Capitulo 1

É difícil comportarmo-nos quando estamos confusos

A minha cabeça pesava sobre as almofadas. O cabelo pestilento, a cheirar a tabaco entrava-me na boca. Tossi, respirei fundo e fui abrir a janela. O frio da escuridão envolveu-me e confortou-me. Fazia meses que não dormia uma noite inteira seguida.

Lá fora a noite era fria. Tão fria que o tempo parecia-me congelado tambem. Nada se movia. Apenas sombras e silencio. A névoa pairava sobre as luzes brancas já foscas dos candeeiros dos jardins privados. Cada casa ali era perfeita, com os seus relvados aparados, os alpendres convidativos e as cercas pintadas de branco. A casa perfeita dos subúrbios.

Ali cada família tem o dever de ser perfeita. Todas as crianças são bonitas, todos os adultos fazem jogging enquanto passeiam o cão, e os vizinhos entre si organizam festas e churrascos.

Mas áquela hora da noite a rua parece-me uma outra qualquer. E identifico-me mais.

Eu e a minha mãe vivemos sozinhas á cerca de dois anos, depois da crise de meia idade do meu pai ter dado cabo do casamento e dos negócios, já mal o via. Mudara-se para outra cidade para refazer a vida toda de inicio agora que os papeis do divorcio já haviam saído.

A minha mãe em ascenção numa empresa de contabilidade também mal punha os pés em casa. Tenho a certeza que pensa que tudo está bem comigo. Afinal sou a filha perfeita, aspirante a modelo com o curso universitário á porta.

Olhei para o relógio, eram 5:24. Daí a pouco mais de uma hora tinha que me levantar para ir para a escola. Estava no último ano do secundário.

“Quando ela vir as minhas notas” – pensei. Mas já não tinha cabeça para nada, nem para aquele ano, nem para os que viessem. Não me conseguia concentrar. As disciplinas pareciam muito mais dificeis e inúteis.

Já não valia a pena tentar dormir. Peguei no meu estojo de higiene e dirigi-me para a casa de banho. Tinha adquirido um vicio aos banhos. De alguma forma faziam-me sentir purificada, limpa, nova. A água leva tudo a desaparecer. Quase tudo…

Passei a escova pelo meu cabelo loiro até não sobrar um único cabelo em desalinho. Pus três gotas de perfume no pulso. Sempre três. Os mesmos gestos todos os dias. A rotina já fazia aquilo por mim. Eu já não quereria saber. Mas algo levava-me a permanecer normal. Estava tudo igual e controlado. Três gotas de perfume, lavar os dentes, pôr os brincos, maquilhar-me. Dia após dia. Já nem pensava naquilo antes do fazer. E assim estava distraia. Estava tudo sobre controlo.

***

– Jéssica, estás aí, desculpa ter-te feito esperar. – Susana vinha na minha direcção em passos curtos, para se equilibrar nos tacões. O cabelo de um castanho avermelhado, era curto, com uma grande franja. Tinha olhos obliquos e castanhos, e um sorriso de modelo perfeito. Eramos sem duvida o centro das atenções daquela escola.

– Não tem mal – forcei um pequeno sorriso, balançando a carteira de trás para a frente.

– Já está tudo organizado para o baile de Inverno, acabo de vir da associação. A sério falta menos de uma semana e não estava nada feito… Ainda tenho que gerir a parte dos donativos, para caridade.  – Susana falava num entusiasmo contagiante, olhando constantemente para todos os lados meia histérica. Comportava-se sempre assim, quando se aproximava uma festa.

Percorremos juntas o corredor da escola, ladeado por cacifos e alunos curiosos, que viravam sempre o olhar ao som dos nossos tacões. Susana e eu sempre foramos populares, mas devido a sermos finalistas de secundário, atingiramos o auge naquele ano. Todos os alunos da escola procuravam desesperadamente pela nossa companhia, mas tanto eu como Susana nao mostravamos entusiasmo a tal facto.

– Já escolheste a roupa que vais usar  no baile?

– Não – respondi secamente.

– Que se passa contigo ultimamente? – perguntou Susana com alguma rispidez. Olhei para ela, procurando contar-lhe o pesadelo que tivera naquela noite. Mas Susana já não estava a dar-me atenção. Procurava desenfreadamente por alguém, no meio do magote de alunos que passava.

