Capitulo 8

Afinal o problema é só mesmo com Ricardo!

Entramos num bar quente e acolhedor, com forte cheiro a canela, oriundo de pequenas velas espalhadas entre as mesas. A decoração tinha um toque irlandês.

As mesas eram de uma madeira velha e riscada, e em vez de cadeiras havia pequenas pipas com uma almofadinha redonda em cima. As paredes eram de pedra, com quadros de diferentes logotipos antigos de cerveja.

A única empregada a servir ás mesas era sem duvida estrangeira, talvez  inglesa. Usava roupas excêntricas de estalajadeira, e uns sapatos de plataforma com quase vinte cêntimetros.

A música ambiente tocava em volume baixo, e embora muitas mesas estivessem ocupadas, o bar transmitia uma sensação pacifica, em que mal se ouvia o barulho dos outros clientes.

Escolhemos uma mesa a um canto, perto de uma janela.

– Já tinhas vindo aqui? – perguntou-me Artur, sentando-se bem disposto numa das pipas, com um enorme á vontade.

– Nem por isso – respondi. Peguei no pequeno cardápio castanho, encostado aos guardanapos. Gostava de ter sempre as mãos ocupadas.

– Já calculava – disse, num meio sorriso – Quer dizer, não parece fazer o teu género.

– Se sabes que não faz o meu género, como tinhas tanta certeza que eu viria? – escarneci. Falava sem olhar para ele, analisando as folhas do cardápio que segurava com as duas mãos á minha frente.

– Bem, simplesmente sabia.

– Estás demasiado confiante – atirei, pousando o cardápio, olhando finalmente para ele.

– Não estou – respondeu. O tom era sério, e agora era ele que não olhava para mim. Parecia entretido com a bolsa, donde retirou um maço de tabaco que pousou em cima da mesa. Olhei para o maço. O meu já tinha acabado á uns dias e não tinha comprado outro na promessa de não começar a fumar. No entanto desde do momento em que este tinha acabado não pensava noutra coisa, senão comprar outro. Ver um maço quase novo em cima da mesa era penoso, e quase por impulso ia retirar um cigarro, mas filei as mãos á cadeira e desviei o olhar.

Aempregada aproximou-se para anotar o pedido.

– Queria uma cerveja – pedi. Esta fixou um pouco o olhar em mim por uns momentos até dizer na sua pronuncia britânica: -Não foi a menina que ganhou o desfile do biquini o verão passado?

Acenei que sim com timidez. Em tempos teria adorado ser reconhecida pelo meu trabalho no mundo da moda, mas não agora. Naquele momento a coisa que menos queria era chamar a atenção.

– Bem me queria parecer – continuou a empregada, na sua pronuncia acentuada – sabe decoro muito bem caras. Dá jeito quando se trabalha a servir ás mesas.

– Estou a ver que sim – comentei num sorriso forçado. Queria encerrar o assunto, mas sem sucesso.

– Gosto muito de concursos de moda. Pena aqui serem tão raros. Mas quando a vi desfilar vi logo que ia ganhar. Não lhe falta nada para ser modelo. Muito carisma. Vocês usam cá essa palavra certo? Carisma?

– Sim sim. Perfeitamente – despachei. – Muito obrigado.

Parecendo satisfeita anotou também o pedido de Artur, com cara de quem se pergunta de si para si, que estaria eu a fazer ali com aquele.

Artur no entanto parecia alheio a toda a conversa. Puxara de um cigarro enquanto via a empregada a afastar-se.

Com um mal estar indisfarçável, mantive-me em silêncio. Olhei novamente para o maço. Artur voltara a colocá-lo no centro da mesa. Esperara que me oferecesse depois de começar a fumar mas não o fez. Olhava apenas, avaliativo.

– Não foi nada de especial o concurso – disse por fim pouco á vontade. – Foi num parque aquático e qualquer pessoa que lá tivesse podia ter visto o desfile. Foi mais um entretenimento do parque do que um concurso a sério.

Riu-se.

– Que foi?

– Nada. Achei estranho. Não ficas contente por te reconhecerem de um desfile de moda?

– Não foi por isso. Sei lá, não gostei que se intrometesse. Além disso deixei a moda para trás. Não faz o meu estilo.

Aguardei uma resposta mas Artur parecia pensativo, como se estivesse a assimilar a informação que lhe dava, e não fez qualquer comentário.

A empregada surgiu trazendo numa bandeja as cervejas em canecas de aço, fazendo lembrar a era medieval. Artur segurava o cigarro com a ponta dos dedos, dando pequenas pancadas com o polegar, fazendo cair a cinza.

