Capitulo 9

Afinal há coisas que se aprendem na escola, que servem para alguma coisa…

Eram cerca das 6:30 da madrugada, quando o despertador do meu telemovel tocou. Apertei Artur contra mim, bastante consciente da presença dele ali no meu quarto. Tinha de o tirar rapidamente de casa, antes que a minha mãe acordasse.

Levei-o até á cozinha, atenta a todos os barulhos que pudessem vir do quarto minha mãe, mas tudo etava tranquilo. Esta ainda se encontrava a dormir.

Entramos na cozinha estremunhados. Havíamos dormido apenas um par de horas.

– Estou sempre á espera de ver a tua mãe a entrar pela cozinha – disse-me.

-Ela ainda está a dormir – adverti. Peguei num filtro, colocando-o na máquina de café e encetei um pacote de leite que coloquei em cima da bancada.

A máquina de café logo se fez ouvir, espirrando ruidosamente, aromatizando a cozinha com um odor a café fresco. De dentro de um armário retirei duas canecas que pousei no balcão, e retirei a cafeteira da máquina.

Fazia aquilo quase divertida, esquecendo-me por momentos da presença de Artur. Á quantos dias não acordava eu tão bem disposta?

Entreguei-lhe uma caneca de café particularmente cheia, e servi uma para mim. Apercebi-me tarde demais que a minha dizia em letras garrafais “I am a princess”. Tapei imediatamente com a mão, e dei um gole escondendo a cara, por detras da caneca.

O sabor forte do café fez-me sentir um pouco enjoada por isso dirigi-me á banca, despejando o resto, lavando com uma esponja a minha caneca.

Artut saiu detrás do balcão, abraçando-me pelas costas, afastando-me o cabelo para trás cm uma das mãos e beijando-me o pescoço. Fechei os olhos, concentrando-me na sensação, nas pontadas de prazer que sentia coluna abaixo.

Empurrei-o suavemente, virando-me ao seu encontro. – Vemo-nos na escola?

Ele acenou afirmativamente com a cabeça, fixando o olhar, roçando os lábios nos meus. Senti o estômago a contrair-se. Ele era tão bonito. Antes que o pudesse beijar, ouvimos um barulho vindo das escadas.

– Vai – disse, empurrando-o para a porta das traseiras que dava acesso ao jardim. Tranquei a porta mal ele saiu, e corri para a banca arrumando os vestigios do pequeno almoço a dois. Enxaguei a ceneca dele e estava a meter dois pratos na máquina de lavar quando a minha mãe entrou na cozinha.

– Levantaste-te cedo – comentou surpreendida. Vinha enrolada num robe cinzento.

– Dormi bem esta noite – menti. Não era uma mentira inteligente da minha parte. Podia sentir os olhos inchados, e sabia que a maquiagem estava borratada. Não tinha lavado a cara antes de dormir, nem me lembrara de tal coisa.

E para meu horror, notei pela primeira vez que estava com as roupas de ter saído á noite. A minha mãe, no entanto, não fez qualquer reparo, embora os lábios parecessem um pouco mais reprimidos. Pegou na cafeteira que ainda estava em cima do balcão e serviu-se de um pouco de café.

– Então, quando trazes o Ricardo cá a casa para estudarem juntos? – perguntou abruptamente.

– O Ricardo? – perguntei confusa. Passava a mão no pescoço, tendo ainda a sensação dormente dos beijos de Artur, quando a minha mãe fez a pergunta.

– Sim, tinhas dito que ele era capaz de passar por cá para te ajudar em matemática. Pensei que podia conhecê-lo.

Por que raio queria a minha mãe conhecer Ricardo? De que desconfiaria ela? No entanto com a cara borratada de maquilhagem e as roupas do dia anterior ainda vestidas decidi que não era altura certa para a questionar.

– Vou perguntar-lhe hoje quando o vir na escola – respondi inocentemente. – Bem vou-me arranjar – disse tentando sair o mais rapidamente  possivel da cozinha.

– Ao ver-te assim ás 7 horas da manhã, podia jurar que já estivesses arranjada – comentou friamente. Parei rigida, á porta da cozinha, voltando-me rapidamente num meio sorriso.

– Ontem adormeci vestida a ver televisão. Mas pelo menos dormi bem – voltei a inventar. Vi um pouco de cepticismo no olhar da minha mãe, mas nao teceu mais comentários. Aproveitei a deixa para fugir da cozinha, subindo escada acima.

Entrei no meu quarto. A cama estava feita, mas amassada, de termos dormido por cima das cobertas. Estendi-me ao comprido de barriga para baixo inspirando profundamente. O cheiro dele ainda estava ali.

Como seria bom, dormir toda a manhã com o nariz enterrado naquela almofada.

No entanto Artur tinha dito que nos veriamos na escola. Alegre com esse pensamento levantei-me logo a seguir energéticamente, e pela primeira vez em semanas, fui-me arranjar, não por rotina, mas por simples gosto.

 

***

 

Quando cheguei á escola faltava ainda alguns minutos para tocar.

Pela primeira vez em semanas o sol brilhava, embora o ar ainda fosse gélido. Aproveitando o dia de sol, levava umas calças de ganga coçadas com alguns rasgões e uns ténis brancos velhos que encontrara no fundo do armário. Naquele dia não ia haver dores nos pés por causa dos tacões.

Levava um gorro e um cachecol de lã cor de rosa por cima de um parka branco. Tinha apenas colocado um pouco de máscara nos olhos, e um brilho nos lábios. Não me lembrava de nenhum dia em que tivesse demorado dez minutos para me arranjar. Sentia-me leve e bem disposta apesar das poucas horas dormidas. A aula a seguir era psicologia, o que só aumentava o meu grau de boa disposição.

