idade, o que o leva a uma protecção determinada de si como ser vivo, que existe, que é vivo e que se quer impor para a vida.

A humanidade deve assim como individuo singular, enriquecer a sua personalidade e conducta, para que aquilo que não lhe pertence, lhe traga apenas incentivo de crescimento.

Capitulo 6

Quando acordei no dia seguinte estava ainda no sofá com uma manta enrolada á minha volta. Demorei algum tempo para recordar o dia anterior, até que a memória de Artur ressaltou na minha cabeça, levando-me a corar um pouco.

Olhei á volta mas não o vi em parte alguma. Não estava lá.

“Provavelmente está na casa de banho, ou assim” – pensei. Espreguicei-me com vontade.

Quantas horas seguidas teria dormido? Já estranhava a sensação de pleno descanso ao acordar. Senti-me disperta e bem disposta.

Os cadernos e livros ainda se encontravam em cima da mesa, mas só os meus. Reparei numa folha dobrada em quatro, arrancada do meu caderno. Peguei nela com a ponta dos dedos, voltando a estender-me no sofá para a ler.

Tive mesmo que sair. Subi ao teu quarto para arranjar essa manta, e tambem me servi na cozinha, espero que não haja problema. Gostava que pudessemos falar mais.”

Li novamente o papel. Depois virei-o para confirmar. Ele não tinha deixado número de telefone. Teria que esperar pelas aulas para o ver outra vez. Sentia-me envergonhada só de pensar em vê-lo nas aulas depois daquilo. Queria que ele ali estivesse. Queria poder falar com ele agora.

Sentindo que a boa disposição de dissipava um pouco, levantei-me do sofá já com um certo peso nos musculos sentindo-os rigidos, principalmente os da cara.

Teria sido tão mais facil se o encontrasse ali, agora. Que lhe diria eu na escola, depois de lhe ter adormecido em cima, sem razão aparente? Conseguiria eu, superar as figuras de débil mental, que fazia sempre que estava com ele?

“Provavelmente não.”

Dirigi-me para a cozinha, arrumei a loiça na maquina e passei um pano pelas bancadas. A mãe devia estar a chegar.

Reparei num ou outro vestigio da estadia dele, enquanto limpava a cozinha.

Olhava sem cessar para o telemóvel. Mas para quê? Ele não poderia ligar-me, não tinha o meu número. Nem se dava com ninguém relativamente próximo a mim para o arranjar.

As restrições com o número de telemóvel, quando se é popular numa cidade pequena, traziam bastantes dores de cabeça. Eu e Susana já nos viramos várias vezes obrigadas a mudar de número de telefone.

Por vezes, apenas admiradores secretos, provavelmente acabados de sair das fraldas. Alguns não passavam de murmurios ofegantes enquanto a ligação de mantinha. Em dias de boa disposição, Susana e eu entretinhamo-nos a picar quem estivese do outro lado, lançando tambem gemidos, e propostas provocadoras. Outras vezes porém decidiamos humilhar quem estivesse do outro lado, com todo o tipo de esteriótipos a cromos espinhudos de óculos e gordos, que nos pudessemos lembrar.

Outras vezes ligavam raparigas a insultarnos. Aí desligava-mos logo.

No entanto, ao longo do tempo, as partidas ao telefone foram perdendo a piada, o que me levou a mim e a Susana, a restringir o novo número ao minimo de pessoas que fosse possivel.

Pensei com saudades das risotas em cima da cama, ambas agarradas ao telemóvel, em alta voz. Mas teria agora a mesma piada fazer o mesmo? Provavelmente não.

Girei o telemóvel na bancada com alguma tristeza, sabendo que mesmo que quissesse não poderia contactar Artur. Se tivesse o número será que o contactaria?

“Claro que não, mas esse não era o ponto importante. Ele não tinha deixado o número e pronto. Não sentia pressa em falar comigo. Esperaria de bom grado até me ver na escola.”

Tentei não pensar nisso. Decidi telefonar a Susana, convidando-a para passar a tarde comigo. Pelo menos teria companhia.

Susana chegou a meio da tarde, tocando apressadamente á campainha, e batendo também na porta, com a pressa de ser resgatada do frio que se fazia sentir. Trazia uma galochas cor de rosa, com forro térmico. Usava uma gabardine branca com grandes bolas rosa, que embora a protegesse da chuva, não devia ser suficiente para a proteger do frio.

Entrou rapidamente em casa, sentando-se no sofá da sala cobrindo-se com a manta que eu deixara ficar. Franzi o nariz, imaginando o cheiro do seu perfume a ficar empregnado na manta mas não disse nada. Sem a cumprimentar, sentei-me também no sofá, roendo as unhas, ainda com a imagem de Artur a ocupar o lugar onde esta estava agora.

