Capitulo 3

Se eu quisesse ajuda para estudar pedia… Ok, até pode ser!

– Jéssica, fiz sumo de laranja, tens aqui o teu – a mãe pousava um copo no balcão, enquanto eu penicava umas bolachas. Era uma mulher magra e enérgica. Desde da separação com o meu pai quase nunca estava em casa. Acho que tentava manter toda a nossa condição social em horas extras no trabalho. Acho que esconde a ambição secreta de se tornar sócia da empresa, o que provavelmente nunca acontecerá.

-Não te ouvi chegar a casa ontem.

– Oh cheguei cedo. Não foi tão divertido como esperava que fosse!

Tinha saído novamente com Ricardo, mas desta vez, Susana e Daniel também tinham ido. O encontro não tinha passado de uma ida ao cinema a quatro, que acabara por ser bastante constrangedora, devido aos barulhos saliventos de Susana e Dani, e os toques constantes, carentes, que Ricardo me ia aplicando nas mãos.

Embora extremamente bem parecido com o seu cabelo loiro, e olhos cor de avelã, Ricardo tinha-me despertado o mesmo sentimento, possivel de sentir por um cão sarnento e abandonado, á procura de dono. Trocara alguns beijos sem vontade com ele, e deixara mesmo que me tocasse na barriga por debaixo da camisola. No entanto, após o fim do filme apressei-me a dar mil e uma desculpas para poder voltar para casa.

-Hum! Esse novo rapaz, Ricardo não é? Porque não vêm os dois estudar cá para casa uma tarde?

Odiava quando a minha mãe vinha com a conversa de rapazes. Normalmente não acertava em nada. Estava mortinha por coscuvilhar e me manter debaixo de olho.

– Acho que estudar não é muito a cena do Ricardo, mãe…

– Sério? Então qual é a cena dele?

Revirei-lhe os olhos. – Não é ninguem que queira trazer cá a casa, só isso.

– Oh, não vais voltar a sair com ele?

Não! – fiquei surprendida com a minha resposta. A minha mãe também.

– Bem – rectifiquei-  não vou sair com ele nos tempos mais proximos. Vêm aí os testes.

– Hum, isso lembra-me que até agora não sei as tuas notas.

“Porque fui eu lembra-la de tal coisa?” Fingi-me com a boca cheia de bolachas, bebi o sumo num trago e dirigi-me para a porta, acenando-lhe.

As minhas notas eram algo que ela não ia querer saber. Algo para eu me preocupar mais tarde.

Quando cheguei á escola já tinha tocado, e já estavam todos a ir para dentro. Procurei a Susana mas não a avistei. Remexi na minha bolsa em busca do horário. Ia ter psicologia. Susana não tinha aquela disciplina, não devia estar por ali.

Encaminhei-me sozinha para a aula. A disciplina era por opção e não conhecia muita gente daquela turma. A professora ainda não tinha chegado, mas os alunos tinham entrado para a sala vazia. Só algumas pessoas a esperavam cá fora. Decidi esperar também á beira da porta.

Sentado no chão, encostado á parede estava um dos rapazes do grupo que Susana e eu não gostavamos. Usava um gorro preto, e as calças esfarrapadas eram de ganga escura, usando-as para dentro dos ténis. Tinha uma cara magra, de traços bem definidos, rosto moreno, de olhos escuros. Olhava para o chão, brincando com um anel no dedo pulgar. Devia estar a ouvir musica, pois destinguia o fio dos auriculares a sair da suete. Levantou a cabeça e apanhou-me a observá-lo.

Odiava quando aquilo me acontecia. Continuei a olhá-lo uns segundos, tentando parecer despercebida, e desviei o olhar. A professora chegava. Era nova, cerca de 25 anos, de cabelos ondulados compridos, impecavelmente maquiada, e elegantemente vestida. O rapaz levantou um pouco os olhos em direcção á professora, mas logo de seguida desviou o olhar, levantando-se para poder entrar na sala de aula.

Entrei também e sentei-me numa mesa perto da janela. Já não me lembrava de haver uma aula que estivesse atenta. Por muito que tentasse, acabava sempre por ficar a olhar pela janela até a aula terminar.

Ouvia com desinteresse o arrastar pesado das cadeiras, e o barulho conjunto dos livros a serem pousados nas mesas. A professora já escrevia algo no quadro, preparada para dar a aula.

– Hoje vamos começar a dar Sigmund Freud – ouvi a voz clara e aguda da professora, exigindo por atenção. – Alguem sabe quem foi Freud?

Um tarado qualquer – pensei sonolenta.

– Foi o fundador da psicanálise.

Olhei para trás, procurando sem grande interesse por quem havia respodido. Tinha sido o rapaz. A professora sorria-lhe.

Muito bem Artur. E alguém sabe em que consiste a psicanálise?