Entrei no corredor que levava ao meu cacifo. Estava quase vazio. A maioria dos alunos ainda não tinha chegado, e os que tinham encontravam-se lá fora a aproveitar o sol.

Será que Artur já tinha chegado á escola? Tivera tempo de ir a casa e voltar? Retirando os livros do meu cacifo, dirigi-me lentamente para a aula no andar superior. Não havia ainda alunos por ali. Faltavam cerca de dez minutos para o primeiro toque da manhã. Aproximei-me da sala onde ia ter aulas e encostei-me perto da porta á espera.

Reparei no entanto que a porta de sala se encontrava já entreaberta. Estava a pensar em entrar para poder pousar os livros na carteira quando ouvi vozes. Parecia estar alguém a discutir dentro da sala de aula.

Já me ia a afastar, não querendo ser apanhada como a intrometer-me na vida alheia, quando ouvi algo que me fez estacar. Podia destinguir perfeitamente a voz de Artur de dentro da sala. Não havia lugar para enganos. Tinha ouvido a voz dele a noite toda, estava certa que era a dele. Mas de quem era a outra voz?

Aproximei-me um pouco, estacando á ombreira da porta, escutando atentamente.

– Ontem podias ter pelo menos atendido – dizia uma voz. Reconheci após alguns segundos de concentração. Era a professora de psicologia. A sensação foi similar a receber um pequeno soco no estômago. Com o ventre a contrair-se esforcei-me ao máximo para escutar.

– Não podes mudar de ideias todos os dias – dizia a voz de Artur.

Abria-a os olhos o mais possivel como se pudesse ouvir por eles, sentindo um pequeno aperto no peito, reparando que estava a suster a respiração. Libertei o ar que me apertava os pulmões, voltando a dar toda a atenção á conversa.

– Não tem nada haver com mudar de ideias. Tu sabes que a situação é complicada, que tenho que ser discreta. Se faço é porque tem que ser.

Silêncio. – Eu sei que estiveste com ela ontem. Vejo no teu comportamento – continuou a voz.

– Tu podes viver como queres e eu não? – ouvi Artur responder.

– Não tem a ver com viver como quero – respondeu a voz exasperada. – Eu tenho aparências a manter. Eventos onde ir.. Mas não vamos falar disso aqui na escola…

A campainha tocou. Ainda estática á porta, ouvi movimentos dentro da sala. Podia ouvir uma pequena multidão de alunos subindo as escadas para o andar de cima.

Com a sensação de enferrujamento nas pernas fugi para uma casa de banho ali perto.

Olhei-me ao espelho. Estava completamente descontrolada. As minhas mãos tremiam de nervossismo, a cara estava pálida, e respirava ruidosamente, sentindo que todo o oxigénio do quarto não era suficiente para um unico folego.

– Calma, calma, calma – balbuciei a mim mesma, agarrada ás torneiras do lavatório. Nem sabia porque estava a reagir assim. Ainda nem tinha tido tempo para processar o que tinha ouvido. Sentia a cabeça num turbilhão de ideias. Havia tantos pensamentos a querer emergir ao mesmo tempo, que acabava por não pensar em nada. Sentia apenas um formigueiro latente por todo o corpo.

Tanto tempo com tudo sôb controle. Durante tantos dias mantivera tudo controlado. Parecia que no momento em que decidira baixar as minhas defesas, tudo saíra em catapulta. Mas eu sabia como me controlar. Tinha semanas de prática afinal.

Controlar, ter controlo, era o segredo para tudo.

Primeiro respirar. Inspirei e expirei fundo várias vezes, abri a torneira, sorvendo água, bochecando-a e cuspindo-a, como se limpasse algo pútrido vindo de dentro.

O que não daria por um banho quente naquele momento, mas aquilo era tudo o que tinha.

A respiração voltára ao normal. Tudo bem, passo seguinte, desfragmentar todas as ideias que ocorriam sobrepostas na minha mente.

O que tinha ouvido eu de especial afinal? Embora tivesse passado apenas alguns minutos, fiz um esforço atroz para me relembrar do que ouvira. O cérebro parecia preso, numa derradeira tentativa de me mantêr afastada de mais problemas.

Artur e a professora tratavam-se por tu. Ela falara algo de manter as aparências e… poderia ser? Tinha dito que sabia com quem Artur tinha estado durante a noite. Saberia mesmo? O que é que ele lhe contára?

Procurei na bolsa, remexendo tudo. Sabia que tinha alguns comigo. No inicio tinha tomado alguns. Ultimamente não voltara a presisar. Até já me tinha esquecido deles, mas sabia que tinham ficado presisamente na mala.

Encontrei por fim, uma embalagem amarrotada de Valium. Retirei um comprimido, ainda com as mãos tremer um pouco, e empurrei-o com alguma água da torneira. De cabeça para baixo esperei que surgisse o efeito.

Artur andaria mesmo com ela? Seria uma partida do meu cérebro? Parecia tão irreal… Veio-me é memória uma imagem mental da professora. O cabelo ondulado comprido, caía em cascata até ao fundo das costas. A pele morena e lisa, sem um unico contorno, sem uma unica imperfeição, brilhante e saudavel.

O nariz arrebitado, os lábios finos e elegantes. Toda ela inspirava elegancia, no seu porte, no seu andar, nos mais infimos gestos.

Eu e Susana eramos de longe as jovens mais bem vestidas da escola, talvez até da cidade. Mas não havia maneira possivel de fazer uma comparação á elegância matura e natural da professora. Custava a acreditar que pudesse andar com um aluno. Andaria mesmo? Com Artur?  E eu? Seria eu apenas uma substituta? Teria estado comigo naqueles dias apenas para esquecer os problemas dele? Para andar entertido?

