Capitulo 2

Há vários tipos de silêncio… Até quando as pessoas falam!

Era sexta á noite e Ricardo e eu tinhamos apanhado um táxi, para irmos a um pub próximo da zona industrial.

O pub era um local escuro, cheio de fumo, com puffs em vez de cadeiras.

Ricardo escolhera uma mesa recatada, com um puff que dava para nos afundar-mos os dois. Eu bebericava uma vodka de morango, mordiscando a palhinha enquanto Ricardo contava algo acerca do pai.

– Percebes? Ele acha que eu tenho que trabalhar na empresa dele. E se eu não tiver jeito para aquilo? Quer dizer, nem me dá hipoteses para escolher a minha vida.

Acenei-lhe em silêncio, num sinal afirmativo. – Pois estou a ver – respondi, maquinalmente.

“ Onde é que eu estava com a cabeça para ter aceitado vir? Não, não penses assim. Afinal estavas a gostar dele. Se gostavas dele, agora tambem gostas. Nada tem que mudar.” – fiz força na palha dobrando-a vezes sem conta. Não conseguia estar atenta á conversa de Ricardo, mas também nao queria estar atenta aos meus próprios pensamentos.

Puxei dum cigarro e acendio. A atitude pareceu desagradar-lhe.

– Não sabia que fumavas – olhava para mim avaliativo. Realmente eu não fumava.

– Faz-me sentir melhor, só isso.

– Sou assim um encontro tão mau?

– Não! – esmaguei o cigarro no cinzeiro com alguma pena. – Claro que não.

Ricardo pegou-me na mão e aproximou-se. – Que se passa contigo afinal? Está tudo bem?

– Claro – sorri. – estou a divertir-me, a sério!

Riu-se. – Só é pena que não pareça.

– Não, estou a falar a serio. Gostei de estar contigo. De todas as vezes que estivemos juntos. Hoje estou num dia não. Talvez não devesse ter vindo.

Ricardo fixou-me por uns instantes, puxando-me uma das mãos. Parecia pensativo. É tão bem parecido com o seu cabelo castanho claro, e uma expressão séria, que realçava os musculos tensos da face.

– Vamos para casa então. Voltamos a sair um dia que tu realmente queiras.

Sorri-lhe agradecida.

Imaginava uma reacção diferente, tipo fazer-me jogar setas, ou levar-me para dançar, ou até mesmo uma investida. Mas parecia realmente entender que a minha vontade não era estar ali.

– A sério? – perguntei sem pensar. Ele riu-se, levantou-se para ir até á caixa pagar as bebidas.

Senti pela primeira vez naquela noite uma vontade verdadeira de estar com ele. Esperei junto á porta, do lado de fora do pub, enquanto aguardava que ele fizesse o pagamento.

O chão era brilhante devido ao gelo, mas não havia vento. O ar era demasiado frio, mas fez-me sentir reconfortada, mais disperta talvez. Ouvi Ricardo a aproximar-se, fechando a porta do bar atrás de si. Preparava-se para fazer sinal a um dos táxis de serviço quando eu o chamei.

– E se fossemos a pé? Um pouco de exercicio para descontrair?

Parecia surpreendido com a pergunta. Provavelmente a pensar se eu não teria pirado de vez. As temperaturas eram negativas e estavamos longe de casa. Mais uma vez esperei que ele me chamasse á razão, mas voltei a enganar-me. Ricardo sorriu-me, e deu-me a mão.

–  Vamos então.

Os tacões ecoavam pela rua deserta. Caminhavamos num silêncio acolhedor. Estava realmente a apreciar aquele passeio silencioso. A sua mão quente transmitia-me segurança, sensação pela qual alvejava.

– Jéssica, ficavas chateada se te fizesse uma pergunta?

– Mais uma?

– A sério. Tenho reparado que desde da sessão de modelo que não tens sido a mesma. Aconteceu alguma coisa?

Um peso contraiu-me o estômago. Não queria falar daquilo. Fechei os olhos com força para evitar pensar naquilo.

– Simplesmente não fui aceite.

Ricardo pareceu surpreendido.

Mas já tinhas sido aceite certo? Era a tua primeira sessão de fotos. Ias sair num calendário. Mudaram assim de opinião?

– Bem sim. A sessão correu mal. Foram nervos.

– Bem, podes sempre voltar a tentar, não é?

– O quê? Hum bem, acho que não. Não estou muito para aí virada.

– Tenho a certeza que numa proxi…

Interrompi-o. – Ricardo realmente não quero falar no assunto.

Pareceu-me pouco a vontade. Não tinha esperado uma reacção tão fria da minha parte.

 – O que eu queria dizer é que, podes falar comigo, se quiseres.

– Vamos apanhar um taxi? Afinal está demasiado frio para fazer o resto a pé.

Apanhamos um táxi, e o resto do caminho fomos em silencio. Dessa vez porém, não fora um silêncio ocolhedor acolhedor. Queria ficar sozinha.

Mais tarde na cama sentia-me zangada. Porque é que ele tinha que ter tocado naquele assunto? Após semanas voltara-me a sentir bem, ainda sentia na mão, a segurança e calor que ele me transmitia. Ele tinha estragado tudo.

Talvez estivesse a ser injusta. Eu é que tinha estragado tudo. Ele não tinha maneira de saber quão penoso aquele assunto era para mim. Ninguem sabia. Eu é que tinha estragado tudo.

Não reparara no percurso feito pelo táxi, nem me lembrava sequer se me havia despedido de Ricardo.

Chegando a casa, encaminhei-me até á janela do meu quarto e fumei o tão apetecido cigarro..

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