– Este lugar é original – disse-lhe, tentanto quebrar o silêncio. Sentia-me no estrangeiro, algures no norte da europa, o que provocava uma sensação estranhamente libertadora.

– Sabia que te ias sentir bem num sitio diferente.

– Porque dizes isso?

Ele encolheu os ombros. – Não sei. Pareces-me desenquadrada do teu grupo nos últimos tempos.

– Eles são porreiros – admiti.

– Mas ainda não repararam que algo diferente se passa contigo, pois não?

Pensei na pergunta de Artur. Aquilo não era bem verdade. Ricardo reparara na mudança de comportamento. Ou acharia simplesmente que era apenas mais um capricho meu, para requerer atenção?

E Susana? Não, definitivamente Susana não percebia. E Dani e eu não eramos propriamente amigos. Franzi o sobrolho. – Não se passa nada comigo – ripostei.

– E se te tivesse convidado há umas semanas atrás para vir aqui, tinhas aceitado?

Há umas semanas atrás? Pareciam-me antes anos. Eu e a Susana a rir alto pelos corredores, quando rapariguinhas apareciam na escola a tentar imitar a nossa maneira de vestir. Via-mos juntas os treinos de Dani e Ricardo na bancada do campo de futebol. Ricardo e eu iamos ao cinema durante a tarde ou á pista de gelo do centro comercial. E aos sábados á noite Susana e eu escondiamos garrafas de vodka na mala do carro de Dani, o unico com idade suficiente para ter carta, e davamos largos passseios até encontrar o sitio ideal para as beber. A vida perfeita de qualquer adolescente.

– Há umas semanas atrás não te conhecia, por isso não, não teria aceitado.

– Não me parece que seja só isso – indagou.

– Também sabes tudo – desafiei, já um pouco aborrecida com a intromissão dele.

– Sei por exemplo que estás mortinha por tirar um cigarro – respondeu pegando no maço passando-o de uma mão para a outra, fixando os olhos negros nos meus. – Mas não és capaz de ficar em posição de me pedir algo.

– Se não te pedi foi porque não senti vontade – corei violentamente, sem saber se naquele sitio escuro daria para notar. Teria posto base suficiente que escondesse o calor que me subia á cara?

Artur sorriu com cepticismo e encolheu os ombros. Naturalmente não se dava ao trabalho de discutir algo de que tinha a certeza. Em vez disso tirou um cigarro para fora e entregou-me. Pensei durante uns segundos em recusar, mas não tive força de vontade suficiente. Contrariada, arranquei-lhe o cigarro das mãos e acendi-o, ignorando o seu olhar triunfante.

Em silêncio, um pouco arreliada, mudei de posição, ajeitando-me em cima da pipa, levando a unha á boca com o cigarro perto da cara. Ele riu-se.

– Pronto, vieste cá por ser fora do normal certo? Estás farta de fazer o mesmo.

– Talvez tenha sido por isso – admiti.

– Mas querias mudar o ambiente? Ou as pessoas? – perguntou, com uma certa malicia.

– Um pouco dos dois.

– Estou a ver – respondeu esmagando o cigarro no cinzeiro, apagando-o á primeira tentativa.

– Já podemos parar de falar sobre mim? – pedi, num certo desconforto, dando o primeiro gole na cerveja. Era forte, azeda e gelada. Franzi um pouco a cara.

– Porquê? Não gostas de falar sobre ti?

– Há outros assuntos que podemos falar – sugeri.

– Está bem – fez um aceno com a cabeça – Então conta-me o que gostavas de fazer quando acabares o secundário?

– Pensei que não iamos falar mais sobre mim.

– Não é sobre ti – troçou alongando os lábios – é mais sobre aquilo que vais querer fazer. Assim algo que já pensaste fazer mas que nunca pensaste em concretizar.

Refleti um pouco. O que gostaria eu de fazer? A minha vida com Susana sempre tinha sido perfeita. Tinhamos saídas todos os fins-de-semana, tinhamos festas, tinhamos dinheiro para compras quase diárias no shopping. Tudo o que eu gostava de fazer fazia. Simplesmente agora tudo aquilo tinha perdido o interesse. Mas também não me ocorria nada novo que gostasse de fazer. Seria assim tão desinteressante?

– Não sei, diz-me tu primeiro – sugeri. – Se o assunto não é sobre mim, cada um tem que dizer – monopolozei.

