Capitulo 5

Por vezes, o único papel que sei representar, é o de estúpida!

Acordei já passava da hora do almoço. O meu telemovel estava carregado de chamadas não atendidas e mensagens de Susana e Ricardo. Ambos queriam saber se eu me tinha passado completamente. Telefonei primeiro a Susana. A minha voz ainda estava rouca de sono. Susana atendeu bem disperta com um tom de voz mais esganiçado que o costume.

– Deixaste-o lá sozinho? Já viste a humilhação, nós descermos e dar-mos com ele sozinho no meio da sala? E ninguem sabia o que te tinha acontecido, nem recados nem nada…

Tentei acalmar Susana. Expliquei que não tinha conseguido adormecer lá e por isso tinha vindo para casa.

– Tinhas camas no andar de cima não venhas com desculpas.

– Susana por favor, queria mesmo vir para casa.

Deixei-a a falar mais um pouco e depois insisti que tinha de desligar. Agora vinha o pior. Falar com Ricardo. Telefonei-lhe.

– Fiz algo que te desagradou? – perguntou-me ele.

– Não Ricardo, a serio que não. Eu apenas não me sentia á vontade ali para dormir.

– A questão não era o sitio Jessica, era a pessoa..

-Não percebi..

– Tu não estavas era a vontade para estar comigo, não foi o sitio que te afligiu.

– Ricardo a serio que não é verdade. Eu tenho estado com os sonos trocados, e queria vir para casa, queria dormir.

– Porque é que não me acordas-te? Pelo menos para eu me ir embora tambem?

– Estavas a dormir tão bem, que eu… Não foi minha intenção.

– Eu sei. Mas também não vejo razão para continuarmos a andar, quando o teu desinteresse é tão obvio.

– A sério que não é como tu estás a dizer…

– Ei, continuamos a ser amigos está bem? Depois falamos, tenho mesmo que desligar.

Ele desligou e eu ainda fiquei com o auscultador nos ouvidos durante uns segundos. Senti-me desamparada. Outro sentimento que não esperava sentir. Senti um vazio a percorrer-me. Ricardo era o unico a preocupar-se comigo. Susana tambem, mas era demasiado futil para algo profundo. Senti-me sem apoio. Reparando ou não em Ricardo, ele tinha estado sempre lá nas ultimas semanas. Agora não ia estar. Senti um vazio terrivel.

Desci como um Zombie as escadas até á sala. A minha mãe tinha feito uma viagem de negócios naquele fim-de-semana. Não havia ninguem. O sentimento de solidão era avassalador. Não estava mesmo á espera que Ricardo me pudesse fazer sentir assim.

Dirigi-me á cozinha. A mãe havia deixado batido de morango para pequeno almoço. Sentei-me no balcão enchendo um copo até meio, bebendo em pequenos golinhos enquanto matraqueva as unhas no balcão. O batido sabia-me estranhamene a cartão, e parecia pouco consistente no estômago.

Olhei várias vezes para o telemóvel, que colocára em cima do balcão.

Deveria ligar a Ricardo?

Lembrei-me como na noite anterior me sentira pouco á vontade ao lado dele, e todos os beijos que lhe tinha dado sem vontade.  Valeria a pena só para continuar a ter a sua companhia?

“Não, definitivamente não” – pensei, dirigindo-me á banca despejando o que restava do batido de morango. Sabia mal.

Apertei o estômago com as mãos e bati com o telemovel no balcão, inquieta.

“Uma vez não são vezes pensei.” – já que o dia não podia ser pior, levantei o auscultador do telefone de parede da cozinha, premindo o número já memorizado da pizzaria local. Nunca me dava aquele tipo de luxos.

– Vai querer a promoção da pizza mais um gelado? – perguntou a assistente.

– Sim – respondi sem grande convicção.

Porque não? Já estava por tudo.

Uma hora mais tarde, comia a quarta fatia de pizza confortavelmente instalada no sofá da sala, vendo um programa de televisão sem o minimo interesse. Já tinha comido quase metade pizza, e meio boião de gelado de chocolate.

Enquanto lambia a colher li as calorias do gelado. Senti-me enjoada. Descartei o boião de gelado, empurrando-o para a mesa, sentindo-me horrivelmente.

Mastiguei forçosamente o resto de pizza tinha na boca. Senti o óleo gorduroso do queijo a encher-me o boca. Engoli-o sentindo um vómito de nojo, tapando rápidamente a boca com a mão.

Larguei a fatia de pizza meia comida, correndo para a casa de banho.

Já conseguira conter o vómito, mas a sensação de nojo não passava. Sentia a comida a revirar-se no estômago, estranhamente pesada e gordurosa.

Aguardei pelo vómito, com os braços encostados na parede a cabeça na direcção da sanita, mas não conseguia vomitar.