Senti os primeiros sintomas do comprimido a fazerem efeito. Saí da casa de banho, com o gorro cor-de-rosa numa mão e os livros no outro braço, dirigindo-me para a aula, numa sonolência pesada, mas ao mesmo tempo com a cabeça nas nuvens.

Os pensamentos surgiam calmos e organizados, e podia ignorá-los se quissesse fixando o vazio.

Bati á porta da sala pedindo desculpa pelo atraso. Não olhei para ela, nem olhei para Artur. Dirigi-me de olhos baixos para uma carteira no fundo da sala.

Olhei finalmente para o quadro e para ela. Mais bonita do que me lembrava, brincando com uma caneta nas mãos. Não olhava para mim.

Senti uma fraca pontada no estomago. Teria sido forte, não fosse o comprimido.

Sentia-me agora vagamente inferior com os ténis e as calças rasgadas. Passei a mão penteando um pouco o cabelo, eriçado por causa do gorro. Pela primeira vez tomei atenção á aula. Não queria que me escapasse nenhum promenor.

– Como alunos de secundário, esta matéria não será ainda relevante, mas para os que ingressarem por um curso universitário nesta área serão com certeza confrontados várias vezes com esta matéria. Acho importante falar um pouco neste tema, porque pode ser util na adolescencia.. – rematava a professora. Reparei que não olhava para Artur. Este estava dois lugares á minha frente numa fila á minha direita.

– A máscara, vem da palavra latina “masca” que significa fantasma. Alguém quer tentar fazer a associação? O que significa para vocês a palavra máscara?

– É uma fantasia – respondeu alguém. – Um disfarce.

A professora abanou um pouca a cabeça, num gesto de indesição. – Sim e não – disse- Pode não ser um disfarce. Na antiga grécia por exemplo, a máscara era usada nos teatros para fazer realçar a personalidade de cada personagem. Os actores dispunham de diferentes máscaras, para que o publico pudesse compreender melhor a peça. Portanto aqui a função não seria esconder e sim tornar obvio. O que nos leva outra vez á pergunta, porque deriva então esta palavra de fantasma?

– Pode realçar ou esconder aquilo que nos é intimo. – Fora Artur a responder. A professora olhou durante os segundos para ele, mas de seguida desviou o olhar.

– Sim podemos ter esse pensamento em conta – continuou – A máscara pode ser usada sem que haja qualquer disfarce. O truque de ludibriar o que nos vai no espirito vai sendo melhorado á medida que crescemos e desenvolvemos. Quem sabe por exemplo o que significa o termo americano “ Poker face”?

Ninguém respondeu. – Jéssica já ouviste esta expressão?

Dei um pequeno salto na cadeira ao ouvir o meu nome. O formigueiro de nervos havia sido substituido por uma dormência subita nos membros inferiores. Sentia os olhos semicerrados, e a cabeça com um processador dez vezes abaixo que o normal.

– É uma música da Lady Gaga? – disse em voz alta o primeiro pensamento que me ocorreu. Todos se riram, mas a professora não.

– Também é – concordou ela – Mas qual é o significado dessa expressão?

Apetecia-me responder: “É o que tenho feito todas estas semanas”, mas respondi apenas: – Não sei!

Franzindo um pouco o nariz a professora continuou – O termo apareceu devido á falta de emoções presentes na cara dos profissionais de Poker durante as partidas. Para ser um bom profissional neste campo não lhes compete apenas saber jogar, mas também ludibriar todos os outros, acerca das verdadeiras emoções. Neste caso é mais um entorpecimento treinado, sendo que, não pretendem transmitir qualquer emoção. Mas os actores de televisão por exemplo conseguem transmitir-nos emoções muitas vezes pesadas que são completamente artificiais. Nem de longe é presiso hoje em dia, máscaras como as que os gregos usavam nos teatros, para perceber-mos um filme. Portanto é uma aquisição que muitos vão desenvolvendo, uns melhores que outros, durante séculos. Tal como tudo, podemos usar esta técnica com beneficios ou com maleficios. Ela dá no entanto muito jeito para entrevistas de trabalho por exemplo, entre outras coisas. Todos nós o acabamos por fazer. Aliás, um exemplo simples pode ser maquilhagem nas mulheres. Não passa de  uma máscara, uma barreira imposta que protege um pouco mais o intimo de cada uma, pode mascarar uma confiança que na realidade não está lá. E começa a ser obrigatoria em vários trabalhos também.

O tema continuou. Discutiam agora o mundo actual e a obrigação de todos usarem uma máscara e de ser impossivel viver se todos fossem sinceros, a trabalhar por exemplo na area de direito, ou como vendedor.

Alguém dava o exemplo de não se poder ser antipático para uma  hipotética tia que ainda nos aperta as bochechas quando já somos grandes, mas que contudo ainda tem permissão para o fazer porque a seguir a meia duzia de risos falsos, deposita uma nota nas mãos.

Os beneficios e os maleficios de esconder as emoções. Tudo aquilo parecia tão feio… No entanto, no momento a seguir senti-me completamente hipócrita. Não era isso que tinha vindo a fazer? E porque não continuar? Queria mesmo desafiar Artur para a conversa que tinha ouvido? Queria mais problemas somados ao remoinho que já era a minha cabeça? Valeria mais a pena afastar-me de tudo e agir como se nada tivesse acontecido?

Sorumbática, com os efeitos do Valium, perdi o interesse á aula, concentrando-me apenas no vazio, fixando o nada. Não olhei para Artur, não olhei para ela, e sobretudo não procurei por indicios de alguma relação entre os dois. Ali na aula, mais do que em qualquer sitio, parecia tudo mentira. Seria aquela a mesma manhã em que ele me beijara o pescoço enquanto eu lavava a loiça na banca? Seria possivel? Teria saltado para um universo paralelo?

Quando a campainha tocou saí disparada da sala sem olhar para trás. Pelo menos a decisão de levar ténis, valia-me em rapidez.

