Reflexão do dia – A inveja como estado de espírito

O tema de hoje pode vir a ser complexo, e nem sempre de compreensão total. “Esgravatar” os  motivos da inveja é algo que muitos acham não ser sequer necessário. Mas não será uma forma de conhecimento e altruísmo, tentar conhecer e perceber, todos os comportamentos do ser humano? Incluindo os maus, como algo tão importante como os bons? Admitir que sentimentos maus existem, tal como os bons? Dá sempre que falar… Mas ja lá vamos…

Muitas vezes ao criar personagens, não podemos apenas criar um nome e uma descrição de um corpo. Todo a sua personalidade, previsão de comportamentos e individualidade, deve ficar registada.

Ao escrever um livro dedicamos o tempo a conhecer nós próprios as nossas personagens, o porquê de fazerem o que fazem, criando uma vasta linha de hipóteses, que podem variar consoante os estimulos internos e externos que decidimos se existem ou não.

Um texto escrito por nós próprios, é o nosso pensamento, a criação do nosso mundo. E fazer com que o nosso mundo se parece com a realidade e predictabilidade de comportamentos, remete-nos a vários exemplos de vida. É simplesmente mais facil, recriar personagens, inspiradas em pessoas que já conhecemos, do que em algo que nunca vimos, ou presenciamos.

No entanto á que tentar entender todos os pontos de vista possiveis, e tentar perceber não só os bons comportamentos, como também os maus comportamentos. Por vezes, algumas acções são mais complexas do que simplesmente estereotipar a pessoa como “má peça”. Temos de entender todos os lados possiveis, e perceber as razoes que levam o individuo a agir de uma certa forma.

Criar uma boa personagem, é criar um ser vivo num mundo paralelo. Isto não quer dizer, que este não mereça ser congruente, realistico, e veridico.A criação de uma boa personagem, pode ser mais dificil do que possa parecer ao inicio.

E, contrariamente á vida real, gostando dela, ou não, temos que a fazer perceber a nós próprios, e aos leitores, quais os motivos da nossa personagem.

Deixo-vos com um antigo trabalho universitário meu. Espero que consigam expandir o vosso ponto de vista, e perceber que o bem e o mal, pode ser bem mais complexo do que uma simples categorização.

A visão psicanalista da inveja

A visão psicanalista defende que a inveja é um impulso causado pelo ódio, que já se encontra presente no indivíduo desde da mais tenra infância.

Segundo Spinoza (cit in Trica 2009) a inveja é “o ódio que afecta o homem de tal modo, que ele se entristece com a felicidade de outrem, e ao contrário, se alegra com o mal a outrem.”

A inveja cria impulsos negativos que têm como intenção, destruir ou apoderar-se dos bens de outra pessoa, para acalmar uma pulsão de infelicidade do sujeito.

Segundo Trica (2009) a inveja é o ódio que se intensifica, podendo assim ser considerado um sentimento. Este sentimento é intensificado quando o indivíduo se sente destabilizado devido a um complexo de inferioridade em relação a um ou mais indivíduos.

O indivíduo sente culpa por ser inferior e fantasia com aquilo que pensa fazer-lhe falta. Acredita ser merecedor daquilo que fantasia, e quando a realidade não lhe proporciona o que ele sente ser merecido, o ódio e a humilhação são projectados para um sujeito que o indivíduo não considera estar ao seu nível, não tendo por isso direito a ter aquilo que este não tem.

Segundo a teoria kleiniana o impulso destrutivo esta sempre presente na inveja e estão já presentes no bebé quando este por exemplo ataca a mãe, tentando destruir algo supostamente bom que sente estar a perder, tal como por exemplo na substituição do seio pelo biberão. A teoria psicanalista acredita que a inveja é uma pulsão de morte, de destruição, que vai contra as pulsões de vida, aquelas que nos dão prazer.

O bebé sente-se amado, sente-se vivo, e sabe que existe através do contacto com a sua família, e vai experienciando relações de prazer e afecto.

Segundo Trinca (2009), a altura do desmame vem frustrar o bebe causando angustia e raiva, que ele vai projectar no objecto perdido, tendo assim uma pulsão de morte contra uma pulsão de vida.

Sendo a inveja um sentimento tão precoce Melanie Klein cit in Trinca 2009, considera que a inveja é um elemento básico do campo emocional, e que quanto mais precários forem os cuidados com o bebe, mais este tende a desenvolver futuramente sentimentos de inveja.

“O invejoso é, pois, um ser vingativo que se sente roubado de sua segurança existencial  e de sua satisfação plena de viver.” (Trinca 2009)

O conceito de inveja pode ser descrito como “o sistema mental determinante é constituído pelo padrão dominante do funcionamento mental inconsciente e consciente que tende a se estabelecer de modo relativamente constante por períodos relativamente prolongados” (trinca 2007 cit in Trina 2009)

A inveja é assim um estado de que o indivíduo pode ou não ter noção, mas no entanto despoleta neste o sentimento de cobiça, de vingança, sentimentos estes causados pelo sentimento de inferioridade em relação aos outros que atormentam o sujeito.

Podemos referir que a inveja tem como base a comparação que o individuo faz de si com os outros, sendo esta que provoca o sentimento de ódio e vingança que a inveja despoleta.

