Capitulo 9

Afinal há coisas que se aprendem na escola, que servem para alguma coisa…

Eram cerca das 6:30 da madrugada, quando o despertador do meu telemovel tocou. Apertei Artur contra mim, bastante consciente da presença dele ali no meu quarto. Tinha de o tirar rapidamente de casa, antes que a minha mãe acordasse.

Levei-o até á cozinha, atenta a todos os barulhos que pudessem vir do quarto minha mãe, mas tudo etava tranquilo. Esta ainda se encontrava a dormir.

Entramos na cozinha estremunhados. Havíamos dormido apenas um par de horas.

– Estou sempre á espera de ver a tua mãe a entrar pela cozinha – disse-me.

-Ela ainda está a dormir – adverti. Peguei num filtro, colocando-o na máquina de café e encetei um pacote de leite que coloquei em cima da bancada.

A máquina de café logo se fez ouvir, espirrando ruidosamente, aromatizando a cozinha com um odor a café fresco. De dentro de um armário retirei duas canecas que pousei no balcão, e retirei a cafeteira da máquina.

Fazia aquilo quase divertida, esquecendo-me por momentos da presença de Artur. Á quantos dias não acordava eu tão bem disposta?

Entreguei-lhe uma caneca de café particularmente cheia, e servi uma para mim. Apercebi-me tarde demais que a minha dizia em letras garrafais “I am a princess”. Tapei imediatamente com a mão, e dei um gole escondendo a cara, por detras da caneca.

O sabor forte do café fez-me sentir um pouco enjoada por isso dirigi-me á banca, despejando o resto, lavando com uma esponja a minha caneca.

Artut saiu detrás do balcão, abraçando-me pelas costas, afastando-me o cabelo para trás cm uma das mãos e beijando-me o pescoço. Fechei os olhos, concentrando-me na sensação, nas pontadas de prazer que sentia coluna abaixo.

Empurrei-o suavemente, virando-me ao seu encontro. – Vemo-nos na escola?

Ele acenou afirmativamente com a cabeça, fixando o olhar, roçando os lábios nos meus. Senti o estômago a contrair-se. Ele era tão bonito. Antes que o pudesse beijar, ouvimos um barulho vindo das escadas.

– Vai – disse, empurrando-o para a porta das traseiras que dava acesso ao jardim. Tranquei a porta mal ele saiu, e corri para a banca arrumando os vestigios do pequeno almoço a dois. Enxaguei a ceneca dele e estava a meter dois pratos na máquina de lavar quando a minha mãe entrou na cozinha.

– Levantaste-te cedo – comentou surpreendida. Vinha enrolada num robe cinzento.

– Dormi bem esta noite – menti. Não era uma mentira inteligente da minha parte. Podia sentir os olhos inchados, e sabia que a maquiagem estava borratada. Não tinha lavado a cara antes de dormir, nem me lembrara de tal coisa.

E para meu horror, notei pela primeira vez que estava com as roupas de ter saído á noite. A minha mãe, no entanto, não fez qualquer reparo, embora os lábios parecessem um pouco mais reprimidos. Pegou na cafeteira que ainda estava em cima do balcão e serviu-se de um pouco de café.

– Então, quando trazes o Ricardo cá a casa para estudarem juntos? – perguntou abruptamente.

– O Ricardo? – perguntei confusa. Passava a mão no pescoço, tendo ainda a sensação dormente dos beijos de Artur, quando a minha mãe fez a pergunta.

– Sim, tinhas dito que ele era capaz de passar por cá para te ajudar em matemática. Pensei que podia conhecê-lo.

Por que raio queria a minha mãe conhecer Ricardo? De que desconfiaria ela? No entanto com a cara borratada de maquilhagem e as roupas do dia anterior ainda vestidas decidi que não era altura certa para a questionar.

– Vou perguntar-lhe hoje quando o vir na escola – respondi inocentemente. – Bem vou-me arranjar – disse tentando sair o mais rapidamente  possivel da cozinha.

– Ao ver-te assim ás 7 horas da manhã, podia jurar que já estivesses arranjada – comentou friamente. Parei rigida, á porta da cozinha, voltando-me rapidamente num meio sorriso.

– Ontem adormeci vestida a ver televisão. Mas pelo menos dormi bem – voltei a inventar. Vi um pouco de cepticismo no olhar da minha mãe, mas nao teceu mais comentários. Aproveitei a deixa para fugir da cozinha, subindo escada acima.