Ricardo esperava-me ao lado do meu cacifo. Levantou um pouco as sobrancelhas, com certeza surpreendido pela minha simples indumentária, mas não fez comentários e sorriu.

– Hoje estás pequenina – gracejou, fazendo-me uma festa na cabeça, como se eu fosse um animal de estimação.

Revirei os olhos um pouco mal disposta abrindo o cacifo.

Mas que raio, se estava na escola era para aprender alguma coisa ou não?

Respirando fundo e reunindo algo que não sei como especificar, substituí a cara aborrecida por o meu melhor sorriso: – As explicações a matemática podem ser  hoje? – perguntei-lhe, lembrando-me de súbito da minha mãe. – Ainda não comecei a fazer o novo trabalho que o professor nos marcou.

Ricardo por um segundo pareceu ficar radiante, mas esboçou apenas um pequeno sorriso. – Pode, queres estudar onde? Em minha casa?

“Outro a pôr a máscara” – pensei com alguma decepção. – “Que  mundo.”

– podemos ir para a minha e lanchavamos lá. Aparece depois do almoço está bem? – fechei o cacifo tirando os livros para a aula seguinte e encaminhei-me lá para fora.

– Está bem – ainda o ouvi dizer atrás de mim.

No exterior, dirigi-me a um grupo de rapazes e pedi um cigarro. Um deles perguntou se não queria ficar ali a conversar com eles, mas recusei, sentando-me num lugar mais sossegado. Passado uns segundos vi Susana a dirigir-se na minha direcção.

– Que estás a fazer? – perguntou olhando ameaçadoramente para o cigarro. – Sabes o que uma coisa dessas faz á pele?

– É só desta vez, prometo – tentei despachar.

– É só desta vez? – voltou a repetir – diz-me isso quando quiseres ir comprar écharpes para esconder o furo que te vão fazer na garganta para poderes respirar.

– Ok Susana, ganhaste – respondi atirando o cigarro ao chão. Quando ela queria sabia ganhar a dela. – Tens os deveres de português feitos? Acabei de me lembrar que não os cheguei a fazer.

Parecendo ainda mais mal disposta, Susana apressou-se a passar-me o caderno. Agradeci, começando a passar aleatóriamente alguns apontamentos.

Vi o olhar que ela lançou sobre ás minhas roupas mas milagrosamente não pareceu interessada em comentar. Será que a própria Susana afinal tinha mais tacto do que fazia querer? Outra máscara? Só mesmo Susana para usar uma máscara para ocultar qualidades.

– Pelo menos ouvi dizer que vais manter os deveres de matemática em dia – sorriu-me perversamente. Devia ser por isso que nem comentára as roupas. Olhei para ela irritada. A que raio de velocidade a informação passava ali?

– Ei, ouvi-o a dizer ao Dani que não podia ir hoje a um treino extra de futebol, para estar contigo- disse ela, encolhendo os ombros. – Falando neles…

Levantei a cabeça. Reconhecia Dani em qualquer lado, com aquele casaco vermelho,e mangas brancas em couro, á desportista americano. Só ele tinha um casaco daqueles. Vinha com Ricardo ao lado. Quando se aproximou, Dani pegou Susana ao colo, agarrando-a só com um braço á volta da cintura, fazendo-a soltar gritinhos estridentes. Ricardo sentou-se ao meu lado, tentando dar-me a mão. Deixei por uns momentos, até me desculpar com o copianço que estava a processar e voltar ao trabalho.

O efeito do comprimido ainda estava bem acente, pelo que demorei bastante a escrever apenas algumas frases, numa caligrafia torta. A campainha tocou. Ia ter aulas com Susana.

Vi Dani a pegar nela, levando-a ao ombro, enquanto ela se agitava. Ricardo fazia lembrar um cão perdido á espera de atenção, atrás de mim numa postura inquieta.

– Também queres que te leve aos ombros? – gracejou, fazendo de conta que ia pegar em mim, envolvendo-me a cintura com os braços fortes.

– Nem penses – ripostei, dando-lhe uma pequena cotovelada, forçando um sorriso.

– Explicava-te a lei da gravidade – continuou, fazendo-me subir alguns centimetros do chão sem esforço.

– Quero explicações a matemática, não a fisica – ripostei abanando os pés enquanto ele me pousava no chão.

Encaminha-mo nos os quatro para o pavilhão escolar, não antes que eu reparasse com uma certa pontada de mal estar, que Artur estava visivel na outra ponta do recinto.

Já deram uma olhadela ao livro disponivél neste blog?

Para quem ainda não leu, Meltdown – Á beira do colapso, é um romance escrito por mim, disponibilizado por capítulos, todas as segundas-feiras.

Á beira do colapso é um romance para adolescentes e jovens adultos, que retrata a história de uma popular rapariga – Jéssica.

Jéssica é uma rapariga perfeita, com uma melhor amiga tão perfeita como ela, e namora com um dos rapazes mais bonitos da escola. Sempre foi boa aluna, popular, sendo até aspirante a modelo.

Mas a vida perfeita muitas vezes esconde os mais penosos segredos. Com um esforço sobrenatural, Jéssica esconde a todo o custo os eventos traumáticos pelos quais passou, embora as suas tentativas pareçam ser infrutíferas, e o seu comportamento pareça cada vez mais estranho e desesperado.

Com medo que a “sua história” manche para sempre a sua vida, e o modo como o qual todos olham para ela, Jéssica cai numa depressão nervosa, disfarçada por drogas psicotrópicas.

Devidida entre os seus amigos populares e fúteis que parecem não a entender de todo, Jéssica procura novas amizades, em grupos escolares com os quais nunca falou. No entanto os seus juizos são ainda confusos e desfragmentados, e Jéssica parece não perceber que as decisões que toma, não são as melhores para si.

