Capitulo 7

Chovia torrencialmente na manhã seguinte. A minha mãe ainda dormia estendida no sofá, esgotada com o trabalho, e eu não a quis acordar.

Calcei umas galochas amarelas impermiáveis por cima das calças de ganga justas, e vesti uma camisola verde com adereços amarelos. Diziam-me que vestir verde, dava ainda mais cor e profundida aos meus olhos, também verdes. Olhei-me demoradamente ao espelho, especulando qual seria a diferencia. Não via nenhuma.

Na verdade escolhia a roupa com uma nova preocupação. Não queria parecer demasiadamente snob como de costume. Não queria que Artur me visse apenas como a menina popular e egoista da escola.

Abanei no entanto a cabeça. Tinha problemas maiores com que me preocupar.

A aula de matemática era já no primeiro tempo, e não tinha acabado o último problema. Sentia-me zangada, sempre que pensava nao qantidade de deveres para casa, e como estava próxima de reprovar.

Para que raio ia eu querer saber todas aquelas fórmulas matemáticas no futuro? Provavelmente para nada.

Empurrei a custo uma torrada com sumo de laranja e saí para  enfrentar a chuva.

Devido ao variado leque de opções oferecido pela escola, raro era ter disciplinas em turmas iguais. Susana por exemplo apenas tinha português e história comigo. A aula de psicologia era a única opção em que via Artur. E Ricardo estava na mesma turma que eu em matemática. Presisamento o que iria ter daí a uns dez minutos.

Depois de ter adormecido com Artur, quase já não pensara em Ricardo. E tinha-me esquecido completamente que o ia ver nas aulas. E logo a primeira aula do dia.

Devido á chuva os corredores da escola estavam sobrelotados de alunos barulhentos. Dirigi-me ao meu cacifo, abrindo com alguns abanões a porta perra. Do lado de dentro tinha um pequeno espelho e alguns autocolantes de purpurina rosa, já um pouco desgastados desde do ano passado, com clichés do género “ Meninas boas vão para o seu, as más vão para todo o lado.”

Suspirei olhando para a porta totalmente decorada. Era urgente arranjar um dia para remodelar a decoração do meu cacifo.

Procurei no meio de vários cadernos e livros empilhados, um kit de sobrevivência essencial, que incluia uma escova de cabelo, para dias ventosos como aquele. Olhei inconscientemente para ver se alguem me observava a escovar o cabelo. Claro que havia os grupinhos de miudos do décimo ano, que me olhavam embasbacados como se eu me tratasse de alguma miragem, mas vê-los a eles e ver um corredor vazio para mim era o mesmo.

Estaria Artur a observar-me sem que eu desse por isso? Ou nem sequer tinha ido á escola naquele dia? Podia nem ter aulas naquele tempo, não sabia o horário dele.

“ Jéssica, estás a ficar paranoica”

Segui para a aula de matemática onde Ricardo já me esperava. Parecia manter a boa disposição de sempre, mas podia ver alguma apatia nos seu olhar.

– Olá – acenei-lhe. A situação não podia ser mais embaraçosa para mim. Nunca tivera grande paciência para nada.

– Desculpa ter-te dito o que disse por telefone. Devia ter esperado para estar contigo. – enquanto falava, remexia o cabelo liso castanho claro. O cabelo claro fazia contraste com a cor de pele, que parecia bronzeada todo o ano. O rosto era delineado, lembrando um pouco o actor James Dean, numa versão moderna. Ricardo era lindo e sabia-o. Desde de que Susana começara a andar com o capitão da equipa de futebol, que me chateava para o destino inevitável de andar com Ricardo.

– Desculpa ter-te deixado lá sozinho – comecei por dizer. – Mas a ideia de ir dormir a casa do Dani foi da Susana e eu não lhe queria estragar a noite. E também não me sentia bem ali. Tenho tido algumas dificuldades em conciliar o sono e não ajudou estar em casa do Dani.

-Tens tido insónias? – procurou a minha mão enquanto falava, mas eu apercebi-me e desviei, pondo-as nos bolsos.

– Também. Com todos os trabalhos e testes, não tenho conciliado bem o sono. Daqui a umas semanas a carga de trabalhos é menor.

– Tens o trabalho de hoje feito?

– Quase… adormeci sem fazer o ultimo.

– Anda eu dou-te as soluções – disse, retirando o caderno debaixo do braço, procurando pelo seu trabalho.

Embora estivesse a fazer o máximo que conseguia para afastar Ricardo de vez, não estava a conseguir pôr o plano em prática. Ricardo conseguia ser mais presuasivo, do aquilo que se acha á primeira vista. Assim do nada, parecia que nada se tinha passado desde de sexta á noite. E presisava mesmo do trabalho de matemática feito, se não me queria ser chumbada áquela disciplina.

– Olha aqui no segundo problema, enganaste-te. O valor de x não é positivo – disse ele, apagando com uma borracha, e entregando-me um lápis para que pudesse corrigir o problema. – Agora não há tempo, mas mais tarde explico-te isso. É importante, esta parte, sai no teste da semana que vem.