–  Nada, tenho dormido mal… é só isso. Vou andando para a aula, ainda tenho que dar uma olhadela ao trabalho de casa – disse num tom baixo, talvez para não lhe captar a atenção.

– Deixa, vou contigo – respondeu-me, desistindo do que procurava e centrando novamente total atenção em mim. – Como foram as coisas ontem com Ricardo?

– Com o Ricardo? – forcei a mente já cansanda a recordar o dia anterior. – Ah não, acabamos por não ir a lado nenhum. Preferi ficar em casa.

Susana deitou-me um olhar rispido. – Pensei que gostavas de sair com ele…

– E gosto – encolhi os ombros.

-Óptimo. Aproveita então, ele vem aí.

Desviei o olhar vendo Ricardo a vir no nossa direcção, também ele abstraído do barulho dos corredores e a algumas pessoas que o chamavam.

– Olá meninas – cumprimentou afávelmente, apoiando-se com um braço nos cacifos, segurando na outra mão um caderno enrolado.

– Ricardo – avaliei-o de cabeça aos pés, baixando depois o olhar – Olá.

– Hoje vêm ver os treinos de futebol?

– Não, hoje não vamos perder tempo com vocês – atirou Susana, dando-lhe uma pequena cotovelada.

Susana namorava á um par de semanas com o capitão da equipa de futebol da escola, Daniel. Abri um meio sorriso a Ricardo, concluindo que Susana e Dani devessem estar novamente zangados, apesar do pouco tempo que estavam juntos.

– Vá lá, depois não se queixem se vos chamarem antipáticas – replicou Ricardo.

– Antipáticas?  Desde quando precisamos da opinião de seja quem for? – perguntou Susana de soslaio- Vens ter connosco á mesma por muito antipáticas que sejamos.

– Achas? Então se calhar não estás interessada em ouvir a novidade.

– Que novidade? – perguntou Susana, na sua curiosidade agitada.

– O Dani conseguiu pôr os pais fora de casa no dia do baile. Depois de virmos aqui, a festa continua..

– Oh, a sério? Não me acredito!- Susana dava pequenos pulos, entusiasmada.

–  Que achas Jéssica? – Ricardo olhava para mim esperando reacção.

– Ah? Claro, é óptimo – adiantei, tentando mostrar interesse que não sentia. O que se passava comigo? Nem a ideia de uma festa de arromba me animava.

– Oh pois vai! A festa do ano! Vamos parecer mesmo socialites. Bem já somos um bocadinho. – disse Susana aos risinhos, divagando mais com Ricardo.

Tentei prestar atenção. Ricardo, com os seus polos Ralph Lauren, calças de marca, telemoveis de ultima geração, e com o seu cabelo sempre prefeito.

Tinhamos saído duas ou três vezes e sentira-me encantada com ele, com o seu sorriso, com o seu perfume. Mas as coisas tinham mudado.

Abanei a cabeça. “Pára de pensar assim! Se dantes estavas atraída por ele, agora também estás.”

Abri um sorriso. – Dani não tem medo que lhe partam a casa?

– Acho que ele não pensa nisso – gracejou Ricardo, passando as mãos nos cabelos. – Mas também não vai muita gente.

– Sim, se pudessem ir todos, mais valia ficar pela escola – argumentou Susana, num tom superior.

– Bem, tenho que ir para as aulas. Logo sempre vêm ver o treino? – deitou-me um olhar avaliativo. Olhei-o com atenção. Andavamos a sair juntos á já algumas semanas, e divertira-me sempre na companhia dele.

No último encontro tinhamos trocado beijos curtos e apreensivos depois deste me levar a casa. Não era de admirar que ele me achasse estranha, pois não lhe dissera mais nada desde aí. Acabava de perceber que talvez a festa fosse a derradeira tentativa para me chamar a atenção. E como eu gostava que estivesse a resultar.

– Acho que logo não vai dar. Muitos trabalhos de casa… – argumentei, forçando um tom desapontado.

– Bom, talvez possamos dar uma volta depois.

Acenei afirmativamente.

-Até logo – despediu-se de nós duas num sorriso e afastou-se, um pouco mais alto pelo meio dos outros alunos.

– Já viste? Se soubesse que a seguir iamos para casa de Dani, não tinha tido tanto trabalho na associação para organizar o raio do baile. Iamos desde logo para lá, pelo menos lá não temos os professores atrás de nós e… – interrompeu-se – Vá lá Jessica que se passa contigo?