Quantas pessoas não vivem com uma máscara invisivel, escondendo os mais profundos sentimentos, e sorrindo quando a vontade é bem diferente? E, até onde leva, esconder com tal afinco sentimentos perturbadores, sem qualquer tipo de ajuda e de apoio?

Um livro que vai de encontro a sentimentos adversos, que são no entanto a realidade em muitos casos

Capitulo 8

Afinal o problema é só mesmo com Ricardo!

Entramos num bar quente e acolhedor, com forte cheiro a canela, oriundo de pequenas velas espalhadas entre as mesas. A decoração tinha um toque irlandês.

As mesas eram de uma madeira velha e riscada, e em vez de cadeiras havia pequenas pipas com uma almofadinha redonda em cima. As paredes eram de pedra, com quadros de diferentes logotipos antigos de cerveja.

A única empregada a servir ás mesas era sem duvida estrangeira, talvez  inglesa. Usava roupas excêntricas de estalajadeira, e uns sapatos de plataforma com quase vinte cêntimetros.

A música ambiente tocava em volume baixo, e embora muitas mesas estivessem ocupadas, o bar transmitia uma sensação pacifica, em que mal se ouvia o barulho dos outros clientes.

Escolhemos uma mesa a um canto, perto de uma janela.

– Já tinhas vindo aqui? – perguntou-me Artur, sentando-se bem disposto numa das pipas, com um enorme á vontade.

– Nem por isso – respondi. Peguei no pequeno cardápio castanho, encostado aos guardanapos. Gostava de ter sempre as mãos ocupadas.

– Já calculava – disse, num meio sorriso – Quer dizer, não parece fazer o teu género.

– Se sabes que não faz o meu género, como tinhas tanta certeza que eu viria? – escarneci. Falava sem olhar para ele, analisando as folhas do cardápio que segurava com as duas mãos á minha frente.

– Bem, simplesmente sabia.

– Estás demasiado confiante – atirei, pousando o cardápio, olhando finalmente para ele.

– Não estou – respondeu. O tom era sério, e agora era ele que não olhava para mim. Parecia entretido com a bolsa, donde retirou um maço de tabaco que pousou em cima da mesa. Olhei para o maço. O meu já tinha acabado á uns dias e não tinha comprado outro na promessa de não começar a fumar. No entanto desde do momento em que este tinha acabado não pensava noutra coisa, senão comprar outro. Ver um maço quase novo em cima da mesa era penoso, e quase por impulso ia retirar um cigarro, mas filei as mãos á cadeira e desviei o olhar.

Aempregada aproximou-se para anotar o pedido.

– Queria uma cerveja – pedi. Esta fixou um pouco o olhar em mim por uns momentos até dizer na sua pronuncia britânica: -Não foi a menina que ganhou o desfile do biquini o verão passado?

Acenei que sim com timidez. Em tempos teria adorado ser reconhecida pelo meu trabalho no mundo da moda, mas não agora. Naquele momento a coisa que menos queria era chamar a atenção.

– Bem me queria parecer – continuou a empregada, na sua pronuncia acentuada – sabe decoro muito bem caras. Dá jeito quando se trabalha a servir ás mesas.

– Estou a ver que sim – comentei num sorriso forçado. Queria encerrar o assunto, mas sem sucesso.

– Gosto muito de concursos de moda. Pena aqui serem tão raros. Mas quando a vi desfilar vi logo que ia ganhar. Não lhe falta nada para ser modelo. Muito carisma. Vocês usam cá essa palavra certo? Carisma?

– Sim sim. Perfeitamente – despachei. – Muito obrigado.

Parecendo satisfeita anotou também o pedido de Artur, com cara de quem se pergunta de si para si, que estaria eu a fazer ali com aquele.

Artur no entanto parecia alheio a toda a conversa. Puxara de um cigarro enquanto via a empregada a afastar-se.

Com um mal estar indisfarçável, mantive-me em silêncio. Olhei novamente para o maço. Artur voltara a colocá-lo no centro da mesa. Esperara que me oferecesse depois de começar a fumar mas não o fez. Olhava apenas, avaliativo.

– Não foi nada de especial o concurso – disse por fim pouco á vontade. – Foi num parque aquático e qualquer pessoa que lá tivesse podia ter visto o desfile. Foi mais um entretenimento do parque do que um concurso a sério.

Riu-se.

– Que foi?

– Nada. Achei estranho. Não ficas contente por te reconhecerem de um desfile de moda?

– Não foi por isso. Sei lá, não gostei que se intrometesse. Além disso deixei a moda para trás. Não faz o meu estilo.

Aguardei uma resposta mas Artur parecia pensativo, como se estivesse a assimilar a informação que lhe dava, e não fez qualquer comentário.

A empregada surgiu trazendo numa bandeja as cervejas em canecas de aço, fazendo lembrar a era medieval. Artur segurava o cigarro com a ponta dos dedos, dando pequenas pancadas com o polegar, fazendo cair a cinza.

– Este lugar é original – disse-lhe, tentanto quebrar o silêncio. Sentia-me no estrangeiro, algures no norte da europa, o que provocava uma sensação estranhamente libertadora.

– Sabia que te ias sentir bem num sitio diferente.

– Porque dizes isso?

Ele encolheu os ombros. – Não sei. Pareces-me desenquadrada do teu grupo nos últimos tempos.

– Eles são porreiros – admiti.

– Mas ainda não repararam que algo diferente se passa contigo, pois não?

Pensei na pergunta de Artur. Aquilo não era bem verdade. Ricardo reparara na mudança de comportamento. Ou acharia simplesmente que era apenas mais um capricho meu, para requerer atenção?

E Susana? Não, definitivamente Susana não percebia. E Dani e eu não eramos propriamente amigos. Franzi o sobrolho. – Não se passa nada comigo – ripostei.