O desinteresse começou a apoderar-se de mim e os olhos começavam-me a pesar. Lá fora o vento abanava os ramos das árvores, e as folhas pareciam ter vida, dançando em pequenos remoinhos, como indios a chamar a chuva.

De repente pequenos pedregulhos começavam a cair- pac, pac, pac – o granizo batia com força na janela. Perdi a noção do espaço e do tempo. A dormência apoderava-se de mim, entorpecendo-me os sentidos. Alguém ao meu lado puxou uma cadeira, assustando-me. Olhei para cima. Era ele. Quanto tempo de aula teria já passado? Que quereria ele ali de pé?

– A professora pediu para fazermos um trabalho de pares. Posso sentar-me?

– Hum, o quê? – olhei para a professora que nos observava aos dois, mas logo desviou o olhar, concentrando-se novamente nos seus apontamentos. Reparei que todos os outros alunos arrastavam também as cadeiras, movimentando-se também, afim de escolherem um parceiro de trabalho. – Sim claro, senta-te!

Olhei para o quadro. Estavam imensas coisas escritas, devia ter estado a olhar pela janela a aula toda como sempre.

O rapaz sentou-se ao meu lado, observava-me com um pequeno sorriso.

– O trabalho é sobre quê?

– Falar do id, ego e super ego.

– De quê?

– Podes sempre falar do que viste pela janela – lançava-me um olhar divertido.

– Não estive a olhar pela janela o tempo todo – tentei defender-me.

– Estiveste sim – lançou-me um olhar desafiante.

-Estiveste a observar-me?

– Bem tu também me estavas a observar no corredor.

Corei. Odiava que me envergonhassem. Decidi não responder. Esfolheei o livro, procurado pela teoria psicanalitica. Não estava a ter  grande sucesso.

– Bem, se eu estive a olhar pela janela, e se tu estiveste a olhar para mim, não vai ser grande trabalho.

-Não estive sempre a olhar para ti – o tom que utilizou pareceu demasiado seco e desinteressado, fazendo-me corar levemente.

– Então conta-me lá – pedi mudando de assunto, olhando para o caderno dele, lendo novamente a pergunta do inunciado. – O que é o id?

Paareceu-me ver um esgar de algum divertimento e impaciência, mas logo a expressão dele voltou a ficar neutra.

– O Id são os nossos instintos e desejos inconscientes. Segundo Freud, é o inicio do prazer. Algo que temos escondido dentro de nós, do qual não temos plena consciência. Os nossos desejos mais puros e primitivos estão todos escondidos, algures na nossa cabeça. É o nosso Id.

– Como podemos desejar algo, do qual não temos consciência?  perguntei duvidosa.

O rapaz sorriu-me. Queria perguntar-lhe o nome, mas queria mostrar o menos interesse possivel, face á atitude superior que este me estava a demonstrar.

– Quando dormimos a filtragem do cérebro é menor – explicou, folheando um pouco o livro, apontando-me para alguns parágrafos que falavam sobre o assunto. – E podemos ver em sonhos os nossos desejos, simbolizados, disfarçados. O nosso id tenta comunicar connosco, quais os nossos desejos mais profundos. As vezes algo que nem fazemos ideia.

– Como é que não fazemos ideia? Se somos nós proprios?

– Porque a tua moral, o teu superego, bloquieia todos os pensamentos que achas improprios, censura-os.

– Acho isso um pouco fantasioso – respondi com algum cepticismo.

– Achas? Então diz-me, com o que é que sonhaste? – perguntou, nm tom de troça.

Era obviamente uma brincadeira, mas não pude deixar de sentir uma pontada no estômago. Á semanas que só tinha pesadelos. Dormia poucas horas por dia. E quando a noite chegava não queria dormir, não queria ter que enfrentar novamente os pesadelos.

Estava a trincar o lábio. Ele olhava-me com curiosidade.

– Desculpa, disse algo que te perturbou?

– Não – respondi rapidamente, desviando o assunto. – Eu é que não tenho dormido muito bem. Insónias.

– Falei em algo que não devia?

– Não, não é nada. Vamos então começar a escrever o que disseste? É para entregar até quando?

– Para a próxima aula.

Peguei na caneta e abri o caderno. Comecei a escrever uma pequena introducção, analisando o livro.  Ele olhava-me com curiosidade.

Durante algum tempo escrevemos juntos o trabalho, ele ditava e eu escrevia. Ele nem presisava de ir ao livro, parecia já saber aquela matéria.

– A minha nota vai subir graças a ti – sorri-lhe – tens que vir fazer o trabalho comigo mais vezes.

– Este ano para ti está a ser mais complicado? – pareceu-me vê-lo a observar os meus livros e cadernos, quase intocaveis, as lombadas sem dobras. O meu caderno tinha cerca de uma ou duas folhas escritas.

-Sim, está a ser um pouco complicado.