Entrei no meu quarto. A cama estava feita, mas amassada, de termos dormido por cima das cobertas. Estendi-me ao comprido de barriga para baixo inspirando profundamente. O cheiro dele ainda estava ali.

Como seria bom, dormir toda a manhã com o nariz enterrado naquela almofada.

No entanto Artur tinha dito que nos veriamos na escola. Alegre com esse pensamento levantei-me logo a seguir energéticamente, e pela primeira vez em semanas, fui-me arranjar, não por rotina, mas por simples gosto.

***

Quando cheguei á escola faltava ainda alguns minutos para tocar.

Pela primeira vez em semanas o sol brilhava, embora o ar ainda fosse gélido. Aproveitando o dia de sol, levava umas calças de ganga coçadas com alguns rasgões e uns ténis brancos velhos que encontrara no fundo do armário. Naquele dia não ia haver dores nos pés por causa dos tacões.

Levava um gorro e um cachecol de lã cor de rosa por cima de um parka branco. Tinha apenas colocado um pouco de máscara nos olhos, e um brilho nos lábios. Não me lembrava de nenhum dia em que tivesse demorado dez minutos para me arranjar. Sentia-me leve e bem disposta apesar das poucas horas dormidas. A aula a seguir era psicologia, o que só aumentava o meu grau de boa disposição.

Entrei no corredor que levava ao meu cacifo. Estava quase vazio. A maioria dos alunos ainda não tinha chegado, e os que tinham encontravam-se lá fora a aproveitar o sol.

Será que Artur já tinha chegado á escola? Tivera tempo de ir a casa e voltar? Retirando os livros do meu cacifo, dirigi-me lentamente para a aula no andar superior. Não havia ainda alunos por ali. Faltavam cerca de dez minutos para o primeiro toque da manhã. Aproximei-me da sala onde ia ter aulas e encostei-me perto da porta á espera.

Reparei no entanto que a porta de sala se encontrava já entreaberta. Estava a pensar em entrar para poder pousar os livros na carteira quando ouvi vozes. Parecia estar alguém a discutir dentro da sala de aula.

Já me ia a afastar, não querendo ser apanhada como a intrometer-me na vida alheia, quando ouvi algo que me fez estacar. Podia destinguir perfeitamente a voz de Artur de dentro da sala. Não havia lugar para enganos. Tinha ouvido a voz dele a noite toda, estava certa que era a dele. Mas de quem era a outra voz?

Aproximei-me um pouco, estacando á ombreira da porta, escutando atentamente.

– Ontem podias ter pelo menos atendido – dizia uma voz. Reconheci após alguns segundos de concentração. Era a professora de psicologia. A sensação foi similar a receber um pequeno soco no estômago. Com o ventre a contrair-se esforcei-me ao máximo para escutar.

– Não podes mudar de ideias todos os dias – dizia a voz de Artur.

Abria-a os olhos o mais possivel como se pudesse ouvir por eles, sentindo um pequeno aperto no peito, reparando que estava a suster a respiração. Libertei o ar que me apertava os pulmões, voltando a dar toda a atenção á conversa.

– Não tem nada haver com mudar de ideias. Tu sabes que a situação é complicada, que tenho que ser discreta. Se faço é porque tem que ser.

Silêncio. – Eu sei que estiveste com ela ontem. Vejo no teu comportamento – continuou a voz.

– Tu podes viver como queres e eu não? – ouvi Artur responder.

– Não tem a ver com viver como quero – respondeu a voz exasperada. – Eu tenho aparências a manter. Eventos onde ir.. Mas não vamos falar disso aqui na escola…

A campainha tocou. Ainda estática á porta, ouvi movimentos dentro da sala. Podia ouvir uma pequena multidão de alunos subindo as escadas para o andar de cima.

Com a sensação de enferrujamento nas pernas fugi para uma casa de banho ali perto.

Olhei-me ao espelho. Estava completamente descontrolada. As minhas mãos tremiam de nervossismo, a cara estava pálida, e respirava ruidosamente, sentindo que todo o oxigénio do quarto não era suficiente para um unico folego.

– Calma, calma, calma – balbuciei a mim mesma, agarrada ás torneiras do lavatório. Nem sabia porque estava a reagir assim. Ainda nem tinha tido tempo para processar o que tinha ouvido. Sentia a cabeça num turbilhão de ideias. Havia tantos pensamentos a querer emergir ao mesmo tempo, que acabava por não pensar em nada. Sentia apenas um formigueiro latente por todo o corpo.