Impulsivamente, peguei na escova de dentes, e utilizando o cabo, enfiei-o até ao fundo da garganta, forçando o vómito. Uma, duas, três vezes, até sentir que todo aquele óleo e gordura me abandonavam o estômago.

Como sempre quando vomitava,estava a tremer e a suar. Sentei-me com a cabeça no meio das pernas. Podia descer mais baixo naquele dia? A sensação de nojo de mim própria podia ficar maior? Cambaleei até á sala, com verdadeira intenção de deitar o resto da pizza e do gelado fora, quando a campainha tocou.

Só podia ser engano. Talvez fosse Susana.

Era isso, devia ser Susana. Tinha vindo ver como é que eu estava, só podia ser ela.

Abri a porta, esperando ver a cara da minha amiga mas era o rapaz da turma de psicologia. Porquê que eu nunca me lembrava do nome dele? Ele já mo tinha dito?  Abri os olhos de espanto, fechando um pouco mais a porta inconscientemente, sem me lembrar sequer de o cumprimentar. Sentia-o a passar um olhar quase que a laser que me queimava cada ponto do corpo que este observava.

Reparei no meu estado. Estava de pijama, desgrenhada, sem maquilhagem, com olheiras profundas de ter estado a chorar, e a minha camisola tinha pelo menos três nódoas. E o pior de tudo, tinha provavelmete o aspecto de quem acaba de vomitar.

–Vim em má altura? – perguntou num misto de curiosidade e surpresa. E, quase que podia jurar, tentando não rir.

Como é que lhe havia de explicar que nem me lembrava da sua existência? Nunca mais me tinha passado pela cabeça que tinhamos combinado estudar, muito menos naquela tarde.

– Entra –disse-lhe. Já estava por tudo.

O olhar dele divagou para a pizza e gelado em cima da mesa, mas não fez referência a nada. A falta de comentários levou-me a pensar que ele se apercebia de mais coisas do que eu desejava.

– Se quiseres servir-te – ofereci, pegando na caixa de cartão da pizza. Olhei para o cartão molhado de gordura, respirando fundo para que o enjoo não voltasse.

-Não obrigado – respondeu energicamente. Trazia consigo o caderno e o livro de estudo, dobrados numa das mãos.

– Então dá-me só uns segundos… Eu esqueci-me que tu vinhas – admiti. – Está aqui o comando da tv. Está á vontade.

Guardei a pizza na cozinha. Talvez ele a quissesse comer mais tarde. E podia achar estranho eu deitar meia pizza ao lixo.

Subi ao andar de cima, escovei o cabelo, lavei os dentes e troquei para uma camisola lavada e perfumada. Mantive as calças de pijama, e desci devagar as escadas, sentindo-em tão mal, como se ainda invergasse a roupa suja.

Encontrei-o já sentado no sofá da sala, olhando distraidamente para a televisão, sentado com as pernas abertas.

– A noite de baile acabou mal? – perguntou-me, desviar o olhar da televisão. O seu tom de voz parecia casual, como alguém que tenta apenas fazer conversa, mas havia uma certa forma dele fazer as perguntas que me fazia querer que ele já soubesse as respostas.

Estava no entanto, fora de questão contar-lhe fosse o que fosse sobre Ricardo. Seria demasiado embaraçoso.

– Não correu muito bem – decidi-me a responder.

– Não sei se te serve de consolo, mas a minha também não foi grande coisa – olhei-o surprendida tentando relembrar-me dele na noite anterior. Não me lembrava de o ver com ninguém. Seria por isso?

– Não me serve de consolo nenhum –  gracejei. Rimo-nos.

– Bem, vou buscar os livros, tinha no meu caderno o inicio do trabalho – disse-lhe, decidida a começar. Afinal era essa a razão para ele ali estar, e eu bem presisava de subir as notas. Era também uma maneira de me distrair de Ricardo.

Sentamo-nos no chão fazendo o trabalho á volta da pequena mesa da sala. Ele parecia estranhamente á vontade, escrevendo abstraidamente, passando o dedo indicador pelo livro, parecendo totalmente concentrado. Observei-o por algum tempo, até decidir falar.

– Isto é um bocado embaraçoso para mim – disse eu por fim, interrompendo o trabalho empurrando ligeiramente o caderno. – Mas eu não sei o teu nome. Não me lembro de alguma vez mo teres dito.

– Artur – respondeu ele, rindo-se, continuando no entanto a escrever, respondendo sem levantar os olhos

-Ok – respondi, sentindo-me a corar – só por acaso tu sabes o meu?

– Sei – disse ele carregando propositadamente na palavra, num tom de gozo.

– A sério desculpa. É ridiculo eu sei.

– Deixa lá isso, agora já sabes. – sorriu-me, e eu retribuí.

– Vale a pena falar desta cena do icebergue, nesta coisa do id, e do ego? – perguntei, desviando o assunto para aquilo que estavamos a estudar.