Segundo Trinca (2009), a inveja pode mesmo ser um mecanismo de defesa do self. Quando pacientes procuram ajuda psicológica, por exemplo, por vezes podem-se sentir ameaçados pelos concelhos do terapeuta. Ignoram a ajuda que este lhes pode prestar, para simplesmente esconderem a sua fragilidade por detrás da inveja. Esta inveja pode ser resultante de sentimentos negativos, em que o individuo se sente desqualificado, e pouco competente para se gerir a si próprio.

Entra assim em acção a inveja como mecanismo de defesa, sendo que o paciente discorda do terapeuta pois não quer admitir a sua fragilidade, querendo proteger a sua própria imagem do self.

Reviere cit in Trinca 2009, acredita que assim, a inveja pode ser uma “defesa para a desqualificação interna.”

Quando o individuo se vê perante bens que outra pessoa possui, o sentimento de impotência e de rebaixamento pode ser assim projectado para o ódio por essa pessoa ou por esse objecto, tendo como objectivo destrui-lo para uma manutenção e protecção do próprio self.

    Quanto mais frágil for o self da pessoa, tal como a sua situação psicológica, mais propicia está a sentimentos invejosos.

 

    A inveja, outro ponto de vista

“A inveja, por sua vez, é a sensação de desconforto, raiva e angústia perante a constatação de que outra pessoa possui objetos, qualidades, relações que o indivíduo gostaria de ter, mas não tem. A inveja pode ser importante fonte de sofrimento em indivíduos imaturos, extremamente neuróticos e com transtorno de personalidade. Além disso, a inveja intensa pode ter efeitos devastadores nas relações interpessoas.”       Paulo Dalgalarrondo, (2000)

Podemos com isto refletir sobre as consequencias que a inveja pode causar nos individuos. Trantornos psicologicos podem causar impulsos invejosos no individuo, sendo estas destrutivas para si mesmo. Este complexo de inferioridade, ou de imaturidade,  é refletido em pessoas com baixa auto-estima. É mais facil para o individuo destruir ou possuir aquilo que já é de alguem, do que ter a capacidade própria de conseguir as suas proprias conquistas.

É crucial a autocomparação para o desenrolar deste sentimento. Se um individuo centrar a sua atenção na sua vida, e se concentrar em construir as suas proprias conquistas, não estaria tão propicio a sentimentos invejosos.

Com um bom nivel de auto-confiança é possivel ao individuo viver sem cobiçar aquilo que não lhe pertende, ou esforçar-se para ser ele proprio a alcançar o que pretende.

            O individuo deve por isso centrar-se no seu próprio potencial e sentir-se motivado com o exemplo dos outros, para poder subir na vida, sem sentir magoa ou rancor pela conquista de outra pessoa.

A inveja é a defesa dos mais fracos contra os mais fortes.

 

Senso Comum

“A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandes coisas, anões em gigantes, indícios em certezas” (Miguel Cervantes)

A palavra inveja deriva do latim “invidere”, que significa não ver. É um sentimento de egocentrismo, por não suportar a ideia que o outro possa ser melhor.

Para os católicos, a inveja é um dos 7 pecados mortais: desejo por atributos, posses ou status da outra pessoa.

É a vontade frustrada de ter o que é dos outros pois não possui as competências adequadas para tal.

Os mais fracos são incapazes de atingir certas conquistas na vida, recorrendo por isso aquilo que não lhes pertence. Atingem um nível de satisfação ao retirar do outro para darem a si próprios.

Aos olhos dos invejosos, as conquistas dos outros parecem de algum modo mais grandiosas do aquilo que realmente são. Despertam no invejoso uma sede de vingança inexplicável até para ele próprio, alegrando-se com a tristeza que causará na pessoa.

A inveja em senso comum também se designa como o acto de não querer partilhar os seus bens com ninguém.

Uma criança invejosa é criticada por não emprestar os brinquedos a outra criança, embora sinta vontade de brincar com o que não e dela também.

Existe no entanto em senso comum uma ligação muito forte entre ciúme e inveja, havendo ténues diferenciações.

Conclusão

            Podemos concluir que a inveja, numa visão psicanalítica, funciona como uma pulsão de morte, sobre uma pulsão de vida, ou seja, o indivíduo destrói ou apodera-se de um objecto que sente como merecido, para proteger o self de lacunas como o rebaixamento e a inferioridade. A inveja funciona assim como mecanismo de defesa para com o self.

Indivíduos psicologicamente perturbados têm assim uma maior possibilidade a este tipo de sentimento.

A inveja é no entanto um sentimento composto por vários tipos de emoções, tal como tristeza, magoa, que o indivíduo sente por si próprio, e por fim, um ódio projectado. Após a destruição ou apoderação do objecto, o invejoso sente alegria com a tristeza do outro, que lhe causou mágoa anteriormente. Isto demonstra também a necessidade de vingança que a inveja faz sentir.

Podemos concluir que a inveja é assim uma mistura complexa de emoções e estados de espírito que podem variar de pessoa para pessoa.

Leva-nos a pensar se o ser humano não nasce já propicio a inveja, logo que sente as primeiras angustias na vida, logo na tenra idade, o que o leva a uma protecção determinada de si como ser vivo, que existe, que é vivo e que se quer impor para a vida.

A humanidade deve assim como individuo singular, enriquecer a sua personalidade e conducta, para que aquilo que não lhe pertence, lhe traga apenas incentivo de crescimento.

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