Olhei um tanto agradecida para o seu rosto compenetrado enquanto  corrigia o meu trabalho, e para os sorrisos ultra brancos que me ia lançando, como se tivesse feito uma branqueamento dentário, nessa mesma manhã.

– Desculpa mesmo aquilo de sexta á noite – murmurei para que os alunos que se tinham juntado também á porta da sala de aula, não pudessem ouvir.

– Esquece lá isso – puxou-me para si, apertando-me contra o seu corpo de atleta, dando-me um beijo repenicado na face.

– Pega – entregou-me as folhas rabsicadas com a minha letra. – Acho que tens tudo bem, mas se quiseres depois das aulas podemos estudar um bocadinho juntos. Afinal, somos amigos não somos?

Acenei-lhe com a cabeça sorrindo, e na sua companhia, entrei para a aula, depois do professor abrir a porta.

Estava já no fim da rua, de acesso a minha casa. Tinha passado uma manhã calma com Ricardo, que me dera algumas explicações rápidas de matemática na biblioteca, e até tinhamos comido juntos na cantina da escola, que já de si era uma aventura. Depois de algumas experiências quimicas com uma substancia verde viscosa de consistência arenosa que a escola teimava por chamar de gelatina, Ricardo acompanhara-me até meio caminho de casa, e despedira-se com um beijo na testa e um dos seus melhores sorrisos. Era uma sensação estranha.. Ele sabia levar-me, e eu muito embora não quissesse, ia na mesma. Era-me complicado dizer-lhe que não a alguma coisa, quando ele acertava tão bem na melhor forma de lidar comigo.

Galguei relativamente bem disposta, a rua suburbana, silenciosa depois da hora de almoço. Não tinha visto Artur na escola, nem soubera novidades dele. Aquele dia parecera-se com todos os outros da semana anterior. Susana parecia contentissima de me ver a almoçar com Ricardo, como se nada fosse. Talvez as coisas devessem ser assim. Era o circulo natural delas.

Subi as escadas de madeira, do alpendre de minha casa, procurando distraída pelas chaves, na confusão da carteira. Tropecei em algo, dando-lhe um pequeno chuto. O Que era?

Um pequeno livro de Freud e das teorias psicanaliticas estava no chão, agora um pouco sujo depois do chuto que lhe dera. Reconheci o livro como o auxiliar de leitura que comprára no inicio do ano com a minha mãe. Que faria o livro ali no chão da entrada?

Peguei nele, entrando em casa, e desfolhei-o rapidamente, enquanto fechava a porta com um movimento da anca. Uma folha pequena estava entre as páginas.

Desculpa, fiquei-te com este livro emprestado, mas acho que nem deves ter dado conta… Vem ter comigo hoje á noite á velha rua do moinho ás 23h. A velha Jéssica não viria.Tu vens? ”

Senti-me corar um pouco ao ler o bilhete, pois não estava á espera de tal missiva. No momento seguinte no entanto já me sentia a repensar

Pousei o pequeno livro e a folha, no balcão da cozinha, juntamente com a minha carteira e livros escolares. Abri um pacote de sumo natural de maçã, olhando embirrada para o copo.

Quem era ele para me convidar por bilhetinhos e estar á  espera que eu aparecesse? Odiava jogos de todo o tipo, e muito menos gostava daquele. Dois bilhetes seguidos, sem numero de telemóvel, sem eu ter maneira de responder, sem nada. Sentia-me colocada numa posição submissa. Deveria não ir, só para o deixar fica mal? Mas se não fosse, seria apenas a velha Jéssica, sem que a vida mudasse em nada.

Após uma manha na companhia de Ricardo, a minha vida normal voltara a ser imposta. Relembrei o sorriso de Susana quando passou por nós os dois no corredor e nos convidou novamente, a mim e a Ricardo, para irmos a casa do Dani no próximo sábado. E mais uma dose extra de trabalhos de matemática, uma tradução de um texto de vinte paginas para inglês. No telemovel uma mensagem de Susana para irmos ao centro comercial durante a tarde comprar metade das novas colecções que as lojas apresentavam. A minha vida era aquela, sempre tinha sido. E sempre tinha chegado. Mas agora, já não me era suficiente.

Meti o bilhete no bolso, sentindo que este acompanhava o sentimento de dúvida que me fazia sentir. Pensei na vontade de rever Artur, e no que diria Susana se me soubesse sozinha a meio da noite, a ir até aquela parte da cidade. Era um desafio para o qual a “nova Jéssica” estava pronta.

Saí de casa, embrenhada num nevoeiro escuro e denso. Ainda teria de andar quase dez minutos a pé. A minha mãe deitara-se cedo, nem dera por mim a sair, caso contrário não aprovaria de certeza que saísse á noite com aulas na manhã seguinte. As ruas encontravam-se silenciosas, apenas passava um carro ou outro, com faróis de nevoeiro ofuscantes.