– E se te tivesse convidado há umas semanas atrás para vir aqui, tinhas aceitado?

Há umas semanas atrás? Pareciam-me antes anos. Eu e a Susana a rir alto pelos corredores, quando rapariguinhas apareciam na escola a tentar imitar a nossa maneira de vestir. Via-mos juntas os treinos de Dani e Ricardo na bancada do campo de futebol. Ricardo e eu iamos ao cinema durante a tarde ou á pista de gelo do centro comercial. E aos sábados á noite Susana e eu escondiamos garrafas de vodka na mala do carro de Dani, o unico com idade suficiente para ter carta, e davamos largos passseios até encontrar o sitio ideal para as beber. A vida perfeita de qualquer adolescente.

– Há umas semanas atrás não te conhecia, por isso não, não teria aceitado.

– Não me parece que seja só isso – indagou.

– Também sabes tudo – desafiei, já um pouco aborrecida com a intromissão dele.

– Sei por exemplo que estás mortinha por tirar um cigarro – respondeu pegando no maço passando-o de uma mão para a outra, fixando os olhos negros nos meus. – Mas não és capaz de ficar em posição de me pedir algo.

– Se não te pedi foi porque não senti vontade – corei violentamente, sem saber se naquele sitio escuro daria para notar. Teria posto base suficiente que escondesse o calor que me subia á cara?

Artur sorriu com cepticismo e encolheu os ombros. Naturalmente não se dava ao trabalho de discutir algo de que tinha a certeza. Em vez disso tirou um cigarro para fora e entregou-me. Pensei durante uns segundos em recusar, mas não tive força de vontade suficiente. Contrariada, arranquei-lhe o cigarro das mãos e acendi-o, ignorando o seu olhar triunfante.

Em silêncio, um pouco arreliada, mudei de posição, ajeitando-me em cima da pipa, levando a unha á boca com o cigarro perto da cara. Ele riu-se.

– Pronto, vieste cá por ser fora do normal certo? Estás farta de fazer o mesmo.

– Talvez tenha sido por isso – admiti.

– Mas querias mudar o ambiente? Ou as pessoas? – perguntou, com uma certa malicia.

– Um pouco dos dois.

– Estou a ver – respondeu esmagando o cigarro no cinzeiro, apagando-o á primeira tentativa.

– Já podemos parar de falar sobre mim? – pedi, num certo desconforto, dando o primeiro gole na cerveja. Era forte, azeda e gelada. Franzi um pouco a cara.

– Porquê? Não gostas de falar sobre ti?

– Há outros assuntos que podemos falar – sugeri.

– Está bem – fez um aceno com a cabeça – Então conta-me o que gostavas de fazer quando acabares o secundário?

– Pensei que não iamos falar mais sobre mim.

– Não é sobre ti – troçou alongando os lábios – é mais sobre aquilo que vais querer fazer. Assim algo que já pensaste fazer mas que nunca pensaste em concretizar.

Refleti um pouco. O que gostaria eu de fazer? A minha vida com Susana sempre tinha sido perfeita. Tinhamos saídas todos os fins-de-semana, tinhamos festas, tinhamos dinheiro para compras quase diárias no shopping. Tudo o que eu gostava de fazer fazia. Simplesmente agora tudo aquilo tinha perdido o interesse. Mas também não me ocorria nada novo que gostasse de fazer. Seria assim tão desinteressante?

– Não sei, diz-me tu primeiro – sugeri. – Se o assunto não é sobre mim, cada um tem que dizer – monopolozei.

– Deixa ver – anuiu ele, reflectindo dando agora um gole na sua cerveja – Hmmm, gostava de pegar numa mochila assim com pouca roupa e não sei, metia-me num comboio qualquer durante o verão. O primeiro que partisse da estação. E depois noutro, assim á sorte. Para ver onde ia parar, quem conhecia, onde ia ficar. Mas não sei se realmente o vou fazer – acrescentou.

Pensei naquela aventura. Se bem que na minha cabeça tivesse bem mais piada trocar o comboio por um avião. E voar num e noutro, até ir para um país bem longe. País não, talvez uma ilha deserta, onde ninguém me pudesse chatear. Olhei pensativa para ele: – É um bom plano – sorri-lhe. – Um dia tens que o pôr em prática.

– Quem sabe, um dia me dê para isso – disse, dando um grande gole na sua bebida. – Agora é a tua vez.

– Hmm não sei. Nunca pensei em nada assim. – “Céus, seria eu assim tão desisnteresante?” –  O que eu quero fazer faço e pronto. Agora assim de repente não me vem nada extravagante á cabeça.

– Então? Tem que haver alguma coisa. Algo que imagines, ou sonhes de vez enquando.

– Não sei a sério. Se estiver aqui a pensar á pressão vou acabar por dizer qualquer coisa, e assim não vai ter piada.

– Ok – desistiu um pouco desiludido – Pensei que depois do secundário pensasses num plano só teu, algo que apenas tu quissesses fazer..

– Mas qual é o objectivo? E se não me apetecer fazer nada e pronto?

Ele encolheu os ombros: – Sei lá, a vida toda é concretizar objectivos. A escola, o trabalho, os amigos. É bom termos um objectivo que seja só nosso. Que não venha imposto no resto do pacote.

– Pensando por aí, até tens razão – refecti.

– Quer dizer que vais pensar em algo? – perguntou Artur  num tom de brincadeira.

– Vou tentar – prometi.

Ele abanou a cabeça: – Tentar é a primeira palavra que usamos quando queremos desistir.

Ri-me. –  Apanhaste-me.. – gracejei. – A sério vou ver se me surge alguma ideia. – Dei mais um trago da cerveja, girando a caneca nas mãos.