– Sim, é a metáfora que ele usa, para facilitar a compreensão.

– Ai, tou farta de escrever sobre isto – admiti pousando o lápis.

– Não é nada de especial – disse ele apontando para uma imagem do livro – Freud acredita que as pessoas são como icebergs. Apenas sabemos delas o que está visivel. A ponta do iceberg. O inconsciente esconde-se nas profundezas, e nem a própria pessoa tem uma noção total. O ego é como uma balança, algures entre a superficie, mas um pouco emergido também. Este é o meio que ajuda a manter o consciente e o inconsciente equilibrados. O problema ocorre quando o ego não consegue manter o equilibrio entre as duas vertentes.

Tentei permanecer atenta, fixando o que ele me explicava.

– Queres que te ajude a escrever essa parte? – perguntou, passando do outro extrermo da mesa, vindo-se sentar ao meu lado.

– Não, deixa estar – empurrei-o levemente. – Eu percebi, vai fazer a tua parte.

Ele deitou-me um dos seus estranhos sorrisos, puxando pelo seu caderno, continuando a escrever.

Fiquei em silêncio, observando a imagem do iceberg, com pequenas legendas.

Perdi a noção do tempo a olhar para a imagem. Aqueles momentos raros e parados em que realmente não estamos a pensar em nada. Ou se estamos, mal damos por nós já não nos recordamos.

– Ontem a noite correu-te assim tão mal? – perguntou-me, pousando a sua mão na minha. O toque despertou-me a atenção.

– Não sei – murmurei, fitando o vazio atrapalhada.

– É que tavas mesmo com um péssimo aspecto quando eu cheguei.

Senti-me subitamnete a corar. – Desculpa é que não me lembrei que vinhas e nem banho tomei…

– Não estou a falar desse aspecto – disse ele interrompendo-me. Os seus olhos negros fixavam-me com atenção. Senti um aperto na garganta. De repente senti uma pena avassaladora de mim mesma, mas não queria mesmo chorar á frente dele, nem sequer o conhecia direito.

– É que… – comecei eu.

Ele voltou a interromper-me. – Não precisas de me contar nada se isso te faz sentir desconfortavel. Levantou-se do chão para o sofá e puxou-me para lá com ele.

– Acho que já trabalhamos um bom bocado. Tás com cara de quem presisa de uma pausa.

Cedi, afundando-me no sofá, agradecida. Já não podia mais com os livros. Fixei-o por uns momentos. O cabelo já não tinha gel como no dia anterior e caí-lhe liso ao comprimento da orelha. Brincava com o mesmo anel no polegar, e a sua expressão era séria, esperando uma reacção minha com toda a atenção.

– Porque é que ontem o baile te correu mal? – perguntei curiosa. Ele encolheu os ombros.

– Zanguei-me com uma pessoa – admitiu após uns momentos, rodando a anel do polegar. – E tu?

– Tivemos o mesmo karma – gracejei.

– Se o problema fosse só por causa de ontem á noite…

Fiquei sem perceber se falava de mim ou dele.

– Sabes, só queria conseguir dormir direito – admiti sem saber porque lhe contava aquilo. Sentia-me abatida, cansada e sem grande energia. O estômago estava dorido do vómito forçado, e os olhos ardiam-me, podia senti-los a inchar.

– Não consegues dormir direito? – perguntou, quase num tom afirmativo. Acenei com a cabeça.

– Tenho dificuldades em adormecer, mesmo com sono.

– Há algo que queiras fazer que te faça sentir melhor? –

– Quero descansar – encostei-me no sofá, fechando os olhos. Abri-os no entanto logo a seguir.

Artur agarrou-me a mão, comprimindo-a um pouco.

– Dorme se quiseres. Trabalhamos depois. Eu vou andando.

Premi a sua mão com mais força, mas apercebendo-me daquilo que estava a fazer, larguei-a.

– Anda, levo te á porta.

– Queres que fique até adormeceres? – perguntou, adivinhando a minha vontade. Senti-me tentada a aceitar. Queria recusar, mas sentia a grave necessidade de ter companhia para dormir. Abanei a cabeça.

– Não precisas de fazer isto. Podes ir embora agora, a sério, eu adormeço bem sozinha.

-Eu fico – afirmou, decidindo por mim.

Impulsivamente, pedindo por contacto fisico, abracei-o sem pensar, apoiando a cabeça no seu peito.

-Podemos só ficar assim? – perguntei-lhe.

Ele com um gesto hesitante, colocou o braço em meu redor, e passou-me a mão na cabeça, puxando-me o cabelo para trás.

– Faz com que te sintas melhor?

-Muito – respondi.

Deitada no peito dele, ficamos de frente para a televisão sem falar. Acabei por adormecer pouco depois, sentindo pela primeira vez em semanas, uma verdadeira paz interior.

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