Tanto tempo com tudo sôb controle. Durante tantos dias mantivera tudo controlado. Parecia que no momento em que decidira baixar as minhas defesas, tudo saíra em catapulta. Mas eu sabia como me controlar. Tinha semanas de prática afinal.

Controlar, ter controlo, era o segredo para tudo.

Primeiro respirar. Inspirei e expirei fundo várias vezes, abri a torneira, sorvendo água, bochecando-a e cuspindo-a, como se limpasse algo pútrido vindo de dentro.

O que não daria por um banho quente naquele momento, mas aquilo era tudo o que tinha.

A respiração voltára ao normal. Tudo bem, passo seguinte, desfragmentar todas as ideias que ocorriam sobrepostas na minha mente.

O que tinha ouvido eu de especial afinal? Embora tivesse passado apenas alguns minutos, fiz um esforço atroz para me relembrar do que ouvira. O cérebro parecia preso, numa derradeira tentativa de me mantêr afastada de mais problemas.

Artur e a professora tratavam-se por tu. Ela falara algo de manter as aparências e… poderia ser? Tinha dito que sabia com quem Artur tinha estado durante a noite. Saberia mesmo? O que é que ele lhe contára?

Procurei na bolsa, remexendo tudo. Sabia que tinha alguns comigo. No inicio tinha tomado alguns. Ultimamente não voltara a precisar. Até já me tinha esquecido deles, mas sabia que tinham ficado precisamente na mala.

Encontrei por fim, uma embalagem amarrotada de Valium. Retirei um comprimido, ainda com as mãos tremer um pouco, e empurrei-o com alguma água da torneira. De cabeça para baixo esperei que surgisse o efeito.

Artur andaria mesmo com ela? Seria uma partida do meu cérebro? Parecia tão irreal… Veio-me é memória uma imagem mental da professora. O cabelo ondulado comprido, caía em cascata até ao fundo das costas. A pele morena e lisa, sem um unico contorno, sem uma unica imperfeição, brilhante e saudavel.

O nariz arrebitado, os lábios finos e elegantes. Toda ela inspirava elegancia, no seu porte, no seu andar, nos mais infimos gestos.

Eu e Susana eramos de longe as jovens mais bem vestidas da escola, talvez até da cidade. Mas não havia maneira possivel de fazer uma comparação á elegância matura e natural da professora. Custava a acreditar que pudesse andar com um aluno. Andaria mesmo? Com Artur?  E eu? Seria eu apenas uma substituta? Teria estado comigo naqueles dias apenas para esquecer os problemas dele? Para andar entertido?

Senti os primeiros sintomas do comprimido a fazerem efeito. Saí da casa de banho, com o gorro cor-de-rosa numa mão e os livros no outro braço, dirigindo-me para a aula, numa sonolência pesada, mas ao mesmo tempo com a cabeça nas nuvens.

Os pensamentos surgiam calmos e organizados, e podia ignorá-los se quissesse fixando o vazio.

Bati á porta da sala pedindo desculpa pelo atraso. Não olhei para ela, nem olhei para Artur. Dirigi-me de olhos baixos para uma carteira no fundo da sala.

Olhei finalmente para o quadro e para ela. Mais bonita do que me lembrava, brincando com uma caneta nas mãos. Não olhava para mim.

Senti uma fraca pontada no estomago. Teria sido forte, não fosse o comprimido.

Sentia-me agora vagamente inferior com os ténis e as calças rasgadas. Passei a mão penteando um pouco o cabelo, eriçado por causa do gorro. Pela primeira vez tomei atenção á aula. Não queria que me escapasse nenhum promenor.

– Como alunos de secundário, esta matéria não será ainda relevante, mas para os que ingressarem por um curso universitário nesta área serão com certeza confrontados várias vezes com esta matéria. Acho importante falar um pouco neste tema, porque pode ser util na adolescencia.. – rematava a professora. Reparei que não olhava para Artur. Este estava dois lugares á minha frente numa fila á minha direita.

– A máscara, vem da palavra latina “masca” que significa fantasma. Alguém quer tentar fazer a associação? O que significa para vocês a palavra máscara?

– É uma fantasia – respondeu alguém. – Um disfarce.