Artur retribuiu um sorriso, bebendo também da sua cerveja. No momento seguinte no entanto parecia novamente sério. Reparei que mexia no anel do dedo pulgar.

Rodei a caneca na mesa, brincando. Artur parecia concentrado, pelo que me mantive em silencio, tentando adivinhar o que lhe passaria pela cabeça.

Olhei para o relógio. Já era tarde.

– Amanhã temos aulas – suspirei.

– Anda, vamos então.

Levantamo-nos para ir pagar á caixa.  A empregada voltou-me a sorrir amávelmente, quando lhe pousei as moedas na mão. Retribuí num meio sorriso e virei-lhe costas, vestindo o casaco, cingindo-o abaixo do peito com uma das mãos, e saí primeiro do bar sem Artur.

Senti a humidade cortar-me a face. Era o Inverno mais frio de que tinha memória. Respirei fundo o ar da noite, de olhos fechados, ouvindo a porta do bar abrir-se atrás de mim entoando uma pequena campainha. Voltei-me de encontro a Artur.

Este parou á minha frente, aproximando-se de mim, observando-me num meio sorriso.

Esperava que me tocasse, que me puxasse uma mão mas não o fez. Estava tão próximo que podia sentir o odor que emanava das suas roupas, numa especie de calor térmico que chegava até a mim. Senti um leve impulso de lhe tocar, mas travei a mão já em movimento. Artur mantinha-se tão próximo que podia sentir sua respiração na minha face. Sentia o estômago e endurecer, num ligeiro nervossismo. Fixei o olhar nos seus olhos negros, espectante.

Artur recuou então um pouco, num meio sorriso malicioso.

– Anda, levo-te a casa – disse, dando-me um pequeno toque com a mão no braço.

Segui-o, tentando esconder o embaraço e um certo desapontamento. Definitivamente não conseguia perceber o que ia na cabeça de Artur.

As ruas pareciam agora mais desertas e silenciosas. Nenhum carro passava, nem havia vento. Artur caminhava com as mãos nos bolsos. A certa altura já me perguntava se seria apenas para o proteger do frio. Estaria a evitar propositadamente qualquer tipo de contacto comigo? Ri-me.

– O que foi? – perguntou ele, na sua habitual curiosidade.

Como lhe havia de responder? Insegura era um sentimento do qual eu nunca chegára perto. Nunca estivera na posição de sentir que era a primeira a pedir por contacto fisico. Até bem pelo contrário. Como lhe explicaria que o meu riso, não passava de uma ligeira irritação disfarçada?

– Não é nada – respondi, ainda com o riso nos lábios. Talvez conseguisse transmitir aquilo como uma súbita boa disposição.

Lembrei-me vagamente da noite que saíra com Ricardo e do conforto que sentira nas suas mãos. Aquela noite era incrivelmente parecida. Depois Ricardo estragara tudo com perguntas indiscretas.

Caminhamos durante de uns minutos, percorrendo as ruas de asfalto brilhante e escorregadio. Perdida em pensamentos nem me tinha apercebido que iamos em silencio á tanto tempo.

Artur no entanto parecia perceber os meus momentos silenciosos. Talvez não dissesse nada, julgando que provavelmente eu nem o ouviria.

Já estavamos perto da minha rua, passando por jardins de relva morta do frio, mas ainda assim cuidadosamente aparada, e grandes arvores  totalmente despidas de folhas que desfilavam pelo passeio, a uma distancia perfeitamente simétrica.

Artur rodou sobre si mesmo, encostando as costas a uma árvore.

– Anda cá – murmurou, envolvendo-me as duas mãos e puxando-me com suavidade ao seu encontro. Parei indesisa com a proximidade, olhando-o duvidosa.

Sem me tocar na cara, afastou uma madeixa de cabelo loiro caída, para trás da minha orelha, fixando os olhos em mim.

– Não queres falar comigo?

– Sobre o quê? – perguntei confusa.

– Sobre aquela noite – respondeu, talvez um pouco indesiso, medindo as palavras.

Afastei um pouco a distancia entre nós, revirando os olhos impaciente. Respirei fundo antes de lhe devolver o olhar. Outra vez aquele assunto…

– Desculpa aquela noite – disse, com uma certa frieza. – A noite do baile não me correu bem, e eu o Ricardo tinhamos discutido essa manhã. Não queria que me tivesses visto a reagir assim.

– Mas foi só isso? –  Falava num tom de voz baixo e atento, completamente alheio á minha falta de jeito.

– Sim.

– Fiquei com a sensação – disse, fazendo uma pausa, enquanto revirava o anel no dedo – que houve algo mais sério do que uma discussão. Ou que, pelo menos não fosse só por causa disso.

– Realmente não importa – disse eu, desviando-me do seu olhar.- Não se passou nada, não me volto a comportar assim, a sério.

– Então tu e o ele fizeram as pazes?

– Sim, de uma certa forma – disse, repensando no entanto a resposta. – Quer dizer, já não é a mesma coisa. Ricardo e eu não temos muito a ver um com o outro.

Artur sorriu, lançando-me um olhar de pouca credibilidade.

– O quê? – perguntei num tom mais agressivo. –  Ele tem a ver comigo só porque é giro e tem dinheiro?

– Eu vejo que estás desenquadrada deles – respondeu-me num tom neutro.

Olhei-o com uma certa rispidez, mas mais uma vez ele fingiu-se despercebido.

Dei por mim a pensar que Artur gostava de passar despercebido e alheio a tudo, exatamente quando percebia totalmente alguma coisa. E dava sempre a entender menos do que aquilo que realmente conseguia perceber.

– Não estou desenquadrada. Susana é minha amiga desde de que eu me lembro.

– Dantes podias gostar de andar com eles. Mas agora não é isso que queres – afirmou ele com segurança.