– Deixa ver – anuiu ele, reflectindo dando agora um gole na sua cerveja – Hmmm, gostava de pegar numa mochila assim com pouca roupa e não sei, metia-me num comboio qualquer durante o verão. O primeiro que partisse da estação. E depois noutro, assim á sorte. Para ver onde ia parar, quem conhecia, onde ia ficar. Mas não sei se realmente o vou fazer – acrescentou.

Pensei naquela aventura. Se bem que na minha cabeça tivesse bem mais piada trocar o comboio por um avião. E voar num e noutro, até ir para um país bem longe. País não, talvez uma ilha deserta, onde ninguém me pudesse chatear. Olhei pensativa para ele: – É um bom plano – sorri-lhe. – Um dia tens que o pôr em prática.

– Quem sabe, um dia me dê para isso – disse, dando um grande gole na sua bebida. – Agora é a tua vez.

– Hmm não sei. Nunca pensei em nada assim. – “Céus, seria eu assim tão desisnteresante?” –  O que eu quero fazer faço e pronto. Agora assim de repente não me vem nada extravagante á cabeça.

– Então? Tem que haver alguma coisa. Algo que imagines, ou sonhes de vez enquando.

– Não sei a sério. Se estiver aqui a pensar á pressão vou acabar por dizer qualquer coisa, e assim não vai ter piada.

– Ok – desistiu um pouco desiludido – Pensei que depois do secundário pensasses num plano só teu, algo que apenas tu quissesses fazer..

– Mas qual é o objectivo? E se não me apetecer fazer nada e pronto?

Ele encolheu os ombros: – Sei lá, a vida toda é concretizar objectivos. A escola, o trabalho, os amigos. É bom termos um objectivo que seja só nosso. Que não venha imposto no resto do pacote.

– Pensando por aí, até tens razão – refecti.

– Quer dizer que vais pensar em algo? – perguntou Artur  num tom de brincadeira.

– Vou tentar – prometi.

Ele abanou a cabeça: – Tentar é a primeira palavra que usamos quando queremos desistir.

Ri-me. –  Apanhaste-me.. – gracejei. – A sério vou ver se me surge alguma ideia. – Dei mais um trago da cerveja, girando a caneca nas mãos.

Artur retribuiu um sorriso, bebendo também da sua cerveja. No momento seguinte no entanto parecia novamente sério. Reparei que mexia no anel do dedo pulgar.

Rodei a caneca na mesa, brincando. Artur parecia concentrado, pelo que me mantive em silencio, tentando adivinhar o que lhe passaria pela cabeça.

Olhei para o relógio. Já era tarde.

– Amanhã temos aulas – suspirei.

– Anda, vamos então.

Levantamo-nos para ir pagar á caixa.  A empregada voltou-me a sorrir amávelmente, quando lhe pousei as moedas na mão. Retribuí num meio sorriso e virei-lhe costas, vestindo o casaco, cingindo-o abaixo do peito com uma das mãos, e saí primeiro do bar sem Artur.

Senti a humidade cortar-me a face. Era o Inverno mais frio de que tinha memória. Respirei fundo o ar da noite, de olhos fechados, ouvindo a porta do bar abrir-se atrás de mim entoando uma pequena campainha. Voltei-me de encontro a Artur.

Este parou á minha frente, aproximando-se de mim, observando-me num meio sorriso.

Esperava que me tocasse, que me puxasse uma mão mas não o fez. Estava tão próximo que podia sentir o odor que emanava das suas roupas, numa especie de calor térmico que chegava até a mim. Senti um leve impulso de lhe tocar, mas travei a mão já em movimento. Artur mantinha-se tão próximo que podia sentir sua respiração na minha face. Sentia o estômago e endurecer, num ligeiro nervossismo. Fixei o olhar nos seus olhos negros, espectante.

Artur recuou então um pouco, num meio sorriso malicioso.

– Anda, levo-te a casa – disse, dando-me um pequeno toque com a mão no braço.

Segui-o, tentando esconder o embaraço e um certo desapontamento. Definitivamente não conseguia perceber o que ia na cabeça de Artur.

As ruas pareciam agora mais desertas e silenciosas. Nenhum carro passava, nem havia vento. Artur caminhava com as mãos nos bolsos. A certa altura já me perguntava se seria apenas para o proteger do frio. Estaria a evitar propositadamente qualquer tipo de contacto comigo? Ri-me.

– O que foi? – perguntou ele, na sua habitual curiosidade.

Como lhe havia de responder? Insegura era um sentimento do qual eu nunca chegára perto. Nunca estivera na posição de sentir que era a primeira a pedir por contacto fisico. Até bem pelo contrário. Como lhe explicaria que o meu riso, não passava de uma ligeira irritação disfarçada?