– Ah hum, nada. Não dormi bem. Só isso. Estou optima!

– Pois foi, tu a bocado ias-me contar alguma coisa. – Algo em como Susana disse a frase, soava a interesse secundário.

– Não é nada, a sério. Uma festa com a casa só para nós, muito bom mesmo.

A campainha tocou. Vários alunos dirigiam-se sem pressa para os corredores. Um grupo de rapazes que conheciamos apenas de vista, passou por nós olhando-nos de soslaio.

– Se não morassemos numa cidade pequena, não tinhamos que levar com este tipo de gente – disse Susana, talvez pela milionésima vez, deitando inconscientemente a mão aos brincos da Tiffany. –devia haver uma escola, só para eles. Também que estão cá a fazer? Não vão muito longe.

Susana odiava gente que demonstrasse ter menos dinheiro do que ela própria, ou gente que demonstrasse algum tipo de estilo mais alternativo.

– Um deles é da minha turma de psicologia –  referi, analisando o grupo, reconhecendo um dos rapazes que olhava para mim.

– Bem deve ter apanhado uma moca brutal antes das inscrições. Ninguem daquela gente se safa a psicologia ou filosofias. Eu pessoalmente odeio.

Sorri, analisando a hipótese de Susana se sentir insultada por alguém que ela considerava de segunda categoria poder ter mais inteligência que ela.

-Vamos para dentro, antes que cheguemos atrasadas –  disse-lhe.- Qual era mesmo a obra para trazer hoje a português?

– A Aparição. Vamos chegar ao capitulo em que a Sofia se suicida..

– Que animador! – E encaminhamo-nos para a aula.

***

Ao fim da tarde encaminhava-me para casa. Fazia o caminho observando a gravilha congelada e escorregadia Era o mês  de Janeiro mais frio e seco do qual tinha memória Porque raio usava tacões quando o chão estava assim?

– Jéssica? – Ricardo aproximou-se correndo. Ainda bem que te apanhei. É difícil apanhar-te sozinha, quer dizer… – conteve-se no que ia a dizer – Posso acompanhar-te a casa?

– Hum Ricardo, não ias ter treino de futebol?

– Foi cancelado por causa do frio. O relvado estava congelado. – encolheu os ombros. – Estava a ver que já não te apanhava.

– Não presisas de me levar a casa com este frio. é correr cada um para a sua – gracejei.

– Bem só pensei que, talvez quissesses companhia. Tenho reparado que, bem, talvez quissesses companhia, só isso. – parecia embaraçado.

Ele tinha reparado em algo diferente. Susana que estava comigo todos os dias não tinha reparado em nada. Será que ele tinha? Ou era mais uma desculpa para ver se se aproximava de mim?

– Estou diferente? –  Fiz-me desentendida.

– Hum, sim. Quer dizer, pensei que tinhas gostado de sair comigo.

Oh sim, claro que ele reparara em algo diferente. Que génio era presiso ser-se. Eu saía com ele e agora já não. Alguém se importava realmente em olhar para mim e reparar que talvez toda a minha personalidade tivesse mudado duma semana para a outra? Bem dizem que a personalidade não pode mudar, mas então porque é que me sentia outra pessoa? Alguém diferente?

– Eu gostei de sair contigo Ricardo. A sério. Só que agora só temos testes e trabalhos. Não deu para sair mais. E este frio. Dá-me preguiça. Só isso.

Ricardo puxou-me por um braço para ele, deixando-nos frente a frente.

– Eu queria ter a certeza que gostaste mesmo. – parecia perto de me beijar, ou assim me pareceu, porque depois voltou a recuar e disse – Quando saimos novamente então? Esta sexta?

“Não, não quero sair contigo. Não me apetece, não tenho vontade.”

– Claro que sim – disse sorrindo. Depois combinamos.

– Ok então, está combinado. Bem vou virar aqui. A tua casa já é ali á frente. – e despediu-se dando-me um beijo na cara.

Impávida, estaquei imóvel, observando Ricardo a afastar-se. Voltei a dar uma olhadela ao chão, procurando as partes menos escorregadias.

“Brutal, mesmo quando acho que me esquivei, aparece um encontro do nada” – pensei. Após uns segundos, fixando tudo á volta, sem pensar absolutamente em nada, dirigi-me para casa antes que surgissem mais surpresas, pelo caminho.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s