A professora abanou um pouca a cabeça, num gesto de indesição. – Sim e não – disse- Pode não ser um disfarce. Na antiga grécia por exemplo, a máscara era usada nos teatros para fazer realçar a personalidade de cada personagem. Os actores dispunham de diferentes máscaras, para que o publico pudesse compreender melhor a peça. Portanto aqui a função não seria esconder e sim tornar obvio. O que nos leva outra vez á pergunta, porque deriva então esta palavra de fantasma?

– Pode realçar ou esconder aquilo que nos é intimo. – Fora Artur a responder. A professora olhou durante os segundos para ele, mas de seguida desviou o olhar.

– Sim podemos ter esse pensamento em conta – continuou – A máscara pode ser usada sem que haja qualquer disfarce. O truque de ludibriar o que nos vai no espirito vai sendo melhorado á medida que crescemos e desenvolvemos. Quem sabe por exemplo o que significa o termo americano “ Poker face”?

Ninguém respondeu. – Jéssica já ouviste esta expressão?

Dei um pequeno salto na cadeira ao ouvir o meu nome. O formigueiro de nervos havia sido substituido por uma dormência subita nos membros inferiores. Sentia os olhos semicerrados, e a cabeça com um processador dez vezes abaixo que o normal.

– É uma música da Lady Gaga? – disse em voz alta o primeiro pensamento que me ocorreu. Todos se riram, mas a professora não.

– Também é – concordou ela – Mas qual é o significado dessa expressão?

Apetecia-me responder: “É o que tenho feito todas estas semanas”, mas respondi apenas: – Não sei!

Franzindo um pouco o nariz a professora continuou – O termo apareceu devido á falta de emoções presentes na cara dos profissionais de Poker durante as partidas. Para ser um bom profissional neste campo não lhes compete apenas saber jogar, mas também ludibriar todos os outros, acerca das verdadeiras emoções. Neste caso é mais um entorpecimento treinado, sendo que, não pretendem transmitir qualquer emoção. Mas os actores de televisão por exemplo conseguem transmitir-nos emoções muitas vezes pesadas que são completamente artificiais. Nem de longe é presiso hoje em dia, máscaras como as que os gregos usavam nos teatros, para perceber-mos um filme. Portanto é uma aquisição que muitos vão desenvolvendo, uns melhores que outros, durante séculos. Tal como tudo, podemos usar esta técnica com beneficios ou com maleficios. Ela dá no entanto muito jeito para entrevistas de trabalho por exemplo, entre outras coisas. Todos nós o acabamos por fazer. Aliás, um exemplo simples pode ser maquilhagem nas mulheres. Não passa de  uma máscara, uma barreira imposta que protege um pouco mais o intimo de cada uma, pode mascarar uma confiança que na realidade não está lá. E começa a ser obrigatoria em vários trabalhos também.

O tema continuou. Discutiam agora o mundo actual e a obrigação de todos usarem uma máscara e de ser impossivel viver se todos fossem sinceros, a trabalhar por exemplo na area de direito, ou como vendedor.

Alguém dava o exemplo de não se poder ser antipático para uma  hipotética tia que ainda nos aperta as bochechas quando já somos grandes, mas que contudo ainda tem permissão para o fazer porque a seguir a meia duzia de risos falsos, deposita uma nota nas mãos.

Os beneficios e os maleficios de esconder as emoções. Tudo aquilo parecia tão feio… No entanto, no momento a seguir senti-me completamente hipócrita. Não era isso que tinha vindo a fazer? E porque não continuar? Queria mesmo desafiar Artur para a conversa que tinha ouvido? Queria mais problemas somados ao remoinho que já era a minha cabeça? Valeria mais a pena afastar-me de tudo e agir como se nada tivesse acontecido?

Sorumbática, com os efeitos do Valium, perdi o interesse á aula, concentrando-me apenas no vazio, fixando o nada. Não olhei para Artur, não olhei para ela, e sobretudo não procurei por indicios de alguma relação entre os dois. Ali na aula, mais do que em qualquer sitio, parecia tudo mentira. Seria aquela a mesma manhã em que ele me beijara o pescoço enquanto eu lavava a loiça na banca? Seria possivel? Teria saltado para um universo paralelo?

Quando a campainha tocou saí disparada da sala sem olhar para trás. Pelo menos a decisão de levar ténis, valia-me em rapidez.