– Não é nada – respondi, ainda com o riso nos lábios. Talvez conseguisse transmitir aquilo como uma súbita boa disposição.

Lembrei-me vagamente da noite que saíra com Ricardo e do conforto que sentira nas suas mãos. Aquela noite era incrivelmente parecida. Depois Ricardo estragara tudo com perguntas indiscretas.

Caminhamos durante de uns minutos, percorrendo as ruas de asfalto brilhante e escorregadio. Perdida em pensamentos nem me tinha apercebido que iamos em silencio á tanto tempo.

Artur no entanto parecia perceber os meus momentos silenciosos. Talvez não dissesse nada, julgando que provavelmente eu nem o ouviria.

Já estavamos perto da minha rua, passando por jardins de relva morta do frio, mas ainda assim cuidadosamente aparada, e grandes arvores  totalmente despidas de folhas que desfilavam pelo passeio, a uma distancia perfeitamente simétrica.

Artur rodou sobre si mesmo, encostando as costas a uma árvore.

– Anda cá – murmurou, envolvendo-me as duas mãos e puxando-me com suavidade ao seu encontro. Parei indesisa com a proximidade, olhando-o duvidosa.

Sem me tocar na cara, afastou uma madeixa de cabelo loiro caída, para trás da minha orelha, fixando os olhos em mim.

– Não queres falar comigo?

– Sobre o quê? – perguntei confusa.

– Sobre aquela noite – respondeu, talvez um pouco indesiso, medindo as palavras.

Afastei um pouco a distancia entre nós, revirando os olhos impaciente. Respirei fundo antes de lhe devolver o olhar. Outra vez aquele assunto…

– Desculpa aquela noite – disse, com uma certa frieza. – A noite do baile não me correu bem, e eu o Ricardo tinhamos discutido essa manhã. Não queria que me tivesses visto a reagir assim.

– Mas foi só isso? –  Falava num tom de voz baixo e atento, completamente alheio á minha falta de jeito.

– Sim.

– Fiquei com a sensação – disse, fazendo uma pausa, enquanto revirava o anel no dedo – que houve algo mais sério do que uma discussão. Ou que, pelo menos não fosse só por causa disso.

– Realmente não importa – disse eu, desviando-me do seu olhar.- Não se passou nada, não me volto a comportar assim, a sério.

– Então tu e o ele fizeram as pazes?

– Sim, de uma certa forma – disse, repensando no entanto a resposta. – Quer dizer, já não é a mesma coisa. Ricardo e eu não temos muito a ver um com o outro.

Artur sorriu, lançando-me um olhar de pouca credibilidade.

– O quê? – perguntei num tom mais agressivo. –  Ele tem a ver comigo só porque é giro e tem dinheiro?

– Eu vejo que estás desenquadrada deles – respondeu-me num tom neutro.

Olhei-o com uma certa rispidez, mas mais uma vez ele fingiu-se despercebido.

Dei por mim a pensar que Artur gostava de passar despercebido e alheio a tudo, exatamente quando percebia totalmente alguma coisa. E dava sempre a entender menos do que aquilo que realmente conseguia perceber.

– Não estou desenquadrada. Susana é minha amiga desde de que eu me lembro.

– Dantes podias gostar de andar com eles. Mas agora não é isso que queres – afirmou ele com segurança.

– Tu lá sabes o que eu quero – respondi com um certo desdém.

Artur abriu um meio sorriso. Sem aviso prévio, segurando-me firmemente pelas mãos, rodopiou, encostando-me a mim á árvore, apertando o meu corpo com o dele.

– Sei sim – respondeu com os lábios a roçar nos meus.

Pensei brevemente em empurrá-lo, mas sentia as entranhas revolverem-se em excitação. Lutei contra a tentação de o beijar.

Com um dedo no meu queixo, inclinou-me a cabeça de modo a olhar para ele. Raspava os lábios dele nos meus, á espera que eu o beijasse, fixando o olhar no meu, extaseando-me. Sentia agora a sua lingua ao de leve, humedecendo-me o lábio de cima. Voltou a pressionar o meu corpo com o dele, cingindo-me pela cintura.

Cedi finalmente, fechando os olhos, procurando avidamente por um beijo. Primeiro suave. Os seus dedos procuravam a minha cintura, por debaixo do casaco. A pressão aumentava tal como a avidez dos beijos. Sentia o seu calor, morno e perfumado envolvendo-me, estonteando-me.

Não sei durante quanto tempo nos beijamos. Senti-me ofegante quando nos afastamos.

– Anda – disse ele recuando, puxando por mim. – Tens de ir para casa.