– O Ricardo voltou a ligar-te? – perguntou-me Susana finalmente falando, já recomposta do frio.

Ricardo? Seria só a mim que a briga com Ricardo e a noite do baile, pareciam ser um assunto, encerrado á séculos?

– Não. Nem acho que volte a ligar.

– Acho que volta. O Dani ia falar com ele.

Revirei os olhos, num gesto de impaciencia.

– Diz-lhe que não presisa de fazer isso. O Ricardo quando quiser volta a falar comigo. E eu se quiser falo com ele.

– O Dani é que quer falar com ele, tambem não tenho nada a ver com isso.

– É indiferente. – tentei por fim ao assunto. – Tenho uma coisa para te contar.

O quê? – Susana olhou-me com curiosidade. Adorava criar espectativa sempre que lhe contava algo.

– Ontem estive a acabar um trabalho aqui em casa com uma pessoa.

Susana abria mais os olhos, como se pudesse ver mais promenores com o olhar. – Com quem?

– Acho que não conheces. Chamasse Artur, anda sempre com aquele grupo que nós, bem que nós…

– Do grupo dos drogaditos? – Susana mostrou-se desagradada.

– Não lhe chames isso. Não conhecemos ninguem de lá.

– Drogados, asquerosos, sem estilo, se preferires então. Sem a menor aptidão social.

Ri-me. O que sabia Susana acerca de aptidões sociais? Pareceu-me uma palavra muito forte para ela.

– Bem, mas de qualquer maneira, Artur está a fazer um trabalho comigo para psicologia. É muito inteligente. Posso quase de certeza dizer que ele tem.. Como é? Aptidões sociais – Ri-me.

– Não podes estar a falar a serio. Fizeste alguma coisa com ele?

– Passou cá a noite.

Susana parecia perplexa. – Mas não fizemos nada mesmo, nada a ver. Mas, gostei de estar com ele.

– Não podes mesmo estar a por a hipótese de deixar o Ricardo por aquilo…

– O Ricardo é que me deixou a mim. E não fales assim, não o conheces.

– Mas esse rapaz, não é como nós. O que poderias ter tu em comum com ele?

– Muito. Ele não é como nós como? Só porque não tem dinheiro?

– Sabes o que quero dizer. Isso é gente de grupos pesados. Não falam do mesmo que nós, nem têm as mesmas perspectivas que nós.

Ponderei um pouco aquilo que Susana me dizia. Mas a verdade é que, também eu não sabia quais eram ao certo as minhas perpectivas.

– Estás a generalizar. Não o conheces. E apenas te estou a dizer que gostei de o conhecer. Não que vou andar com ele.

– Mas ele já passou cá a noite…

– Bem demoramo-nos a fazer o trabalho e adormecemos a ver televisão – disse. Não queria dar a Susana mais promenores. Ainda me sentia envergonhada da carga emocional da noite passada. E Susana também não sabia as minhas razões por isso não valia a pena contar-lhe essa parte.

– Acho que se saires com ele, vais acabar magoada – disse por fim.

– Como tu com o Dani?

– Bem para ser sincera eu sem bem no que me estou a meter. Não estou a procura de um relacionamento com ele. Enquanto durar, vai-se andando. Provavelmente sou eu quem vai dar a tampa primeiro.

Parecia abalada com aquela confissão, mas tal como ela fazia várias vezes comigo, tentei ignorar a seriedade do assunto. Nnca falavamos das fraquezas duma e doutra.

– Eu também sei no  que me estou a meter. Aliás não me estou a meter em nada. Só te queria contar porque se me vires com ele na escola não quero comentários para cima dele.

Susana suspirou como se eu lhe estivesse a pedir algo impossivel. Depois acenou afirmativamente concordando.

– Então, de que é que conversaram?

– Nada de especial. Estivemos a estudar. Ele explica bem a matéria, torna-se fascinante dita por ele.

Susana tinha o nariz ligeiramente franzido mas não comentava. Parecia querer duvidar de cada palavra que eu dizia, como se esperasse a todo o momento que eu dissesse “Achas mesmo, estou a gozar”.

Decidi que não valia a pena comentar mais nada com ela sobre Artur. Ela nunca o iria perceber. Nem eu percebia.

De todas as maneiras, tentava encontrar palavras para o que tinha visto em Artur, mas ao tentar falar ouvia-me a mim propria a baralhar-me e a juntar frases sem nexo, o que não contribuia para me manter credível em frente a Susana.