– Hum, sempre pensei que… bem que o género de grupo com quem andas se preocupasse em entrar para as melhores universidades.

O meu género de grupo? Por favor. Mas não me apeteceu censurá-lo. Ultimamente via-os mesmo como um grupo. Um grupo do qual eu aos poucos e poucos me estava a distanciar. Já nem com a Susana me sentia á vontade como antes.

– Bem, não somos bem nós que nos preocupamos com isso. É mais uma obrigação passada pelos nossos pais. De qualquer forma, acho que não tenho a universidade nos meus planos mais proximos.

– E o que dizem os teus pais dos teus novos planos?

– Não é da tua conta.

– Ok, ok, desculpa – levantou as mãos mostrando-se rendido – Só estava a conversar.

A campainha tocou. Fechei os livros e empilhei-os, segurando-os no braço. Dirigi-me para a saida, sem me despedir dele.

Ao lado do meu cacifo encontrei Susana, a conversar com o capitão da equipa de futebol da escola, Daniel. Cumprimentei-os e dirigi-me ao meu cacifo, para poder trocar de caderno e livros, para a próxima aula.

– Jéssica, o Ricardo disse-me que estava á tua procura. Ele tentou ligar-te mas tinhas o telémovel desligado – disse Dani.

– Oh, pois foi. Hoje nem o trouxe para a escola, esqueci-me completamente.

– Ele deve querer combinar, onde é que te vai buscar. Mas também podemos encontramo-nos todos, para virmos os quatro juntos – disse Susana.

– Ir buscar-me? Irmos juntos aonde?

– Ainda estás a dormir? Ao baile de Inverno, de que é que havia de ser?

– O Baile de Inverno? Oh, nem me lembrei de nada.

– Em que mundo vives? O Ricardo já não te tinha convidado?

– Pois, realmente não!

Daniel e Susana trocaram olhares, pouco a vontade.

– Deve ser por isso que ele anda á tua procura – disfarçou Dani. Fez-se um silencio desagradável.

Decidi abrir o jogo. – sabem, a nossa saida não correu muito bem. Ainda não sei se iremos juntos ao Baile.

Susana e Daniel voltaram a trocar olhares, e depois lançaram-me ambos um sorriso que mas parecia um esgar, tal era a força muscular necessária para conseguirem sorrir.

– Bem vou andando então. – decidi fugir da mira daqueles dois. Boa, e agora passava o intervalo com quem? Susana era a relação mais proxima que tinha.

Decidi procurar por Ricardo. Dirigi-me para o exterior, analisando o pátio. Não estava muita gente cá fora, devido ao frio. Sentei-me num banco, e olhei em redor. Ricardo não estava ali. Nem ninguém que eu conhecesse.

Aproveitei o momento que estava sozinha e tirei um cigarro da carteira, aproveitando o momento privado para poder fumar sem que me censurassem. Na realidade não pretendia começar a fumar, mas ultimamente necessitava do seu efeito calmante. E não tinha grandes ocasiões para o poder fazer.

O cigarro derretia-se rapidamente nas minhas mãos. Chegou rapidamente ao fim. Acendi outro.

Levantei a cabeça e olhei em volta. O rapaz observava-me, a um canto do pátio. Encontrava-se com o seu grupo de amigos a fumar num canto mais recatado. A professora tinha dito o nome dele, mas eu já não me lembrava.

Senti-me pouco a vontade de ele estar a olhar para mim. Decidi encarar o olhar, e levantei-me, mostrando-me desagradada. Já tinha fumado o segundo cigarro. Atirei-o para o chão e procurei um pacote de pastilhas na carteira. Ricardo já me tinha encontrado e vinha na minha direcção. Deu-me um beijo na testa. Olhei novamente para o rapaz no canto. Ele ainda estava a olhar, mas desviou imediatamente, conversando com os colegas.

Ricardo seguiu o meu olhar, observando por breves segundos o grupo.

– Estavam a dizer-te alguma coisa?

– O quê? Ah não, não estavam.

– Encontrei agora a Susana e o Dani. Achei estranho não estares com eles.

– Queria deixa-los sozinhos – menti.

– Jéssica, eu ia convidar-te para o baile. Só não te cconvidei naquela noite, porque tinha a sensação que me ias dizer que não, e decidi esperar.

– Eles contaram-te a coversa de á bocado?

– Contaram.

–  Não tens que me convidar por causa do que eles disseram.

– Não te estou a convidar por causa deles. Eu quero ir contigo. Tu queres?

– Quero.

– Tambem não tens que dizer que sim por causa deles.

Sorri-lhe. – Claro que não.

– Anda, vamos para dentro – cingiu-me pela cintura – Está frio.

Deixei-o a abraçar-me, caminhando para dentro. Deitei uma ultima olhadela ao grupo do canto, mas o rapaz já não estava lá.

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