Acenei afirmativamente. Envolvi-lhe a cintura com o braço, enquanto avançavamos pelo passeio escorregadio. Levava o cabelo á banda, e roía uma unha, não sentindo sequer que o casaco ia aberto, expondo o decote ao frio. Sentia o seu braço, envolvendo-me também, forte e seguro. Chegamos ao alpendre de minha casa. Não havia luz em nenhuma janela. A minha mãe devia continuar a dormir.

Subi as duas escadas do alpendre, virando-me para Artur. Ele subiu a perna direita para o primeiro degrau colocando a cara por debaixo da minha.

– Vemo-nos amanhã? – perguntou ele, roçando a nariz no meu. Acenei que sim, recomeçando a beijá-lo. Depois afastei-o colocando o dedo entre os nossos lábios. Puxei-o com força forçando-o a subir as escadas. Abri levemente a porta sem fazer barulho e voltei a aproximar-me dele.

– Acho que sei algo que quero fazer – sussurei-lhe ao ouvido, puxando-o para mim. – Fica comigo como naquela noite.

Artur vacilou. – Jéssica, e se alguém nos ouve?

– Não vai haver problema, prometo-te.

Artur não se moveu. – Não sei se será boa ideia – acrescentou.

– Foste tu que perguntas-te por alguma loucura que eu gostasse de fazer. Tu é que me incentivaste a ter ideias – brinquei, brindando-o com um olhar inocente.

Sem que Artur estivesse minimamente convencido, puxei-o para dentro de casa. O ar era ameno, como se fosse verão. A mãe gostava de deixar a toda a hora o aquecimento central ligado. Sem fazer-mos barulho, subimos ao de leve as escadas e entramos no meu quarto, trancando a porta. A luz pálida da rua, iluminava a divisão através da persiana meia corrida.

Embora a luz da rua fosse fraca, vi que Artur observava num sorriso o troça, todo o quarto, desde do papel florido de tons pastel e rosa velho que tinha escolhido com Susana numa loja de decoração, á enorme quantidade de almofadas de renda branca, e um cadeirão de bombazine cor de rosa, perto de um abajur branco com um peluche em cima.

Dei-lhe uma cotovelada. – Para o que estás a olhar? – sussurei baixinho.

Ele riu-se, encolhendo os ombros. – Betinha – disse baixinho num tom de troça.

– Pára! – murmurei, rindo-me também. – Tavas á espera de quê também? Já não sabes que sou betinha?

– Schhhh – fez-me ele (eu falára um pouco alto demais) – Tens a certeza qe ninguém nos vai ouvir?

– Não te preocupes.

Colocamos os casacos numa cadeira e descalçamo-nos, estendendo-nos de seguida ao comprido na minha cama completamente vestidos.

Estavamos ambos deitados de lado, virados um para o outro. Artur observava-me atentamente, passando suavemente a mão, brincando com uma madeixa do meu cabelo. Já estava habituada aquele olhar atento e inquiridor. Mas não me sentia menos curiosa de saber que pensaria ele nessas alturas.

– Não me chegaste a contar porque é que o baile te correu a mal –disse-lhe, apercebendo-me a certa altura que raramente me dava informações completas sobre ele.

Artur encolheu os ombros – Vendo em perspectiva não me correu tão mal assim.

– Não? – não consegui perceber o que ele me queria dizer com aquilo, mas também não tive tempo para pensar mais no assunto, pois Artur beijava-me novamente. Senti o sabor leve do tabaco misturado com a cerveja do bar.

Observei-o puxando levemente com os meus lábios, o sue lábio debaixo. Apreciava cada detalhe da cara magra, da tez morena, e os musculos tensos do maxilar. Aquilo era muito diferente de estar com Ricardo. Até ali tinha estado na duvida se sentiria o mesmo desconforto com Artur, mas o certo é que não sentia. Tinha até uma ligeira vontade de procurar mais avidamente por uma resposta corporal da sua parte. Tentei procurar nele a mesma vontade, apertei-o com as mãos um pouco de lado.

Procurei duvidosa pela sua expressão, talvez um pouco nervosa com as ideias que me trespassavam pela cabeça. Artur no entanto estava impávido, e não parecia ter qualquer duvida a incomodá-lo. Puxou-me mais para si, abraçando-me e encostando-me a ele. Senti a sua respiração regular na minha testa.

Alguma vez me sentira tão confortável e bem como naquele momento? Não sabia.

Senti ao de leve um beijo nos cabelos, e pouco depois adormeci, sem me preocupar com mais nada.

 

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