Ricardo esperava-me ao lado do meu cacifo. Levantou um pouco as sobrancelhas, com certeza surpreendido pela minha simples indumentária, mas não fez comentários e sorriu.

– Hoje estás pequenina – gracejou, fazendo-me uma festa na cabeça, como se eu fosse um animal de estimação.

Revirei os olhos um pouco mal disposta abrindo o cacifo.

Mas que raio, se estava na escola era para aprender alguma coisa ou não?

Respirando fundo e reunindo algo que não sei como especificar, substituí a cara aborrecida por o meu melhor sorriso: – As explicações a matemática podem ser  hoje? – perguntei-lhe, lembrando-me de súbito da minha mãe. – Ainda não comecei a fazer o novo trabalho que o professor nos marcou.

Ricardo por um segundo pareceu ficar radiante, mas esboçou apenas um pequeno sorriso. – Pode, queres estudar onde? Em minha casa?

“Outro a pôr a máscara” – pensei com alguma decepção. – “Que  mundo.”

– podemos ir para a minha e lanchavamos lá. Aparece depois do almoço está bem? – fechei o cacifo tirando os livros para a aula seguinte e encaminhei-me lá para fora.

– Está bem – ainda o ouvi dizer atrás de mim.

No exterior, dirigi-me a um grupo de rapazes e pedi um cigarro. Um deles perguntou se não queria ficar ali a conversar com eles, mas recusei, sentando-me num lugar mais sossegado. Passado uns segundos vi Susana a dirigir-se na minha direcção.

– Que estás a fazer? – perguntou olhando ameaçadoramente para o cigarro. – Sabes o que uma coisa dessas faz á pele?

– É só desta vez, prometo – tentei despachar.

– É só desta vez? – voltou a repetir – diz-me isso quando quiseres ir comprar écharpes para esconder o furo que te vão fazer na garganta para poderes respirar.

– Ok Susana, ganhaste – respondi atirando o cigarro ao chão. Quando ela queria sabia ganhar a dela. – Tens os deveres de português feitos? Acabei de me lembrar que não os cheguei a fazer.

Parecendo ainda mais mal disposta, Susana apressou-se a passar-me o caderno. Agradeci, começando a passar aleatóriamente alguns apontamentos.

Vi o olhar que ela lançou sobre ás minhas roupas mas milagrosamente não pareceu interessada em comentar. Será que a própria Susana afinal tinha mais tacto do que fazia querer? Outra máscara? Só mesmo Susana para usar uma máscara para ocultar qualidades.

– Pelo menos ouvi dizer que vais manter os deveres de matemática em dia – sorriu-me perversamente. Devia ser por isso que nem comentára as roupas. Olhei para ela irritada. A que raio de velocidade a informação passava ali?

– Ei, ouvi-o a dizer ao Dani que não podia ir hoje a um treino extra de futebol, para estar contigo- disse ela, encolhendo os ombros. – Falando neles…

Levantei a cabeça. Reconhecia Dani em qualquer lado, com aquele casaco vermelho,e mangas brancas em couro, á desportista americano. Só ele tinha um casaco daqueles. Vinha com Ricardo ao lado. Quando se aproximou, Dani pegou Susana ao colo, agarrando-a só com um braço á volta da cintura, fazendo-a soltar gritinhos estridentes. Ricardo sentou-se ao meu lado, tentando dar-me a mão. Deixei por uns momentos, até me desculpar com o copianço que estava a processar e voltar ao trabalho.

O efeito do comprimido ainda estava bem acente, pelo que demorei bastante a escrever apenas algumas frases, numa caligrafia torta. A campainha tocou. Ia ter aulas com Susana.

Vi Dani a pegar nela, levando-a ao ombro, enquanto ela se agitava. Ricardo fazia lembrar um cão perdido á espera de atenção, atrás de mim numa postura inquieta.

– Também queres que te leve aos ombros? – gracejou, fazendo de conta que ia pegar em mim, envolvendo-me a cintura com os braços fortes.

– Nem penses – ripostei, dando-lhe uma pequena cotovelada, forçando um sorriso.

– Explicava-te a lei da gravidade – continuou, fazendo-me subir alguns centimetros do chão sem esforço.

– Quero explicações a matemática, não a fisica – ripostei abanando os pés enquanto ele me pousava no chão.

Encaminha-mo nos os quatro para o pavilhão escolar, não antes que eu reparasse com uma certa pontada de mal estar, que Artur estava visivel na outra ponta do recinto.

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