– Tu lá sabes o que eu quero – respondi com um certo desdém.

Artur abriu um meio sorriso. Sem aviso prévio, segurando-me firmemente pelas mãos, rodopiou, encostando-me a mim á árvore, apertando o meu corpo com o dele.

– Sei sim – respondeu com os lábios a roçar nos meus.

Pensei brevemente em empurrá-lo, mas sentia as entranhas revolverem-se em excitação. Lutei contra a tentação de o beijar.

Com um dedo no meu queixo, inclinou-me a cabeça de modo a olhar para ele. Raspava os lábios dele nos meus, á espera que eu o beijasse, fixando o olhar no meu, extaseando-me. Sentia agora a sua lingua ao de leve, humedecendo-me o lábio de cima. Voltou a pressionar o meu corpo com o dele, cingindo-me pela cintura.

Cedi finalmente, fechando os olhos, procurando avidamente por um beijo. Primeiro suave. Os seus dedos procuravam a minha cintura, por debaixo do casaco. A pressão aumentava tal como a avidez dos beijos. Sentia o seu calor, morno e perfumado envolvendo-me, estonteando-me.

Não sei durante quanto tempo nos beijamos. Senti-me ofegante quando nos afastamos.

– Anda – disse ele recuando, puxando por mim. – Tens de ir para casa.

Acenei afirmativamente. Envolvi-lhe a cintura com o braço, enquanto avançavamos pelo passeio escorregadio. Levava o cabelo á banda, e roía uma unha, não sentindo sequer que o casaco ia aberto, expondo o decote ao frio. Sentia o seu braço, envolvendo-me também, forte e seguro. Chegamos ao alpendre de minha casa. Não havia luz em nenhuma janela. A minha mãe devia continuar a dormir.

Subi as duas escadas do alpendre, virando-me para Artur. Ele subiu a perna direita para o primeiro degrau colocando a cara por debaixo da minha.

– Vemo-nos amanhã? – perguntou ele, roçando a nariz no meu. Acenei que sim, recomeçando a beijá-lo. Depois afastei-o colocando o dedo entre os nossos lábios. Puxei-o com força forçando-o a subir as escadas. Abri levemente a porta sem fazer barulho e voltei a aproximar-me dele.

– Acho que sei algo que quero fazer – sussurei-lhe ao ouvido, puxando-o para mim. – Fica comigo como naquela noite.

Artur vacilou. – Jéssica, e se alguém nos ouve?

– Não vai haver problema, prometo-te.

Artur não se moveu. – Não sei se será boa ideia – acrescentou.

– Foste tu que perguntas-te por alguma loucura que eu gostasse de fazer. Tu é que me incentivaste a ter ideias – brinquei, brindando-o com um olhar inocente.

Sem que Artur estivesse minimamente convencido, puxei-o para dentro de casa. O ar era ameno, como se fosse verão. A mãe gostava de deixar a toda a hora o aquecimento central ligado. Sem fazer-mos barulho, subimos ao de leve as escadas e entramos no meu quarto, trancando a porta. A luz pálida da rua, iluminava a divisão através da persiana meia corrida.

Embora a luz da rua fosse fraca, vi que Artur observava num sorriso o troça, todo o quarto, desde do papel florido de tons pastel e rosa velho que tinha escolhido com Susana numa loja de decoração, á enorme quantidade de almofadas de renda branca, e um cadeirão de bombazine cor de rosa, perto de um abajur branco com um peluche em cima.

Dei-lhe uma cotovelada. – Para o que estás a olhar? – sussurei baixinho.

Ele riu-se, encolhendo os ombros. – Betinha – disse baixinho num tom de troça.

– Pára! – murmurei, rindo-me também. – Tavas á espera de quê também? Já não sabes que sou betinha?

– Schhhh – fez-me ele (eu falára um pouco alto demais) – Tens a certeza qe ninguém nos vai ouvir?

– Não te preocupes.

Colocamos os casacos numa cadeira e descalçamo-nos, estendendo-nos de seguida ao comprido na minha cama completamente vestidos.

Estavamos ambos deitados de lado, virados um para o outro. Artur observava-me atentamente, passando suavemente a mão, brincando com uma madeixa do meu cabelo. Já estava habituada aquele olhar atento e inquiridor. Mas não me sentia menos curiosa de saber que pensaria ele nessas alturas.

– Não me chegaste a contar porque é que o baile te correu a mal –disse-lhe, apercebendo-me a certa altura que raramente me dava informações completas sobre ele.

Artur encolheu os ombros – Vendo em perspectiva não me correu tão mal assim.

– Não? – não consegui perceber o que ele me queria dizer com aquilo, mas também não tive tempo para pensar mais no assunto, pois Artur beijava-me novamente. Senti o sabor leve do tabaco misturado com a cerveja do bar.

Observei-o puxando levemente com os meus lábios, o sue lábio debaixo. Apreciava cada detalhe da cara magra, da tez morena, e os musculos tensos do maxilar. Aquilo era muito diferente de estar com Ricardo. Até ali tinha estado na duvida se sentiria o mesmo desconforto com Artur, mas o certo é que não sentia. Tinha até uma ligeira vontade de procurar mais avidamente por uma resposta corporal da sua parte. Tentei procurar nele a mesma vontade, apertei-o com as mãos um pouco de lado.

Procurei duvidosa pela sua expressão, talvez um pouco nervosa com as ideias que me trespassavam pela cabeça. Artur no entanto estava impávido, e não parecia ter qualquer duvida a incomodá-lo. Puxou-me mais para si, abraçando-me e encostando-me a ele. Senti a sua respiração regular na minha testa.

Alguma vez me sentira tão confortável e bem como naquele momento? Não sabia.

Senti ao de leve um beijo nos cabelos, e pouco depois adormeci, sem me preocupar com mais nada.