Fosse como fosse sentia que tinha feito uma grande revelação a Artur. No entanto não lhe tinha contado nada. Mas podia sentir que ele tinha percebido o que eu lhe tentara transmitir. Ou não teria?

Havia algo em Artur, no seu olhar avaliador, que me fazia supor que muito estava dito sem o dizer. Ele tinha entrado. Ele tinha observado embora de soslaio o meu pequeno mundo obscuro e talvez o tivesse mesmo comprendido. Só lhe faltava saber o porquê. Faltava nas perguntas dele a interrogação. Eram tão afirmativas…

E eu sentia-me impelida a responder.

Com Ricardo qualquer pergunta soava como um interrogatório, a algo forçado, tentando visualizar para além daquilo que eu queria transmitir.

Susana, essa nem sequer tinha reparado ainda que algo não ia bem. Mas porquê culpabilizá-la? Eu é que não estava á altura. Não podem haver nódoas para uma vida perfeita. Era tão mais facil evitá-las e viver normalmente.

Com Susana estava segura. A seu lado, não havia fraquezas, nem desabafos, nem sequer tristezas. Deviamos ser sempre fortes, impassiveies, e superiores. Afinal era por isso ue eramos populares. Era por isso que todos queriam ser como nós. Dava trabalho ser assim, mas com ela como amiga era impossivel perder o fio.

Devia pensar isso sim, na universidade, no curso, nos bailes, na roupa e em Ricardo. A minha vida era simples e perfeita e assim  tinha que continuar. E com alguma concentração parecia-me tão simples.

Susana lanchou comigo, uma salada de ovo, com fatias de ananás em lata. Queria por os trabalhos de casa em dia mas não conseguia concentrar-me.

Com apontamentos e livros de estudo em cima da mesa, Susana tinha a revista Cosmopolitan nos joelhos e uma vez por outra puxava pela revista sempre que via um escandalo de cinco em cinco paginas. O assunto não me animava, mas era sempre refrescante pensar em coisas banais.

– Não queres ir até ao centro comercial? Vi uns Parkas tão giros, agora estão na moda outra vez.

Franzi-lhe o rosto. – Com este frio não me apetece muito sair de casa. Tenho este trabalho de matemática para acabar.

-Bem eu vou ter mesmo que lá passar, manda mensagem se ele der noticias.

– O Artur não tem o meu numero de telemóvel – respondi latente.

– Estou a falar do Ricardo – murmurou Susana já de mau humor. – Não queres mesmo vir comigo?

– Não, a minha mãe já deve estar a chegar a casa. Ela gosta sempre que eu aqui esteja quando chega de alguma viagem.

– Está bem. Vemo-nos amanha na escola. – com um sorriso despediu-se, saltando energica para a tarde fria e ventosa que estava lá fora.

Com o trabalho de matemática á frente dava voltas e mais voltas mergulhada em pensamentos. Se Artur tivesse ficado, tinha sido tudo facil. No dia seguinte a primeira frase podia muito bem ter sido “ Bom dia, vamos tomar pequeno almoço?”. Mas agora dificultava tudo. Que lhe iria eu dizer quando o visse? Provavelmente nada. Talvez ele se mantivesse no grupo dele e eu no meu. Afinal o trabalho já estava pronto.

A minha mãe chegou a casa já de noite. Eu estava sentada no sofá com o telejornal a passar na televisão. Nem tinha dado pelo tempo passar.

– Trouxe comida chinesa – anunciou ela tirando umas pequenas caixinhas brancas de um saco fast food, e entregando-me os pauzinhos. O cheiro a noodles enjoou-me de imediato. No entanto comi não querendo desiludi-la. Afinal comida chinesa era das minhas preferidas.

– Como correu o baile de sexta? – perguntou-me.

– Bem, o ginásio parecia outro. E o namorado da Susana arranjou uma limousine para irmos os quatro. E estreei aquele vestido azul noite que me deste no Natal.

– Pensei que não querias sair mais com o Ricardo.

Encolhi os ombros: – O baile não é nenhum casamento. Dançamos foi divertido, nada de mais.

– Dormiste em casa da Susana?

– Dormi – e antes que a conversa fosse dali adiante sugeri ver-mos um filme, enquanto comiamos os noodles. Ao menos assim acabava o interrogatorio. A mãe devia estar esgotada da viagem porque adormeceu a meio. Silenciosamente deixei-a ficar no sofá e subi para o meu quarto.

– Só faltam resolver três problemas e e aplicar duas formulas- disse em voz alta, como fazia sempre para me motivar a estudar. Sentei-me na secretaria a acabar o trabalho. Passado longos momentos embrulhada em cálculos, adormeci tal como a minha mãe, sentada e sem dar por isso.