Levava uma botas pretas de cano alto, estilo tropa, e um vestido de malha também preto. Por cima, um casaco vermelho bem quente que me chegava até aos joelhos. Sentia-me recuar duas décadas atrás. Não tinha o número de telemovel dele, e teria de o encontrar visualizando cada  pessoa na rua do moinho. E se ele não estivesse lá?

Cheguei finalmente á entrada da rua. Por ser dia da semana não havia muito movimento. Fileiras de bares escuros e cervejarias, emitiam um som abafado de várias músicas diferentes, e havia algumas pessoas a estacionar carros ali perto. O moinho ficava mesmo no fim da rua, era um edificio branco com pintura descascada, e visto assim não me parecia grande coisa.

Olhei em volta mas não vi Artur. Com nevoeiro era impossivel reconhecer alguém ao longe. Decidi percorrer a rua em passos curtos. Se chegasse ao moinho sem o avistar voltaria para trás.

Quase a passos de chinesa, e já um pouco receosa de ter ido para ali ás cegas, percorri a rua. Alguns rapazes uns anos mais velhos que eu acenavam-me para entrar num dos bares. Desviei o olhar para o chão.

No entanto, olhar para o chão não era a melhor maneira para encontrar Artur. As botas calcavam gravilha, e faziam estalar pequenos galhos, num passeio sujo, cheio de copos de plástico e beatas de cigarro. Decididamente aquele não era o meu género e sitio.

Cheguei ao moinho. De perto a tinta descascada era ainda mais visível. As mós eram já de uma madeira quebradiça comida pelo caruncho. Olhei para ambos os lados. Não via ninguém. No meio daquele nevoeiro não destinguia nada a menos de três metros de mim. Estaria Artur tentando também procurar-me no meio daquele nevoeiro? Ou nem teria chegado a vir? A ansiedade enfurecia-me. A sensação era tão desconfortavel que senti o estômago a endurecer.

“Não veio” – pensei – “ Vou voltar para trás.”

Não queria no entanto voltar  a passar pelo mesmo grupo que me havia chamado. Tinha visto num programa de televisão qualquer que os criminosos atacam sempre vitimas que demonstrem encontrar-se desnorteadas, podendo esse ser o factor de acção. E quantos mais factores ajudariam ali? A escuridão, o nevoeiro..

Incomodada atravessei a rua. Só queria apressar-me e chegar a casa. Que estupida tinha sido por ter vindo. Mal sentia as pernas, protegidas apenas por meias de lycra opacas. A humidade parecia envadir-me até aos ossos. Porque tinha vindo? Quebra tradições? Sair da minha area de conforto já não parecia um grande plano. Ouvia ao longe barulho de risos, sentia-me observada.

Olhei á volta procurando um taxi. Afinal aquela era uma zona de bares, deveria haver táxis ali perto. Sabia que havia ali perto uma pequena praceta de táxis, mas envolta na neblina era impossivel descobri-los ao longe.

Um estalar de ramos ali perto sobressaltou-me. Seria uma cão? Não definitivamente não era. Eram passos. Distinguia o barulho seco de gravilha a ser calcada atrás de mim. Deveria correr ou olhar para trás para perceber do que se tratava? A indesição bloquou-me o andar. Estaquei, apenas ouvindo. Firmemente decidida, olhei então para trás.

Ao inicio destinguia-a apenas um vulto escuro que caminhava para ali. Depois já aliviada reconheci-o. Era Artur.

– Ah, bem me parecia que eras tu. Com este nevoeiro não dava para ter a certeza – disse ele sorrindo, aproximando de mim.

Usava gorro, com o cabelo liso e preto atrás das orelhas, cada uma com três brincos. O corpo era atlético, mas mais magro que Ricardo. A roupa  era larga, escura e simples. Sorria-me com simpatia, embora sem certeza pudesse vislumbrar um leve ar de troça. Saberia que me tinha assustado? Teria o medo tomado conta da minha expressão?

Não. Estava calma e fria como sempre. Já era profissional em controlar qualquer expressão e emoção.

– Já ouviste falar em telémoveis? – perguntei, com uma leve pontada de arrogância.

– Desculpa – respondeu quase divertido, sem sombra de arrependimento. – Mas não podia adivinhar que ia estar este nevoeiro. Se não tivesses um casaco vermelho acho que não te teria visto.

–  Devia-mos ter combinado um outro dia.

– Hoje é um dia como outro qualquer. Anda, não se pode com o frio.

Atravessamos a rua, e passamos por o grupo de rapazes que fumavam ainda á saída de um dos bares. Ao verem-me agora acompanhada, limitaram-se a ver passar em silencio, e depois desviaram o olhar. Artur caminhava alheio a tudo. Será que me tinha visto a subir e descer a rua, desnorteada? Sentia-me a corar.

Qualquer posição de inferioridade não era decididamente meu género.

 

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